Diário de Bordo de 15 de Janeiro de 2012

 

 

 

Uma pequena multidão de «indignados» oriundos de vários países europeus, principalmente de Espanha e França, manifestaram-se ontem na praça de São Pedro, no Vaticano, horas após Bento XVI ter recebido o primeiro-ministro italiano,  Mário Monti.As palavras de ordem eram “Igreja corrupta”, “Papa criminoso”, “Não à violência” e “Liberdade”. Os manifestantes colocaram-se no local da praça que se situa frente às janelas dos aposentos do papa Bento XVI. Os activistas montaram algumas tendas e um deles trepou ao topo da árvore de Natal que envolve o obelisco da praça.

 

Outra das palavras de ordem gritadas, foi a que exigia que “o Vaticano pague impostos”, aludindo aos benefícios fiscais de que gozam os edifícios propriedade da Santa Sé nas imediações do Vaticano, portanto em território italiano. Uma força de polícia chegou entretanto, houve momentos de tensão, mas a manifestação acabou por ser dispersada, com três jovens  a ser detidos. Tudo normal.

 

Esta manifestação não tem grande importância, mas é reveladora de que a Igreja vive momentos difíceis, confrontada como é com as suas contradições mais gritantes. Coisa a que não estava habituada. Reveladoras dessas mudanças são as palavras de D. José Policarpo no passado dia 10, na Conferência Episcopal Portuguesa, em Fátima – embora pondo de parte a exigência de que os políticos maçons se identifiquem, condenou a influência directa que a Maçonaria possa ter em matéria política.

 

Tem razão. Mas esqueceu-se de condenar a influência que a Igreja tem na área política e no plano económico e financeiro. E aqui está o cerne do problema – a hierarquia eclesiástica entende como naturais os privilégios de que usufrui e as influências que exerce. São atavismos decorrentes de épocas em que a soberania dos Estados ou eram reconhecida pelo papa ou não eram válidas, em que os tratados entre estados soberanos eram mediados pelo poder papal. Esta intocabilidade do «santo padre», que por piores que fossem os seus actos, continuava a ter poder sobre os estados e sobre os súbditos desses estados, incluindo os respectivos monarcas, fazem-nos compreender a atitude do déspota Henrique VIII ao separar os seus reinos da Igreja romana – quem eram Clemente VII ou Paulo III para decidir com quem casava ou descasava ou a quem cortava o pescoço?

 

D. José Policarpo entende que a Maçonaria não deve intervir na cousa pública. Claro que não. Só é pena que não compreenda que o mesmo critério se aplica à Igreja Católica. Igreja que apoia sempre o poder, seja ele qual for – Salazar, Franco, Mussolini, Hitler… todos tiveram o apoio da Igreja de Roma. Os responsáveis por esta política de apoio a criminosos deviam ter sido julgados em Nuremberga. Mas a igreja tem conseguido fazer prevalecer uma dualidade que lhe permite estar no plano terreno, imiscuindo-se na política e nos negócios, refugiando-se no plano espiritual quando, aqui na Terra, as coisas dão para o torto.

 

A pequena manifestação de ontem na praça de São Pedro, indica que as coisas, embora lentamente, estão a mudar.

 

 

 

7 Comments

  1. Totalmente de acordo, Carlos. A hipocrisia e a fraude monumental que são as palavras e o comportamento da igreja católica envergonham qualquer ser humano justo e honesto.

  2. Seria importante conhecer o peso da Igreja Católica na vida do país, nos seus vários aspectos. Desde o seu património, até ao volume dos apoios que recebe do Estado. Os donativos particulares devem ascender a valores incalculáveis. Para muitas entidades, a declaração de donativos é obrigatória. Entretanto Igreja Católica pratica a discriminação de género. Espanta-me como é que não há mais reacções contra este aspecto, que traduz um atraso civilizacional de peso.

  3. A Augusta Clara está a ironizar – trata-se de uma discriminação que só não digo que é inaceitável porque as incongruências da da Igreja são tantas, que essa é só mais uma. Usar a tradição como argumento para recusar o acesso das mulheres ao sacerdócio, não tem qualquer sentido, pois em muitos outros aspectos a ICAR acompanha os tempos. Eu arriscaria afirmar que a massa de fiéis é maioritariamente feminina. O que torna a discriminação ainda mais disparatada.

  4. Não acho nada disparatado. Vocês é que ainda não decifraram bem os meandros do cérebro feminino. Ir à missa é uma coisa, ficar-se preso – presa, neste caso – àquele disparatado regime, é outra. Sinceramente, é daquelas discriminações que não me fazem mossa nenhuma. Indigna-me muito mais, por exemplo, nunca ter ouvido falar da mãe do João, uma mulher ilustre que ficou na sombra como tantas outras, enquanto sempre ouvi elogiar e citar o pai.

  5. Não disse que era disparatado – apenas que só podias estar a ironizar. A questão do sacerdócio feminino divide a Igreja, é uma das questões centrais que se lhe colocam – ainda há meses uma entrevista de D. José Policarpo provocou crispação nos meios eclesiásticos – ele dizia que nada de transcendente impede as mulheres de acederem ao sacerdócio – apenas se trata de uma tradição. não há dúvidas de que se essa tradição fosse posta de parte, muitas mulheres quereriam aceder a um magistério que lhes está vedado. È um problema que não me interessa nada – mas se a Igreja se mete em assuntos onde não deveria imiscuir-se, não deve estranhar que ateus discutam as suas contradições mais visíveis.

  6. E estava. Estava a ironizar a sério, se isso se pode dizer, porque na verdade é assunto que não me interessa nada. As mulheres católicas que se mobilizem, se acharem que devem. A mim não me diz respeito.

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