DEBATE – QUE RUMO PARA A A DEMOCRACIA EM PORTUGAL? – Por Raúl Iturra

Raúl Iturra

  

 

 

Raúl Iturra é Professor Catedrático do ISCTE, hoje Instituto Universitário de Lisboa – IUL, Professeur Invitée du Collège de France, do Laboratoire d’Anthropologie Social, Professor Visitante da Universidade de Santiago de Compostela, da Universidade Bolivariana, do Chile.

 

Nasceu no Chile, mas viveu e estudou na Grã-Bretanha – em Edimburgo e em Cambridge.  Mestre em Antropologia e Ciências da Educação em Antropologia Social e fez o Doutoramento na mesma ciência (Etnopsicologia da Infância). Ensinou em Cambridge. Enviado ao Chile por aquela Universidade, para estudar o socialismo, após o golpe militar 1973, foi preso, sendo resgatado de um campo de concentração, pelo seu Catedrático e por Billy Callaghan. Trabalhou com Claude Lévi-Strauss, Pierre Bourdieu e com Maurice Godelier.

 

Em 1980, a convite da Fundação Gulbenkian e do ISCTE, veio a Portugal dar conferências.  E ficou. «Foi e é o meu maior engano: não me digam que Portugal é socialista!», diz o Professor Iturra que nos diz também:

 

 

 

“A democracia é o governo do povo, pelo povo, para o povo.”

 

(Abraham Lincoln, Presidente dos Estados Unidos de América, 1863)

 

Quem me dera que esta frase fosse minha e a pudesse praticar! Frase que me tem ensinado muito.

 

A primeira ideia que surge no meu pensamento é o substantivo governo. Com uma explicação. O governo pode ser verbo com uma obrigação, a de conduzir o povo pelos caminhos certos para o rumo da arte de governar. Há a Lei e o Direito, há a Soberania e os seus Descontentamentos, há a Igualdade e a Diferença, há os que Produzem e os que vivem da Produção dos outros.

 

Este meu argumento, é a teoria das contradições que dar-me ia prazer ver acontecer em Portugal. O povo deveria saber governar-se a si próprio, saber que a Lei é diferente do Direito, sendo Direito o manancial de ideias transferidas para o braço armado da Lei ou Preceito ou Regra estabelecida por Direito, fonte de toda a norma ou obrigação que orienta o nosso procedimento dentro da sociedade en que vivemos. Sociedade ou conjunto de seres humanos que articulam o povo.

 

Gostaria de ver em Portugal essa obediência ao preceito, se a regra é justa por nascer do povo, que sabe escolher os seus governantes de entre os que sabem do mal viver, a miséria e a pobreza e lutam sem tréguas nem recato contra a ideia doutoral que têm os que são eleitos para representar a soberania dos cidadãos que apenas conhecem o trabalho como um preceito quase bíblico para a sua subsistência.

 

O meu grande prazer era ver a democracia portuguesa saber ouvir, reparar a economia que está em falência e que os que governam em nome do povo, o fizessem com o povo e não nas suas costas. Voo cego que tem apenas uma saída: a soberania e os seus descontentamentos. Palavra que faz tremer aos que nos pretendem governar. Governar é saber gerir as contas do Estado, velar pela serenidade da nação e estar sempre atento a que ninguém, mas mesmo ninguém, esteja sem trabalho. Infelizmente, quem nos governa é um grupo da, por mim denominada, cultura doutoral: advogados, médicos, sociólogos, e outras especialidades, como a mais pesada, a tecnologia. Comunicam com o povo quando é conveniente, sem tempo nem hora. Nunca esqueço esse singular mandatário que inaugurou no país o sistema de presidência aberta e comunicava com o povo todas as semanas, sempre em sítios diferentes. Legou aos seus sucessores uma carga pesada, excepto ao mandatário anterior a este. Ele ia de camisa, à Perón da Argentina e sua populista mulher Eva, como  Allende e Bachellet do Chile de hoje.

 

Há apenas um caminho. A soberania e o seu descontentamento. Descontentamento, um lema para colocar no escudo nacional. Muito lutou Lincoln para cunhar a frase que serve de cabeçalho a este texto e reparar, se fosse vivo, que são as finanças que nos governam, sendo alienado do povo o produto do seu trabalho. A democracia não é para pagar impostos, é para sermos todos iguais. Assim seria o meu Portugal como República Soberana, se finalmente o povo governasse para si próprio.

 

 

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