Diário de bordo de 20 de Janeiro de 2912

 

Num livro publicado há mais de 30 anos em Portugal, O Pós-socialismo, o humanista e professor francês Alain Touraine, que começava o seu trabalho com a frase «O socialismo está morto», interrogava-se sobre os motivos que levavam a esquerda que, sempre usou o conceito do devir histórico, da mutabilidade das ideias, a supor que o modelo político da esquerda escaparia a essa mutação permanente?

 

E preconizava que a democracia seria conquistada mais por movimentos sociais do que pelos partidos políticos. Três décadas depois um inquérito realizado em 2011 sobre a qualidade da democracia em Portugal conclui que «os movimentos sociais de protesto estão à frente dos partidos». A falta de confiança nos políticos é o factor principal na desconfiança dos cidadãos relativamente às máquinas partidárias.

 

Os partidos de esquerda criticam as contradições e as disfunções do sistema e chegam ao ponto de concluir que este modelo de democracia está esgotado; porém, dar-se-ão conta de que funcionam dentro do sistema e que dele fazem parte integrante?

 

Os resultados deste inquérito à qualidade da democracia em Portugal, com apenas 56% dos inquiridos a confiar na via da democracia representativa, valendo o que valem os inquéritos e sondagens, merecem uma reflexão. A descredibilização dos políticos, por via da corrupção, do tráfico de influências, das promessas eleitorais esquecidas durante os mandatos, levam um dos autores do estudo, Luís de Sousa, a concluir que “os três problemas da democracia em Portugal mostram como há uma degradação do ponto de vista ético das lideranças que se torna mais acentuada com as medidas de austeridade”.

 

O outro autor, António Costa Pinto, sustenta que “os recentes casos de nomeações em período de crise consagram ainda mais a fraca opinião de que os políticos têm capacidade política de responder».

 

Este executivo constitui uma amostragem eloquente da degradação do sistema pelo qual somos governados. Os membros do Governo vão dando o espectáculo da sua obsessão por demonstrar obediência relativamente aos poderes externos. O primeiro-ministro é uma montra clara e transparente do vácuo de ideias que vai por aquelas cabeças. Mas o partido, o que devia de ser a reserva ética do PSD, não ajuda. Antes pelo contrário.

 

Elementos do seu partido, como um Catroga medíocre comparando-se a Cristiano Ronaldo e Manuela Ferreira Leite defendendo a condenação à morte dos que sofrendo de insuficiência renal, tenham (como ela) mais de 70 anos, para não falar nos dislates de Alberto João Jardim, etc.etc.etc – dão-nos um quadro esclarecedor de como um partido de gente como esta pode ser eleito. Não esquecendo que Hitler chegou ao poder através do voto popular na primeira metade do século passado e muitos dos que nele votaram foram para aos campos de extermínio. Funcionários do Estado, pensionistas, insuficientes renais, que votaram no PSD, deveriam estar arrependidos. É um sistema doente este em que gente sem escrúpulos assume o poder e as vítimas elegem os seus verdugos.

 

Só um sistema doente pode levar as pessoas a votar como o eleitorado português votou nas últimas legislativas

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