DEBATE – QUE RUMO PARA A NOSSA DEMOCRACIA? – por Adão Cruz

Adão Cruz 

 

 

 

 

Adão Pinho da Cruz nasceu em Figueiras, Castelões, concelho de Vale de Cambra, em 1937. Licenciado em Medicina e Cirurgia pela Faculdade de Medicina da Universidade do Porto, especializado em Cardiologia e sub-especializado em ecocardiografia. Prestou serviço militar na Guiné, entre 1966 e 1967, como alferes médico.  Após o 25 de Abril de 1974, nomeado pelo Governador Civil de Aveiro, exerceu durante um ano as funções de Presidente da Comissão Administrativa da Câmara municipal de Vale de Cambra. É membro da Sociedade Portuguesa de Cardiologia, da Sociedade Europeia de Cardiologia, da Sociedade Portuguesa de Escritores e Artistas Médicos.Para além da sua actividade como médico, é escritor e pintor, com diversos livros publicados, de contos, poemas e pinturas. Fez várias exposições, individuais e colectivas, em Portugal e no estrangeiro. Principais obras publicadas: Esta Água Que Aqui Vem Dar (poemas e pinturas-1993), Vem Comigo Comer Amendoim (contos, ilustrados por Manuel Cruz-1994), Palavras e Cores (prosa poética e álbum de pinturas-1995), Adão Cruz – Tempo, Sonho e Razão (álbum de pinturas e textos de Albano Martins e César Príncipe-2003), Nova Ponte Sobre um Velho Rio (conjunto de três pequenos volumes de poesia, com capas sobre pinturas do autor-2006), Adão Cruz – Hora a hora rente ao tempo (álbum de pinturas e texto do autor-2007) e Adão Cruz – Um gesto de silêncio (álbum de pinturas e poemas, com texto do autor -2010).

 

                                         

 Este é o seu depoimento:

 

QUE RUMO PARA A NOSSA DEMOCRACIA?  

 

Deixa-me rir.

Que rumo dar ao que não existe!

A direita aí está, escarrapachada, retinta.

A direita aí está, varrendo para o lixo os restos da democracia.

A direita aí está, abocanhando o prato dos outros.

A direita aí está, cuspindo na Constituição, porque ainda não pôde rasgá-la aos bocadinhos.

A direita aí está, usando a Justiça como o seu mais eficaz tira-nódoas.

A direita aí está de portas escancaradas a todos os Passos e Portas que sejam as portas e os passos para a descarada mentira de todas as promessas.

E a maioria silenciosa lá vai engolindo, como incontornável destino, o fel da traição.

 

 

Sem Constituição a democracia é um barrete.

Sem Justiça a democracia é um duplo barrete.

Sem povo, ou melhor, sem cidadãos a democracia é um triplo barrete.

 

Sem cidadãos, a democracia não existe.

Por isso a direita não quer cidadãos.

A direita só quer povo, se for uma direita com rótulo. Se não tiver rótulo, se for artesanal, nem de povo precisa.

 

E eu não acredito no povo, isto é, eu não acredito no povo despido da sua dignidade de cidadão, no povo que beija a mão aos que o fazem povo, aos que o utilizam como povo e não como gente ou como sociedade de cidadãos.

 

Um imenso lençol de mortos jaz debaixo da terra carcomidos pela exploração e pela injustiça, e um imenso mar de vivos (mortos-vivos?) deambula à flor da terra. Os de baixo expiraram. Nós, os de cima, ainda inspiramos alguma coisa, mas não sabemos respirar, asfixiados que estamos pelo garrote do poder. O povo, em vez de abrir a janela de par em par para respirar ar puro, vai aceitando como esmolas e caridades, as máscaras de oxigénio que a direita lhe estende.

 

Por isso eu não acredito no povo. Só acredito em cidadãos.

Sem cidadãos a democracia é um barrete.

 

O país está infestado de ratos. Os ratos roeram os embriões da democracia, os ratos roeram tudo, os ratos roeram o país, os ratos deixaram o país em buracos. Mil e tal milhões de buracos, sessenta milhões de buracos, trinta milhões de buracos, vinte milhões de buracos, dez milhões de buracos… Os ratos comeram tudo e também os olhos do povo. O povo de Abril sempre teve um frasco de raticida na mão, mas em vez de o atirar para cima dos ratos deitou-o pela retrete abaixo.

 

O povo cegou, e quanto mais cego menos o povo é capaz de ver quem o cegou.

 

O povo sempre foi avesso à cidadania, ou melhor, a direita, que não quer cidadãos, sempre procurou secar as fontes onde o povo pudesse beber a fresca água da cidadania. E ao povo sempre foi vedada a luz da cultura, do conhecimento e da lucidez mental com que se faz um cidadão.

 

Por isso eu não acredito no povo que acredita nos seus inimigos. Só acredito em cidadãos, e os cidadãos não são muitos. A direita e o capitalismo selvagem não sobrevivem com cidadãos. Como não sobreviveriam se o conhecimento e a cultura fossem a seiva da sociedade.

 

O país cheira mal que tolhe. Cheira a fraude, cheira a corrupção, cheira a merda por todo o lado. Tudo o que é direita infecta e dejecta. Quando ao fim de quatro anos a fossa está cheia, a falsa democracia pede ao povo para a despejar, e o povo, em vez de a lavar bem lavada e encher de água limpa, oferece-a de mão beijada a uma nova equipa de cagadores. Em vez de lhes atirar com a trampa à cara, varre-a para debaixo do tapete e com o ar mais cândido diz: não é merda o que fizeram, senhor, são rosas!

 

Por isso eu não acredito no povo. Só acredito em cidadãos conscientes.

 

Os que antecederam Cavaco, desenraizado personagem de divina comédia, nada-tudo-nada deste pobre país, andaram por aí, por essa Europa, a tentar fazer disto um cemitério. Cavaco adiantou-se como coveiro, começou a abrir a cova para enterrar Portugal, e os ”boys” que o povo foi acariciando carregaram o caixão às costas, alternando com outros “boys” de outras equipas desta fossa democrática. E o povo ingénuo, sempre a pensar que ia numa procissão do Senhor dos Passos, com a Igreja à frente aspergindo água benta! Deo Gratias! Gloria in Excelsis Deo!

 

Por isso eu não acredito no povo.

Por isso eu não acredito no barrete desta democracia.

Por isso me farto de rir, amargamente, é certo, quando me perguntam qual o rumo para a nossa democracia.

6 Comments

  1. Como te entendo, Adão. Aliás, não sei dizer nada de novo que possa minorar esta dormente amargura que nos corrói a alma. Nunca pensei ser possível, em tão pouco tempo, ver tanta barbárie descaradamente à solta.

  2. Meu caro Adão CruzAntes do mais, obrigado pela ilustração de um poema meu, arrancado á tristeza de ver sete vidas no momento destruídas.Quanto ao seu texto que não comento, deixo-lhe um excerto de um texto sobre a crise actua que em livro e na língua de Camões há-de ser editado l:”O que é que se vai passar no próximo abalo sistémico? O que é que se pode temer se violentas explosões sociais forem desencadeadas devido à desintegração do tecido económico com simultaneamente uma perda de valores éticos, morais ou políticos? Os piores cenários são sempre fáceis de imaginar tanto quanto a sua credibilidade de ocorrerem aumenta com a espantosa impotência dos políticos a enfrentarem os grandes problemas actuais. Uma humanidade que renuncia à razão e que se afasta da ética, perde o direito à existência.”François Morin, Finança Global, Europa e cenários de saída da crise, Conferências sobre a Crise, FEUC, Coimbra.E é tudo.Júlio Marques Mota

  3. Há um pequeno problema que precisa ser resolvido: os países só sobrevivem se as alianças que forem feitas, servirem para defender o bem GERAL, tudo o resto ou é a troika “aguentar, comer e calar”, ou revolta militar. ISTO são as possibilidades.

  4. Um quase-poema amargo, porque lúcido e a lucidez, hoje, só pode ser assim.Não “depus” porque considerei que em nada podia contribuir para as soluções que procuramos.Disseste tu, muito melhor, o que eu não fui capaz de dizer…É um grito. Mas bem modulado. Acutilante. Afiado. Preciso.E, porque necessário, ainda bem que soltaste o que, a mim, já nem me sai da garganta.

  5. Obrigado a todos. Sim, amigo Paulo, é um grito, uma espécie de cólica, num momento de indignação. Em tempos escrevi muito sobre democracia, sem a cultura política de todos vós, é certo, mas escrevi com a alma, como cidadão sério, escrevi sobre o muito que ambicionava para um futuro por que tanto lutei. Hoje, sobretudo perante o que de abjecto se passa na minha área, a Saúde, sinto vontade de vomitar. A Sra.Tatcher é responsável por vinte e tal mil mortes no primeiro ano após ter decretado que não pagava hemodiálises depois dos 75 anos. Na próxima quinta feira o governo parece que vai reunir com a Direccção de alguns hospitais, a fim de definir os cortes a fazer, isto é, decidir quem vai morrer, por não poder pagar aos dinossauros da abominável mina de ouro da saúde privada. Em circunstâncias destas, recuso-me a discutir o que é a democracia. Prefiro gritar, ainda que me chamem louco.

  6. Junto-em à tua loucura Adão, ao teu grito de raiva. Junto-me a ti na náusea que me vai rasgando as entranhas, que me vai doendo as dores e receios dos que já sem meios contam as horas e o tempo. Um abraço enorme pelo teu grito

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