DIÁRIO de BORDO, 18 de Janeiro de 2012


 

 

A Argos atravessa mares agitados. Ultimamente tem sido sempre assim. A borrasca, por vezes, parece abrandar, mas retoma logo a seguir. Assim tivemos o downgrade (mais uma palavra para o nosso vocabulário, pois são já tantas as vezes em que levamos na cabeça com o seu significado) emitido pela Standard & Poor’s. Passos Coelho entretanto lamentou que a agência de notação andasse a fazer política. Perguntamos, só agora é que deu por isso? Na realidade as agências de notação não fazem outra coisa. Alguém já fez notar que estão a dar um forte contributo para rebentar com o euro. Pois também não será de agora. E será para apoiar o dólar, que faz questão de continuar a ser moeda de referência? Para apoiar o yuan ou o ien não deve ser, é pouco provável.

 

Entretanto, os juros da dívida pública portuguesa, que vinham ultimamente a descer, voltaram subiram a subir consideravelmente. Não é por acaso. Seriam interessante ver quem ficou a ganhar. E que até já estava anunciado um novo leilão (é assim que lhe chamam).

 

Mais foi anunciado que chegaram ontem, de madrugada, a acordo, o estado, o patronato e a UGT. Os trabalhadores passam a ter mais dias de trabalho, são facilitados os despedimentos, diminuem as indemnizações, passa a haver um banco de horas, etc. Em troca já não aumentam meia hora ao horário de trabalho. Quer dizer, quem trabalha fica pior, e o patronato tem o caminho ainda mais aberto para os despedimentos. Surge uma modalidade de despedimento, o despedimento por inadaptação, que vai dar que falar. Quem vai avaliar a inadaptação?

 

O que ressalta aqui, e tem de ser dito claramente, é que aquilo a que chama comummente o patronato não está minimamente interessado na recuperação económica do país, no seu desenvolvimento, ou em algo que se pareça. Usando umas conversas vagas, invocando a competitividade ou a produtividade (vejam sobre isto o que diz o relatório do McKinsey Global Institute, que ontem, às 22 horas, começou a publicar neste blogue Júlio Marques Mota), procuram cada vez mais reduzir os gastos com mão de obra, energia, etc. Depois da desindustrialização, vamos ter a redução dos serviços e do comércio em geral. É a entrada imperial do capitalismo financeiro. E com as restrições ao crédito (o credit crunch, mais uma expressão nova para o nosso vocabulário) não têm razões para temer que apareçam novos concorrentes, no sistema actual. A recessão está-lhes a cair bem. Com um empurrão das agências de notação…

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