Nenhuma das dúvidas que me inquietavam antes de partir se confirmou – excepto a falta de tempo para chegar a Finisterra. Adaptei-me razoavelmente às botas, embora regresse com três bolhas nos pés, a mochila revelou-se sofrível, mesmo com o dobro do peso recomendado, caminhei cento e cinquenta quilómetros em cinco dias, não obstante a falta de preparação física, manifestada, é certo, numa fragilidade psicológica que, no ano passado, de maneira nenhuma senti.
Percorri aliás um estranho Caminho, muito distinto do que imaginava. Predispunha-me para encontros francófonos – um ano antes falara francês de Coimbra a Santiago de Compostela e, quando avistava mais franceses, já nem me aproximava, mirava-lhes o equipamento com um difuso mal-estar, Decathlon, Quechua e quejandos, a uniformidade do nosso mundo. Ora este ano não encontrei um único francês. Dois suecos. Três ingleses. Cinco brasileiros. Alguns espanhóis. Um grupo de ciclistas portugueses. E alemães às grosas. Conversei quase sempre em inglês… Se no ano passado, com Maria, admiti que falo bem espanhol, este ano aceitei exprimir-me em inglês, para comunicar com os suecos. Havia-me igualmente preparado para enfrentar o frio e a chuva, os maiores desconfortos da pretérita peregrinação porém, nas mesmas datas e lugares, padecemos com a canícula – e sofro até queimaduras.
No mundo previsível em que vivemos, estas surpresas parecem-me agora, se não cómodas, se nada aprazíveis, contudo ainda apreciáveis: o confronto com o inesperado faz-nos sempre crescer. Confirma-se uma vez mais que, em caminhadas de vários dias, mesmo por caminhos já antes percorridos, não há previsões fiáveis, partimos sempre do ponto zero, que é o instante em que damos o primeiro passo. O que se segue tem um nome: aventura.

