Marcello Mastrojanni (1924-1996) no seu último ano de vida, soube que padecia de cancro no pâncreas. Veio fazer o que seria o seu último filme, Viagem ao Principio do Mundo, com Manoel de Oliveira. Durante esse período gravou aquilo de que se foi lembrando sobre a sua vida – Mi ricordo, sì… mi ricordo, dirigido por Anna Maria Tatò.
O texto desse filme foi publicado pela Teorema em 1997, com o título do filme. Mastroanni pôde ainda ver todo o material, tendo escolhido o título. Decidiu partilhar convosco as referências a Portugal e a Manoel de Oliveira.
Turista de luxo
Ao cabo de mais de cento e setenta filmes, estou cada vez mais ávido de experiências novas. Por exemplo como esta, aqui, nestas montanhas de Portugal. (…) É um outro privilégio do meu ofício: quem viria parar a um lugar destes? Qual turista escolheria vir para o meio destas maravilhosas montanhas? O cinema leva-nos aonde nenhum serviço de turimo nos aconselharia que fôssemos. E, diga-se francamente, como “turista de luxo”, porque nenhum turista, por mais rico ou famoso que seja, poderia saborear assim tão profundamente o que é a natureza de um país, de um povo. Mesmo sendo difícil compreendermos-nos por causa da língua, no fim acabamos sempre por nos entender. E depois entrar na casa das pessoas, ver e fazer coisas que não seriam permitidas nem a um Presidente da República.
88 anos!
Manoel de Oliveira tem 88 anos. Nunca vi os filmes dele, mas conheço-o de nome, é considerado um papa do cinema internacional. Achei a ideia de trabalhar com um homem de 88 anos um privilégio. Trabalhar com um realizador de 30 ou 35 anos é normal. Mas digo: 88 anos! Chega a ser irritante, na sua energia. De manhã às 8 está na piscina a tomar banho, e faz frio, eh!
Como um dirigível
Vêem aquela ponte de ferro, aquela arcada audaciosa, ali no rio Douro? Chama-se “dona Maria”, uma rainha de Portugal, e foi projectada pelo engenheiro Eiffel, que todos conhecem pela famosa torre Eiffel de Paris. (…)
1996 – Orson Wells e Portugal
(…) Como estava prestes a partir para Portugal, onde rodaria Viagem ao princípio do mundo com o realizador Manoel de Oliveira, decidimos fazer o nosso filmezinho aproveitando os intervalos e o tempo livre que Marcello teriam durante os trabalhos. Preocupado em não incomodar o set de Oliveira, Marcello põe uma condição: que a nossa troupe fosse reduzidíssima. Concordei logo – desde porém que rodasse em 35 mm.
Mastroanni pertence ao grande cinema, não me parecia justo retratá-lo com uma câmara de vídeo.(…) A troupe era de 6 pessoas.
O filme foi filmado, durante o mês de Setembro, em Peso, Castro Laboreiro, Melgaço, Porto, rio Douro, Caminha,
sempre a fugir à chuva e a procurar o sol.
O vídeo abaixo mostra o aniversário de Mastroanni, passado com a equipa de filmagem portuguesa, num restaurante em Castro Laboreiro.


