LIÇÕES DE ETNOPSICOLOGIA DA INFÂNCIA – 16 – por Raúl Iturra

(Continuação)

 

Esta citação revela o império do desejo de entender que a relação cultura – indivíduo, não é apenas uma problemática denominada por Kraepelin um problema civilizacional, é apenas, como referi antes, uma relação de interacção social entre as leis que governam o comportamento humano, orientam a educação dos mais novos e desenvolvem um adulto capaz de se separar da vida social, por mutações biológicas causadas na base de situações emotivas contraditórias, manifestadas pelo adulto, como no caso das formas rituais paranormais de amok, lata, koro, comportamentos que observa nas culturas citadas no parágrafo anterior e redige no seu texto de 1904: Psychiatrie comparée [1], onde refere formas de agir perante o que eu denominaria a traição da cultura ao indivíduo que, até essa altura, vivia em paz, no meio dos ditames da lei escrita ou tradicional, rituais e mitos, sentimentos definidos e formas materiais de os exprimir que não feriam as relações das pessoas entre si, sempre que essa forma de agir prescrita for cumprida. Situações observadas, sentidas e a desenvolver sentimentos na educação dos mais novos. Eis o motivo pelo qual os organicistas não se ocupam apenas com processos de transtorno mental, mas também de teorias educativas, da forma observada por Edwin Guthrie, Melanie Klein, François Dolto e os outros terapeutas referidos. Formas educativas que procuram dar a entender que não é apenas a relação entre adultos e descendentes de uma mesma família o facto social de importância para a resposta epistemológica da criança perante o grupo, também o é o comportamento do grupo em frente de si próprio, grupo que inclui os mais novos como a parte maior e mais vulnerável e que a pouco e pouco reparam, na sua autonomia e independência perante a vida, sem poder ser independente da alimentação e do carinho que os outros indivíduos devem dispensar. Dai que a criança não seja um subentendido: a criança não entende o que se fala e fica mais exposto ao que vê fazer de diferente aos costumes culturais. Este é o contributo que Kraepelin retirou de Java e abriu um caminho para que os eruditos da mente pudessem comparar e retirar formas de comportamentos convenientes à formação do indivíduo. É impossível não sintetizar os comentários que aparecem no livro, esse pioneirismo de reparar [2]em dois conceitos fundamentais para a nossa análise: o etnocentrismo que acaba por ser o elo que orienta o comportamento: o que nós somos é o melhor, ou o que fazem os outros é com eles; o peso do comportamento cultural e a sua manipulação, que acaba por ter um limite, o da racionalidade emotiva do comportamento entre pessoas. O etnocentrismo define tabus e dinâmicas de comportamentos, traça a linha limite das formas de reprodução humana no saber e entre quais das pessoas da população a afectividade é possível e a relação empática definese como simpática ou antipática. É o que os autores que introduzem Kraepelin manifestam.

 

 

Roudinesco e Plon consideram que “historiquement, l’ethnopsychoanalyse est née de l’ethnopsychiatrie fondé par Emil Kraepelin », texto no qual concluem que a etnopsicologia « c’est l’expresion trnasculturelle qui a fini par s’imposer en lieu et en place d’ethnopsychiatrie ou d’ethnopsichoanalyse, trop chargé d’ethnocentrisme[3].

 

Segundo ponto que queria comentar antes de entrar pelo texto das idades da criança e do seu entendimento do mundo: uma definição de Etnopsicologia para entendermos a parte do processo educativo que a Etnopsicologia da infância trata e que fica referido nas páginas anteriores, com o acréscimo do etnocentrismo, conceito fundamental para nos entendermos com a infância.

Etnocentrismo definido mais tarde por Claude Lévi-Strauss a pedido da UNESCO e que teria feito as delícias do autor da Etnopsicologia[4] que acabou por dedicar a sua obra a relações de imigração para entender de forma comparativa as formas de pensamento, fossem estes etnocêntricos ou a fugir das formas mandadas pela interacção social: o etnocentrismo é o desenvolvimento do meu Eu entre os meus, ou do meu grupo social, regras, normas e, especialmente, o fechar as relações aos “selvagens” ou pessoas que vivem à beira do nosso agir, com regras não aceites por nós, ou, pelo menos, para nós, apenas para os outros, enquanto que “indígena” é o habitante natural de um grupo que tem a sua geografia e os seu território, que defende por todos os meios, até pela guerra ou pela união parental.

 

Há um terceiro e final comentário do próprio Freud sobre a temática. Discípulo de Wundt na Alemanha, influenciado por Kraepelin e os outros intelectuais germânicos, Freud não consegue não comparar as suas análises sobre a história e processo formativo das neuroses e a histeria, sem estudar grupos australianos com os quais compara a conduta europeia. O resultado é o texto Totem and taboo. Some Points of Agreement Between the Mental Lives of Savages and Neurotics, escrito em 1913[5]. O texto de Róheim que tenho invocado, diz: «Si nous avons commencé cette partie en nous référant à la définition même de Freud, c’est pour souligner le fait que l’ethnopsychanalyse n’est pas une discipline nouvelle ; elle est contenue dans la psychanalyse. Elle est une facette et plus précisément (et en premier approximation) celle que questionne l’interface entre psychisme et culture… ».[6]. É assim, comenta o escritor, como Freud se afasta da clínica para entrar no modelo comparativo de comportamentos nem sempre da sua cultura. Um Freud, como comenta o texto que tenho preparado sobre La Psychanalyse Française [7], que coloca o autor fora do campo analítico francês, ferozmente antijudaico para aceitar as ideias filosóficas do autor. No entanto, são ideias que ajudam a perceber essa diferença epistemológica que permite dizer que se pode falar perante as crianças, porque não entendem. Muito embora o caso contrário seja também real: o que a criança diz, não é percebido pelos adultos.

 


[1] Kraepelin, Emil, 1904: Psychiatrie Comparée, “Du voyage de Kraepelin aux migrations actuelles”:


«En 1793, pendant la révolution française, Philippe Pinel, médecin-chef à Bicêtre et Jean-Baptiste Pussin, surveillant, décident d’ôter les chaînes aux “furieux”. Les insensés deviennent des sujets, la folie devient maladie mentale. Les esprits malins s’envolent avec la fumée des derniers bûchers et les sorcières, fiancées de Satan, deviennent des malades mentales. Depuis cette conception est demeurée, avec quelques variations, celle du monde occidental.
Un peu plus d’un siècle plus tard, en 1903, Emil Kraepelin, qui en est à la rédaction de son septième manuel, prend connaissance du rapport annuel de l’établissement psychiatrique de Buitenzorg fondé par des Hollandais à Java en 1881. Les circonstances se précipitent un peu car il se trouve que Karl Kraepelin, frère du premier, dirige le musée d’histoire naturelle de Hambourg et que Buitenzorg est aussi connu pour son jardin botanique. Les deux frères entreprirent donc le voyage fin 1903. Nous sommes au début du siècle mais en un certain sens les travaux de Kraepelin viennent parachever le mouvement intensif de médicalisation de la folie commencé réellement au début du XIXème siècle même s’il a toujours existé des réflexions sur les rapports entre la folie et la maladie. Il faut rappeler que cette folie médicalisée fût cependant longtemps l’apanage des peuples civilisés. Au milieu des années 1800, des États-Unis à l’Europe, le nombre d’aliénés subit une croissance considérable. L’analyse de ce phénomène est mise en corrélation avec l’avènement de l’ère industrielle et du “progrès” en général même si quelques observateurs, dont Esquirol, restent plus prudents. En tout cas et comme Huffschmitt le note :

“la proximité de la nature protégeait encore la raison humaine des méfaits de la civilisation, le “primitif”, le “naturel”, devait inévitablement avoir été épargné par les troubles de l’esprit.”[7]

Dans les premières années de ce siècle cette idéologie s’essouffle et quelques particularités exotiques ont déjà commencé à entrer dans les revues savantes. Dans les Annales Médico -Psychologiques [1] sont rapportées par exemple les observations de Gilmore Ellis parues dans The Journal of Mental Science en 1896-97 et qui concernaient deux entités devenues légendaires, l’amok et le latah des Malais.
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C’est donc dans ce contexte que les deux frères embarquent à Gênes le 23 décembre. L’intérêt principal de Kraepelin est de tester la validité universelle de son élaboration nosographique. Les spécificités malaises, l’amok et le latah, sont bien reconnues mais identifiées, avec précaution il est vrai, à “l’épilepsie psychique” et à l’hystérie. Je cite :

“En tout cas il n’y a pas pour l’instant de raison sérieuse d’admettre l’existence de formes entièrement nouvelles, inconnues de nous, de folie chez les indigènes de Java..”.

Avec quelques réserves méthodologiques Kraepelin retrouve sa démence précoce et la folie maniaco-dépressive. La fin de l’article consacré à cette expédition montre une ouverture vers le développement de la psychiatrie comparée qui “peut être appelée à devenir un jour une importante science auxiliaire de la psychologie des peuples.” Kraepelin fait réellement de la psychiatrie comparée et c’est là son réel et non moindre mérite. Les théories indigènes ou un quelconque relativisme culturel ne l’intéressent pas. D’ailleurs comme le note Jacques Postel, Kraepelin pensait que “l’ignorance de la langue du malade est, en médecine mentale, une excellente condition d’observation.”

 

[4] Lévi-Strauss, Claude : 1952, Race et Histoire, Unesco. Há versão portuguesa, Presença, Lisboa, 1954. Website http://www.google.pt/search?hl=pt-PT&ie=UTF-8&q=L%C3%A9vi-Strauss+Race+et+Histoire&btnG=Pesquisar&meta=

[5] Freud, Sigmund, 1913: Totem and taboo. Some points of agreement between the mental lives of savages and neurotics, publicado em inglês em 1918, versão que uso. Página web:

http://www.google.pt/search?hl=pt-PT&ie=UTF-8&q=Freud+Totem+and+taboo&btnG=Pesquisar&meta=

[6] Freud, obra citada, Generalidades. Website com troços do texto: http://www.google.pt/search?hl=pt-PT&ie=UTF-8&q=Freud+Totem+and+taboo&btnG=Pesquisar&meta=

 


 

 

 

4 Comments

  1. Vivendo no interior do Alentejo há coisas que nos ficam distantes…Ainda bem que descobri este blogue! Espero que não não levem a mal que me torne seguidora, para ir lendo as actualizações…Conhecia a obra de Dorindo, pois fui leitora fiel dos livros que ilustrou e, neste momento, ensino literaturas lusófonas o que me levou à pintura.Muito obrigada.

  2. São bastantes os livros que tenho ilustado e imensas as capas de livros que tenho realizado desde sempre, para além da pintura que vou expondo..Não admira pois, que o meu nome tenha passado pelas suas mãos o que pode admirar mais, o que agradeço, é que se tenha fixado na obra.Ainda bem que tenha fixado igualmente neste blog e siga sendo seguidora de A VIAGEM DOS ARGONAUTAS

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