A vingança de uma viúva – III. Por Júlio Marques Mota

(Conclusão)

 

Não houve inquérito pelo fisco


“Pela primeira vez – porque isto não aconteceu no caso de Bettencourt, a dona de l’Oreal -, poderá ser nomeado um juiz de instrução independente para investigar um caso de suspeita de uma maciça fraude fiscal “, sublinha Mediapart. O Ministério tem três meses para abrir ou não uma investigação judicial.


Como no caso de Bettencourt, este dossier tem a sua origem numa disputa de família. Desde a morte, em 2001, de Daniel Wildenstein, um famoso coleccionador e negociante de quadros, os herdeiros disputam a herança. A sua viúva, Sylvia Wildenstein, alegou que o filho do primeiro casamento, Guy e Alec, terá escondido uma parte da herança nos paraísos fiscais…


Mas com a queixa apresentada na segunda-feira, o caso poderia ir bem para além da estrita esfera familiar. A sua advogada apresentou queixa contra X por ” tráfico de influência, por corrupção activa e passiva, por encobrimento e lavagem de dinheiro “, ainda de acordo com Mediapart.


Não é pois somente Guy Wildenstein que é visado, mas também, implicitamente “ os dois ministros sucessivos do Orçamento, Eric Woerth e François Baroin, que foram informados de suspeita de uma grande fraude fiscal e que não solicitaram nenhum inquérito,  escreve Mediapart


A advogada sublinha que os ministros foram informados das presunções de fraude por várias cartas documentadas em 2009 e 2010, de que Mediapart publica trechos. “Nenhum dos dois Ministros deu sequência a estas cartas”, continua Mediapart, mesmo neste caso em que o fisco poderia estar a ser lesado.


Serviços prestados


Como é que se pode explicar esta prudência ? Mediapart sublinha que “Guy Wildenstein é uma personalidade na galáxia da UMP”. Na verdade é delegado da UMP para a costa leste dos Estados Unidos, é chefe do grupo UMP na Assembleia dos franceses do estrangeiro (AFE), é membro activo do “primeiro círculo” e fiel defensor de Nicolas Sarkozy, para o qual ele fez activamente campanha em 2007.


“E como nesse mundo, como agradecimento do serviço prestado, tem-se a Legião de honra facilmente Guy Wildenstein, ele próprio, teve a sua recompensa”, continua Mediapart. “Sobre o contingente do Quay d’Orsay, foi promovido a comendador no lote de 1 de Janeiro de 2009”.


E um outro exemplo ainda:


Jean-Luc Chartier, advogado, é conselheiro desde há 30 anos dos Wildenstein. Este é o advogado acusado na peça anterior por Sylvia de a ter levado a assinar o documento de renúncia à herança. Foi promovido a comendador da Legião de Honra no contingente de ‘Eric Woerth.

 

Um bronze de Bugatti intitulado “Groupe de quatre cigognes” descoberto pela polícia

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Cavalos que valem ouro


As cores de Wildenstein são uma legenda é a única coudelaria a apresentar um palmarés de cinco prémios Arc-de-Triomphe, um prémio Amérique e un prémio Diane. Criada em 1923, esta coudelaria conta hoje várias centenas de puro-sangue dos quais 80 estão a serem treinados em França. Ainda por referência à sua actividade de comerciantes de arte, os cavalos da família chamam-se Picasso, Aquarelliste ou Peintre Célèbre. A sua coudelaria é campeã em matéria de optimização fiscal. Assim, se os seus craques continuam a correr em França, terra de bonificações para os grandes proprietários  graças a um sistema de subsídios e de prémios entre os mais generosos do mundo (2,2 milhões de euros livres de impostos em 2010 para os Wildenstein), estes estão “alojados” desde 1992 numa sociedade offshore, Dayton Investments Ltd, registada na Irlanda. Assim, quando um dos seus cavalos se distingue, os Wildenstein revendem-no a preço de ouro e fazem-no fazer render como reprodutor na Irlanda, em que a centena de cobrições que poderá fazer num ano – facturadas entre 80 000 e 150 000 euros a unidade – estão isentas de imposto.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Kotkijet permitiu à coudelaria Wildenstein acrescentar o Grand Steeple-Chase de Paris ao seu palmarés em 2001.)

 

E a terminar esta peça uns números:

 

 

Os rendimentos de um “pobre”:

 

 

 

— 870 francos, foi o rendimento mensal declarado ao fisco francês por Daniel Wildenstein, en 1998.

— 60 milhões de euros é o valor estimado de Sylvia Trust, o menos dotado dos diversos Trusts de Wildenstein

– 2,2 milhões de euros líquido de impostos em 2010: foi o que os Wildenstein ganharam nas corridas de cavalos em França.

 

 

Um processo que pelo impacto na opinião pública  assusta os ricos

 

 

Desde que a Justiça colocou as suas mãos sobre a fortuna dos Wildenstein, o sistema dos trusts nos paraísos fiscais começou a ser apontado a dedo. Esta prática, muito em voga nos multimilionários é frequentemente utilizada para decidirem do destino de grandes fortunas sem as dispersarem ! Uma montagem que permite assim aliviar os ricos do pagamento dos seus impostos, de forma completamente legal. Oficialmente, o fundador do trust deixa de ficar na posse do seu património em proveito do trustee “considerado” gerir o património e distribuir os rendimentos a favor dos designados. Mas o fundador pode manter o controle do seu património que está nas mãos do trustee!!! 

 

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