A intervenção de Cavaco Silva, a informar-nos que a reforma (ou reformas?) que recebe não lhe chega para as despesas é mais uma bojarda a juntar à respeitável quantidade de disparates que tem dito ao longo da sua vida. Tratou-se efectivamente de uma obscenidade de todo o tamanho. Que revela a pouca consideração que tem pelos portugueses em geral, a começar pelos que o elegeram nas últimas eleições. Aliás, que já o elegeram várias vezes. Cavaco Silva acha que somos burros e, quase de certeza também acha que se a maioria de nós recebe de ordenado ou pensão muito inferior ao que ele recebe é única e exclusivamente por falta de mérito.
Miguel Portas recordava ontem na televisão, ao ser entrevistado, que uma das coisas que mais o impressionou, na sua experiência de deputado europeu, foi a imagem que têm, no norte da Europa, sobre os povos dos países do sul. Que eles se têm na conta na conta de organizados, trabalhadores e disciplinados, enquanto que cá no sul somos preguiçosos, indisciplinados e trapalhões. E o pior é os governantes dos países do norte terem essa ideia enraizada.
Saídas como a de Cavaco Silva, integram-se também numa série de outros episódios da nossa cena. Vejam o que se passa com Eduardo Catroga (aliás amigo de Cavaco de longa data), que ao que parece, quando lhe perguntaram se não achava ser excessivo o que vai ganhar no Conselho de Supervisão da EDP, respondeu comparando-se ao Cristiano Ronaldo. Que merece ganhar tanto quanto ele. Junte-se esta parvoíce às sugestões sobre emigração de Passos Coelho, às contradições de Alexandre Soares dos Santos, às opiniões de Manuela Ferreira Leite sobre a suspensão de democracia e os cidadãos de mais de setenta anos que fazem hemodiálise, e outros casos, e ressalta o seguinte: temos à nossa frente uma série de indivíduos em roda livre, que se sentem completamente à vontade para abusarem de nós e ainda por cima metralharem-nos com disparates enormes.
Angela Merkel e os seus compatriotas, assim como holandeses, suecos, ingleses, etc, olham para isto, e não podem deixar de considerar que os portugueses são muito pacientes com os seus governantes. E daí achar que somos moles. Não será exagerado concluir que os preconceitos contra os povos do sul provêm, pelo em parte (mas uma parte significativa) da péssima imagem que dão os nossos dirigentes, públicos e privados. Aliás, os emigrantes, oriundos na maior parte das nossas classes modestas, têm mostrado, desde sempre, grandes qualidades de trabalho e de disciplina, segundo as mais diversas informações. O mesmo não dirão no norte da Europa sobre as saídas de Cavaco Silva. Devem estar por lá a perguntar: como é que o aturam? Ou então acham mesmo que não valemos nada.


Texto excelente sobre o “bronco” Sr. Presidente que desde que me recordo tem muitas saídas destas, impróprias do lugar que ocupa. Não gosto do senhor, não votei nele, aceitei a decisão da maioria mas quando ouço estas barbaridades gostava muito que alguém lhe recordasse que ele representa o país. Os meus cumprimentos