António Torrado foi “entrevistado” durante o 3º Encontro do Centro Doutor João dos Santos – Casa da Praia, pelo professor Manuel Rangel e pelapsicanalista Maria José Vidigal. Trago-vos hoje algumas partes que se referem à sua escrita para crianças.
P – Há muitos anos atrás, Betelheim, quando lança “Análise dos Contos de Fadas”, cria um grande escândalo ao dar uma entrevista em que diz que “se quer que o seu filho não se drogue, conte-lhe contos de fadas”. Do seu ponto de vista, qual o poder da literatura infantil ?
ANTÓNIO TORRADO – Acho que sim. Da parte que me diz respeito, e remontando à minha experiência de pai, tinha a preocupação de todas as noites contar uma história aos meus filhos. Era, provavelmente, o único momento em que estávamos compartilhando o mesmo tempo. Essas histórias que eu contava eram, um pouco, as histórias que, muitos anos antes, eu contara aos meus primos, com uma grande mistura de histórias minhas e histórias alheias.
P – Mas acha que é a questão da presença do pai, ou há mais qualquer coisa na literatura, seja nos contos de fadas ou nos outros, que tem esse poder sobre as crianças?
ANTONIO TORRADO – A voz do pai, mas a veicular um mundo maravilhoso… O mais importante parece-me ser esse exercício de cumplicidade relacional e o saber a criança que alguém está debruçado sobre ela e, em exclusivo, a dar o seu melhor (quer seja pai, quer seja mãe, avô, padrinho, o que fôr). Porque, às vezes, a história é capaz de ser o menos. O que a criança gosta é de saber que há um adulto atento a ela naquela ocasião.O contar é insubstituível, independentemente de se ter ou não o guião na mão. O contar tem uma forma digressiva muito própria.
(…)Um grande escritor italiano para crianças, chamado Gianni Rodari, autor de um livro, “Gramática da fantasia”, apresenta o esquema de construção de histórias para crianças. As histórias para crianças, mais do que as destinadas a adultos, são facilmente visíveis em contraste de luz. Encontramos a estrutura narrativa das histórias mais facilmente do que a estrutura narrativa de uma história para adultos. Dou de exemplo aqueles peixinhos de aquário que trazem sempre a radiografia à mostra, porque se vê sempre a espinha do peixinho. As histórias também são assim: à contra luz também conseguimos ver-lhes o desenho de sustentação. O Gianni Rodari, na “Gramática da Fantasia”, entre os vários capítulos, aborda um que é o da “hipótese fantástica”. Que tem dado para tudo. Por exemplo chove, chove, interminavelmente – deu a história do dilúvio e fica toda a humanidade afogada. Ou a Península Ibérica rompe ali pelo lado dos Pirinéus e transforma-se numa ilha – deu a “Jangada de Pedra” do José Saramago.
P – como é que lida com o “Torrado”? Algumas pessoas falam do que é carregar com um determinado nome…
ANTONIO TORRADO. – Em relação ao “Torrado”… Durante uma fase, senti-me um pouco embaraçado. Mas eu queria também respeitar a memória dos meus antepassados, todos “Torrados”. E no meu caso, ainda duplamente “Torrado”, porque os meus pais eram primos direitos. Portanto, sou mesmo uma “tosta mista”.
Quando soube que, da geração do Orfeu tinha feito parte, embora numa posição mais secundária um poeta chamado Alfredo Guisado, tive uma sensação de proximidade. E, em França, o Rober Grillet, também me facilitou um bocadinho a vida. O meu professor de inglês chamava-me “Mister Toast”…
Depois, brincando com os miúdos, comecei a sentir que podia tirar partido do nome. Houve quem me perguntasse se era pseudónimo, se eu teria logo escolhido este nome, como se fosse uma personagem de mim próprio.
(…) .Também acontece brincarem com o meu nome. O “Torrado” gosta de torradas… Eu não me importo ou faço que não me importo…
P – Não tenho a ideia de que a forma de entrar pelo humor seja para mostrar que tudo está bem. Mesmo na literatura para crianças, usa-a exactamente para mostrar que não está bem… Há muita crítica que passa fundamentalmente por essa forma.
ANTÓNIO TORRADO –. É que não vou para a escrita com pressuposto. Não escrevo sobre papel transparente, com outro por baixo donde decalque uma mensagem ou o que quer que seja. Vai acontecendo. E vai acontecendo um pouco como um espelho de mim. Quando se escreve para os mais novos é preciso que haja uma certa disponibilidade e claridade testemunhais. Há pouco, dizia que aquilo que escrevo para adultos é mais nocturno. Escrever para crianças, para mim, é também uma terapia, uma forma de vencer essa soturnidade que temos dentro de nós. Admito que esta seja a minha fase de recreio. E o ir a escolas, o partilhar esse prazer de contar concentram o lado mais recreativo de mim.
Tenho tido o privilégio de ter trabalhado pontualmente com este autor. São sempre momentos de grande aprendizagem e também de divertimento. O seu humor é um facto, e pode ser mordaz, quando se refere a adultos, mas ressalta sempre a sua grande ternura pelas crianças.
António Torrado mantém desde 2003 um sítio na Internet, com o endereço “www.historiadodia.pt” onde se conta, todos os dias, uma história às crianças, sob diversas formas – escrita (podendo elas imprimi-la), ouvida e desenhada, remetendo, também, para outros conhecimentos. As histórias podem, igualmente, ser lidas em castelhano e em inglês. O projecto é da Associação dos Profissionais da Educação do Norte Alentejo, teve o apoio do Instituto Politécnico de Portalegre e dos Fundos europeus. Conta o autor que as histórias são ouvidas em todo o mundo por portugueses a quem sabe bem ouvir falar (contar histórias) em português.



