*Escritor
Um bom diagnóstico
Josep Vidal faz um excelente diagnóstico às patologias das democracias que governam as nações da nossa Península. – o depoimento de Josep constitui um check up completo. Enumerou as enfermidades mais gritantes da democracia parlamentar – manifestações e comícios onde a emoção sufoca o raciocínio, campanhas eleitorais em que tudo é prometido, palavras de ordem condicionadoras do que cada eleitor pensa, líderes que, eleitos esquecem tudo o que prometeram e se sentem investidos de um poder que só lhes foi atribuído em função dessas promessas, a propaganda redutora e estupidificante, a disciplina de voto dos deputados que os obriga a votar não em função dos interesses dos eleitores, mas sim da estratégia definida pela direcção do partido, os lóbis, o clientelismo, o nepotismo, a meritocracia, a subordinação dos cidadãos, a manipulação dos votos feita pela comunicação social e por opinion makers que nada têm de isentos,…
Vidal refere, e bem, a herança histórica do jacobinismo. Eu diria que a herança jacobina foi evidente até à Comuna de 1870 e a partir de então foi o socialismo que imprimiu à esquerda a sua marca. Atavismos que não ajudam a encontrar o caminho do futuro. Como Alain Touraine detectou, a esquerda, hábil a referir a imobilidade do raciocínio conservador, não reconhece que baseia as suas críticas e projecções em princípios contemporâneos da Revolução Industrial. E onde já vai a máquina a vapor!…
Vidal não diz, mas depreende-se que ao recusar vínculos ao passado, e ao exigir que o contrato estabelecido pelo eleitor com o deputado eleito seja cumprido, que sectores de actividade sejam blindados e que o ensino, a saúde, as pensões, não sejam mudadas ao sabor dos interesses de cada partido que chega ao poder, em suma, ao exigir respeito pelo cidadão, está a exigir uma coisa muito simples – a extinção do paradigma actual de governação e a sua substituição por outro em que os princípios democráticos sejam integralmente respeitados. Com os partidos que temos em Portugal (para falar só de nós) nada disso é possível. O sistema está errado, é anacrónico – os partidos e os sindicatos, são pormenores desse erro. Anacronismos.
Belo depoimento o que nos chegou do nosso amigo barcelonês.
