O governo português teve, nos últimos vinte anos, uma política de apoio ao ensino do português, embora em França fosse quase inútil e, uma ou outra vez, contrária até aos nossos interesses, pela ignorância do sistema educativo (e da sociedade francesa). Em contrapartida haveria iniciativas necessárias na escultura da nossa imagem, através da promoção dos autores e artistas portugueses, de residências em Portugal de autores e artistas franceses, trocas, encontros, edições, espectáculos… Por exemplo. De maneira estruturada, com regras definidas, não esporadicamente, não ao acaso, não favorecendo os amigos… (É mutatis mutandis o que ocorre, com sucesso, graças a Paulo Branco, no mundo do cinema e, tanto o cinema francês como o português, muito ganham com isso.) Eu sei que existe o Intituto Camões… Mas quantos franceses ouviram falar dele? Quantos participaram em eventos (ou programas) por ele organizados?
O representante da cultura portuguesa que com sucesso a promoveu foi Eduardo Prado Coelho e, quando estava em França como adido, tornou-se chique ler Fernando Pessoa, comprar discos dos Madredeus, ver filmes de Manoel de Oliveira, vir a Lisboa ao fim-de-semana… Depois?… Nada de nada. A cultura portuguesa desapareceu abruptamente e agora, se falam de Portugal nos jornais e magazines, repetem um tema quase único: a miséria.
(O tema não faz directamente parte desta crónica, mas deixa-me de tal modo furiosa que vale uma digressão. Estou cansada de ver, de ouvir, na televisão, na rádio, repisar a tecla dos pobrezinhos. Os mass media nutrem-se de cadáveres – não são o meu prato favorito. E variemos um pouco a dieta, sejamos positivos aqui e além: Portugal não é a miséria. Não nos deixemos acaparar pelo miserabilismo, olhemos para além do centro comercial, saibamos com génio pentear macacos… O rigor económico impõe-nos outras regras, as quais podem gerar maior criatividade. “Não temos petróleo? Temos ideias!” Foi em 1974 a réplica dos franceses à crise do petróleo. Diz um provérbio, se queres ajudar o pobre, não lhe dês um peixe, empresta a cana para ele pescar. Portugal tem tantas aldeias abandonadas… Talvez alguém cultive de novo os campos, talvez volte a fazer queijo artesanal, talvez transforme os javalis em enchidos, talvez doravante diminuam os incêndios… Não me parece que o desperdício dos últimos vinte anos nos tenha tornado assim tão felizes – Portugal é o país da diabetes, da fisioterapia e dos engarrafamentos. Há os que fazem da crise coração. E há os que fazem da crise invenção. Não nos esqueçamos também destes.)
Os jovens franceses apaixonam-se por Portugal quando lhes mostram um país com surf e percursos pedestres, música e banda desenhada, vacas e vulcões, calçadas e azulejos… Com canções, contos, lengalengas, romances… Quando sabem que poderão estagiar numa empresa produtora de algas ou num cerejal altamente tecnológico. Quando descobrem que os portugueses são criadores de sapatos. Portugal não é isto tudo?
E quando é que Portugal não esteve em crise? Façamos desta agora uma ínclita variação.

