Diário de bordo de 13 de Janeiro de 2012-01-12

 

 

Emigrem e morram!

 

Hoje é dia 13 e sexta-feira – dia mau para os supersticiosos. Nós não somos supersticiosos – dizem que dá azar…  Ano Novo na Rússia segundo o calendário Juliano, desfasamento com o nosso calendário Gregoriano que colocou a Revolução de Outubro de 1917 em Novembro.  De azar, não necessitamos nós em Portugal – um Governo como o que temos, abastece-nos de azar a cada momento que passa. Tínhamos um executivo liderado por um homem que não nos dizia a verdade, pois sabia que a verdade era indizível. Agora temos um homem que nos diz a verdade (às vezes) e nos prepara para verdades que ele a sua equipa de gente incompetente e insensata se encarregam todos os dias de tornar mais negras. E este senhor de ar pomposo, que nos revela a desgraça em que estamos mergulhados, vai distribuindo tachos por gente do seu partido – jovens e velhos estão a ser contemplados com cargos para os quais a maioria não terá competência. Pelo menos há umas centenas de portugueses que fogem à crise.

 

E o PSD está em grande. Até do Museu da Madame Tussaud ressurgem figuras do passado para nos assombrar o presente e o futuro. Sá Carneiro, político medíocre que não produziu uma página que seja preciso citar, era demasiado revolucionário comparado com os actuais «social-democratas» e até assinou um decreto determinando que os subsídios de férias e de Natal eram inalienáveis. Indo mais para trás na proto-história do  PSD, recuando no tempo, temos o PPD, a Ala liberal da Acção Nacional Popular, a União Nacional… Talvez limparem da poeira o discurso de Salazar em 1933…

 

Anteontem, uma dessas figuras de cera, a septuagenária Manuela Ferreira Leite, no programa Contracorrente, na SIC Notícias, deu uma achega importante para resolver a crise. Passos Coelho disse aos jovens – «emigrem !». Esta senhora vem dizer aos velhos – «morram!». Aos velhos, é como quem diz, «aos velhos pobres», pois os que tiverem posses – com ela – podem continuar vivos, mesmo após terem passado o prazo de validade.

 

A jornalista Ana Lourenço perguntara ao sociólogo António Barreto se “não acha abominável que se discuta se alguém que tem 70 anos tem direito à hemodiálise ou não?” Manuela Ferreira Leite respondeu por ele: –  “Tem sempre direito se pagar. O que não é possível é manter-se um Sistema Nacional de Saúde como o nosso, que é bom, gratuito para toda a gente. Para se manter isso, o Sistema Nacional de Saúde vai-se degradar em termos de qualidade de uma forma estrondosa”. Na sua óptica, quem tiver mais de 70 anos, embora tenha uma carreira contributiva que lhe devia garantir todos os cuidados de saúde  de que necessite, já não está cá a fazer nada. E reforçou com o argumento de que  se a hemodiálise continuar a ser disponibilizada para todos, então o sistema não funcionará “nem para ricos, nem para pobres”. Ao menos que funcione para os ricos – os pobres cumpram o seu dever patriótico e contribuam para a solução da crise, morrendo.

 

Digam lá, se com gente desta a governar, alguma sexta-feira, dia 13, nos assusta?

8 Comments

  1. Augusta Clara, aquela norma interna de cortar os comentários que contenham linguagem imprópria, não a poderíamos esquecer por hoje? Os argonautas do Porto e os outros poderiam usar as expressões vicentinas que a intervenção da dona Manuela justificam – o que achas?

  2. Bruxa, Augusta? Não insultes as bruxas, esta Senhora Dona é um estafermo, um susto com dois olhos que devia vir fazer esse tipo de discursos aqui na ribeira do porto. A Nélinha deve pensar que os 70 anos dela são diferentes dos que ela deixou sem tanga. Devia era ter vergonha na fronha e ir limpar latrinas. Desculpem mas estes FDP precisavam de viver com o ordenado mínimo…que os pariu a todos os que estão a destruir os SNS que já nem sequer é tão bom como nos fazem crer, é só viajar por essa europa e à excepção de inglaterra já caímos no ranking humano, raio que os parta, sacanas! “tendicialmente gratuito!?” Inês (Porto)

  3. Não sei se me irei repetir…Aquele género de palavras que o Carlos designa por “linguagem vicentina”, outros por “palavrões” (= palavras grandes?…) ou “calão” e a minha avó por “linguagem de carroceiro” – expressão que tinha o mérito de, inconscientemente, apontar a intencionalidade classista da sua “exclusão” – mais não é do que a linguagem do povo que, tendo de designar objectos, substâncias, actos, em geral naturalíssimos, da vida comum e quotidiana, mas banidos da conversação e, muitas vezes, do próprio conhecimento – como sabemos – da “gente de bem” (cuja componente masculina as utilizava em reuniões exclusivamente viris e em casas de meninas, lupanares ou como queiram chamar-lhes), com intenções hipocritamente moralizadoras, repressoras da livre expressão e uso ou usufruto (conforme o caso) de necessidades humaníssimas, recorria às palavras “vicentinas” (= antigas) que conhecia, derivava do latim vulgar, ou ia inventando (nunca no “vácuo” pois sempre existiram palavras semelhantemente classificáveis, diferentemente valoradas, conforme as civilizações que, por vezes, apenas as aproveitavam como motivo de humorismo mais ou menos banal ou de sátiras mais elaboradas, com frequência de excelente qualidade literária).Não sou, pois, adepto da exclusão de tais palavras – como também não sou da sua banalização -, por uma errada noção de respeito por pessoas que foram (des)educadas segundo os parâmetros sócio-religiosos referidos e que, neste como noutros âmbitos, fazem questão de ser “respeitadas”, mas escusam-se a respeitar os que não se movem dentro dos mesmos cercados “educacionais” ou não seguem as suas crenças religiosas ou sacro-classistas: p.e., não tendo eu religião, não admito sequer que algum adepto de qualquer confissão religiosa repute alguém de “blasfemo”, fora do conjunto dos seus correligionários: é um desaforo e uma tolice, visto que, se posso aceitar e respeitar o outro, tal não significa que aceite e respeite aquilo em que crê – se não creio em nenhum deus, a “blasfémia”, que está devidamente delimitada em cada doutrina que a inclua, não existe no meu “sistema de valores”, o que o crente tem de respeitar, se quiser ser respeitado.Voltando ao tema: tais palavras, em anos recentes acolhidas – finalmente! – nos Dicionários da língua, com a designação de “tabuísmos” (i.e., referentes a temas “tabu”), não são menos que as outras… nem mais. Pelo que o seu uso só pode ter como norma adequar-se ao que se pretende exprimir. Tal não significa que, pessoalmente, recorra muito a elas, até porque, queiramos ou não, o seu “estatuto” perder-se-ia com o abuso (como já acontece entre a população mais jovem e de vocabulário muito limitado), retirando-lhes preciosas capacidades expressivas, de comunicação e literárias. Exemplo: não usando eu tais expressões em contexto profissional (onde eram “moeda corrente”), o seu uso pontual e em tom coerentemente ríspido, porque muito rarefeito, era de eficácia garantida, já que prenunciava uma tempestade de contornos completamente desconhecidos (e sabe-se como o “desconhecido” assusta)… Por outro lado – o da literatura -, não é simplesmente possível alienar a plena compreensão do verso de Jorge de Sena quando, no magnífico “Em Creta com o Minotauro”, se refere a “… Teseu, o herói, e como todos os gregos heróicos um filho da puta…”, para o que é indispensável saber que a expressão se foi despojando do seu sentido literal e as actividades das progenitoras dos heróis gregos em nada contribuem para a desejada compreensão… Por Zeus!

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