4. De Ricardo a Stuart Mill, ainda outra aula para um ministro de ignorante disfarçado
(Continuação)
Ainda sobre as questões que estamos aqui levemente a levantar, que passam por levantar a questão da necessidade de se colocar um travão nesta globalização selvagem nem que seja à custa de uma limitação na abertura aos mercados mundiais, vale a pena relembrar um texto de Bourguinat:
“Talvez seja mesmo de desejar que se abra no campo da teoria do comércio internacional, uma dessas “extraordinárias” fases que, de acordo com T. Kuhn, acontecem, mais cedo ou mais tarde para todos os paradigmas. Nada se diz contudo que não se tenha também que dar algum espaço para a reabilitação da ideia de uma abertura controlada que continua ainda a estar hoje, reconhecidamente, por inventar na sua maior parte.”
Relembro ainda aqui, também, uma afirmação de uns textos que irão ler: a globalização faz vítimas sobre “os países que não quiseram ou não puderam na altura própria conservar a sua base industrial” E todos nós, na Europa, com excepção de momento dos alemães, estamos a perder a nossa base industrial.
Mas o nosso aluno neoliberal da Universidade Nova saído é teimoso. E responde: podemos vender-lhes serviços e não há problema nenhum. Deixem sorrir amargamente. O nosso estudante não leu a peça sobre a Renault, onde os trabalhadores altamente especializados e de alto nível de formação só davam um “cheiro”, só davam uns toques ao design já efectivado no estrangeiro para o adaptar ao gosto local. Podemos, para anular o resto dos excedentes comerciais criados pelo exterior e se a actual política continua a ser seguida vender-lhes serviços de baixo de gama, podemos como um todo, como a Europa, colocarmo-nos a seguir em paralelo com os países em vias de desenvolvimento contra os quais depois iremos concorrer para aos países emergentes vencedores nesta globalização podermos serviços fornecer. Neste caso, o nosso estudante da Universidade Nova que fique avisado: se este drama sobre a Europa continuar já nem da sua Universidade eles depois precisarão, precisarão isso sim de mão-de-obra barata que ele não quer ser. Esse nosso estudante, filho da média burguesia alta com a cabeça cheia de matemáticas mais ou menos empinadas, cheia de teoremas da realidade desfasados, responde-me que ele um bom emprego terá. Tudo bem, que assim seja mas que os outros também o possam ter e em igualdade de circunstâncias, desejei eu e de tudo isto passarei eu a duvidar se por este caminho se continuar.
A este imaginário estudante, expressei pois um sonho meu de um momento fugaz de uma noite de Verão. Com efeito, olhemos para um relatório recente sobre a evolução do emprego em França, questão que os autores ligam à desindustrialização, para termos uma ideia actualizada dos ventos frios que de outros continentes estão a varrer o nosso tecido industrial desta e nesta Europa aos mercados bem submetida.
Empregos no sector da indústria transformadora
Desde 2009, o sector da indústria transformadora destruiu mais postos de trabalho do que aqueles que criou, para um número de quase 100 000 empregos industriais perdidos em cerca de três anos. Enquanto em 2010 a economia francesa tomada globalmente como um todo começou a criar postos de trabalho, a indústria continua a perdê-los.
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2009 |
2010 |
2011 |
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Indústria transformadora |
-79 870 |
-14 294 |
-5 105 |
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Conjunto da economia |
-117 338 |
12 665 |
18 294 |
Saldo líquido dos empregos criados ou suprimidos nos anúncios dos investimentos e dos desinvestimentos referenciados pelo ’Observatoire de l’investissement de Trendeo
Subsectores da indústria transformadora diversificados
Alguns sectores têm continuado a criar postos de trabalho
A indústria transformadora engloba um grande número de ramos, alguns dos quais continuaram a criar postos de trabalho para o período 2009-2011. Os três mais importantes são: a construção aeronáutica e espacial, dinamizada por Airbus; as indústrias alimentares; as indústrias de couro e calçado – principalmente com a marroquinaria de luxo. Observa-se que o sector aeronáutico está a evoluir em sentido contrário ao da melhoria havida desde 2009, uma vez que o saldo anual dos empregos criados anual de postos de trabalho criados, embora permaneça positivo, tem-se reduzido consideravelmente.
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2009 |
2010 |
2011 |
Total |
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Construção aeronáutica e espacial |
1 596 |
1 167 |
462 |
3 225 |
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Indústrias alimentares |
375 |
649 |
312 |
1 336 |
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Indústria do couro e do calçado |
-551 |
996 |
779 |
1 224 |
Saldo líquido dos empregos criados ou suprimidos nos anúncios dos investimentos e dos desinvestimentos referenciados pelo ’Observatoire de l’investissement de Trendeo
Os sectores que eliminaram empregos
O automóvel é, de longe, o subsector de fabricação que mais destruiu postos de trabalho ao longo do período, com cerca de 30.000 empregos suprimidos – sem contar também com os empregos nos outros sectores envolvidos no sector automóvel, tais como o sector dos plásticos. Em seguida, vêm a indústria farmacêutica, o material electrónico, o da informática, o da óptica, o da química e o da metalurgia.
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2009 |
2010 |
2011 |
Total |
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Indústria automóvel |
-22 825 |
-5 717 |
-798 |
-29 340 |
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Indústria farmacêutica |
-3 109 |
-1 925 |
-1 790 |
-6 824 |
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Material informático, electrónico e óptico |
-6 509 |
-428 |
340 |
-65 97 |
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Indústria química |
-5 623 |
-361 |
-564 |
-6 548 |
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Metalurgia |
-3 950 |
-1 124 |
-1 386 |
-6 460 |
Saldo líquido dos empregos criados ou suprimidos nos anúncios dos investimentos e dos desinvestimentos referenciados pelo ’Observatoire de l’investissement de Trendeo “
E face a estes dados o nosso estudante da Universidade Nova calou-se, pois deixa-se de ter dúvidas: trata-se de linhas de produção onde não é baixo o emprego de mão-de-obra de alto nível de qualificação que estão a ser abaladas pelo processo de globalização e da concorrência selvagem que lhe está associada. Mão-de-obra altamente especializada abunda e de que maneira por outros continentes e o capital completamente móvel saberá aproveitá-la como substituição da que deixa de aqui utilizar. O nosso estudante da Universidade Nova sentiria na pele que agora era a classe média, os seus filhos, os quadros técnicos dela saídos, que passariam a ser fortemente atingidos e o ar de susto que lhe viria passar pelos olhos seria pois disso um sinal claro.
Em contrapartida o nosso estudante do Marx crítico adepto, diz-nos, citando Marx; “a natureza do capital só se exprime na realidade como uma necessidade externa, através da concorrência. Esta faz com que os numerosos capitais imponham a eles mesmos e aos outros as leis imanentes do capital”. E não esqueçamos que “historicamente a concorrência significa a dissolução dos constrangimentos corporativos da regulação do Estado, a abolição das fronteiras no interior de um país, sobre o mercado mundial, significa a eliminação dos entraves à circulação das mercadorias enquanto produtos do capital, significa a eliminação de tudo o que a proíbe, significa a eliminação do proteccionismo”. Pois é, isto parece o programa de Pascal Lamy, da Organização Mundial do Comércio, retorquiria eu a este aluno de ar manhoso. Mercado mundial é do que se fala e já bem longe do universo simplista de Ricardo e de Stuart Mill. E, de repente, pegamos num jornal recente[1], sobre as energias renováveis, as energias limpas, um sector de ponta hoje:
“Energia Solar: Os actores europeus lutam para sobreviver
As empresas Q-Cells e SolarWorld viram as suas receitas afundarem-se no terceiro trimestre. Os industriais chineses envolveram-se numa guerra de preços muito violenta. SolarWorld acusa-os de concorrência desleal.
O choque é de uma incrível violência. Confrontados com uma queda nos preços de 40% desde o início do ano, os industriais ocidentais do solar vêem o chão a fugir-lhes debaixo dos pés. O fabricante de painéis Q-Cells registou uma perda de resultados de 47 milhões de euros no terceiro trimestre para um volume de negócios a descer mais de 43%, para 229 milhões de euros. Exangue, Q-Cells confirmou que pode não ser capaz de pagar uma obrigação conversível de um pouco mais de 200 milhões, a liquidar em Fevereiro. Os seus títulos caíram ontem (Dezembro de 2011) cerca de 30,76% na bolsa de Frankfurt e o director financeiro demitiu-se.
SolarWorld, um fabricante de painéis, também está sob forte tensão. As suas vendas caíram mais de 30% no terceiro trimestre. Fortemente atacada pela concorrência da China e a queda dramática do mercado alemão [devido à crise], o grupo registou um prejuízo líquido de 9 milhões no período, contra um lucro de 20 milhões no ano passado.
“A crise da dívida e do euro colocou em dificuldade muitos clientes finais e daí resulta um adiamento de investimento nas explorações, as quintas solares, sublinhou e Pierre-Pascal Urbon, CEO da fabricante de onduladores SMA Solar, ainda ontem.
Todos os actores do sector estão a ser atingidos. No início de Novembro, a subsidiária da SunPower Total ficou na zona de perigo financeiro, a vermelho, e anunciou uma redução de despesas que poderão ir até 10% no próximo ano. Em 26 de Outubro, o norueguês REC anunciou o encerramento de três fábricas na Noruega, enquanto no mesmo dia, o Director do líder mundial no sector, o americano First Solar foi levado a abandonar o seu Conselho de Administração.
Impor direitos alfandegários [pedidos a Washington pelos industriais alemães e para serem aplicados em Washington!]
Desde o início do ano que o sector viu o seu valor bolsista cair em mais de 60%. “Um grande número de actores desaparecerá”, pensa Didier Laurens, analista da Société Générale. Alguns deles serão chineses. Sob a pressão, vários fabricantes do Império do Meio tiveram já que rever à baixa os seus objectivos de vendas e margens de lucros nestas últimas semanas.
Encostados à parede, os industriais ocidentais procuram defender-se contra uma concorrência chinesa considerada desleal. Na linha de mira, empresas como a Suntech, Yingli ou Trina Solar… Depois da falência de três fabricantes americanos, sete fabricantes, entre os quais o alemão SolarWorld, pediram em Outubro a Washington a imposição de tarifas aduaneiras sobre as importações provindas da China, avaliadas em mais mil milhões de dólares em 2010. Para estes industriais, a China utiliza todos os tipos de técnicas (reduções de impostos, empréstimos preferenciais,…) para subsidiar as suas exportações. Em plena fase de crescimento, estas alcançaram em Julho um volume maior do que o do todo o ano de 2010.
[1] Les Echos, Novembro de 2011.
