A maior parte dos títulos incluídos neste quadro pertencem a obras cuja proibição seria evidente – alguns são mesmo aquele tipo de obras que se comprava e nem sempre se lia, mas tê-los na estante era uma afirmação de antifascismo. Entre estes dez, escapa a esta definição o livro de Natália Correia, Comunicação. Trata-se de uma segunda edição, pois a primeira data de 1958. Luiz Pacheco, o «editor maldito» deve ter querido aproveitar o escândalo provocado pela famosa Antologia de Poesia Portuguesa Erótica e Satírica, editada em 1970 pela Afrodite. Na realidade, o longo poema Comunicação é subversivo. Porém a sua subversão ocorre num plano que não era acessível aos cérebros policiais. Vejam como começa:
Como um poente congestionado
De vaga-lumes irreais
É o sete-estrelo desenfreado
Rosa de chamas descomunais
Saltam-lhe os pulsos como foguetes
E como termina:
Nesta seara de pirilampos
Nos semicúpios incandescentes
Dos seus tesouros derretidos
Os milionários têm repentes
Têm remorsos de homens falidos
E um Desejado de lua nova
Noiva da Pátria vem finalmente
Buscar a noiva para a sua cova
E dá-lhe a Morte como presente
E digam se é linguagem em que a polícia políitica descodificasse a subversão (de facto) existente.


