Afonso da Rocha Aguiar Os dias cinzentos do fim
(Adão Cruz)
Dois dias haviam passado desde a triste descoberta, e as pessoas olhavam para o céu na esperança de que o cinzento deixasse de escurecer gradualmente até a escuridão total que significaria o fim… Uns, ainda crédulos, acreditavam que não passaria de um erro de cálculo, mais um desses malucos cientistas armados em espertos, outros chegavam a culpá-los por terem ido à lua e terem espoletado tudo isto… Na cabeça de muitos passavam inúmeras dúvidas “por que existimos? Para sofrermos? Porque é que morremos? Por que será a vida tão cruel a este ponto de nos ter criado para morrermos? Será mesmo o fim? Se é que existe um fim… Existirá algo depois disto? Se existir vou para o céu ou para o inferno? Se calhar mais valia ter acreditado em deus e ter ido à igreja como a minha avó dizia. Terá valido a pena a minha vinda à terra? Será que vou ter medo? Não quero partir que nem um cobarde, como será vou enfrentar a morte? Se eu for cobarde deixar-me-ão entrar no céu? E se o céu não for assim tão bom? E se ele não existir? … Existirá algum propósito na minha vinda? Como serei recordado? Homem bom, honesto; mau, patife, injusto… será que serei recordado? Será que a minha vida não será apenas um minúsculo e patético vislumbre da humanidade?”… Questões infindáveis que vagueavam de cabeça em cabeça, de mente em mente, mas no fim, não encontravam resposta que os consolasse, que lhes dissipasse os porquês? Porque é que temos sempre de encontrar resposta para tudo? Por que não nos limitamos simplesmente a viver?
Para João isso não seria possível, tinha 23 anos e desde os 14 que a vida para ele não era a mesma. Com essa idade, um incêndio tinha-lhe tirado a mãe e obrigara-o a viver num orfanato, grande parte da sua adolescência. O pai, esse, tinha morrido quando João tinha apenas 4 anos. Mas João não sentia falta do pai, mal o conhecera, embora mantivesse a paixão pelos carros e trabalhasse numa oficina como ele, fora o facto de ter perdido ambos os pais com 14 anos que o afastara do resto dos órfãos que nunca tinham tido alguém a quem chamassem pais. O mundo levou-o a amadurecer mais cedo, trabalhara desde muito miúdo para poder ter um futuro, mas algo lá no fundo o incomodava, algo que agora, com a proximidade do fim tinha em comum com todos os outros “por que é que eu existo?”
As semanas passavam lentamente e havia já vários dias que ele não via a lua, que não via o azul do céu, que não via o sol, que não via as estrelas, que não via nada! Nada, a não ser aquele cinzento que ficava mais carregado e escuro à medida que os dias passavam. Um dia, João acordou para tomar o pequeno-almoço, olhou o céu pela janela e parecia noite cerrada. Tomou um último banho que lhe pareceu muito rápido e despediu-se da namorada com um longo beijo que terminou quando sentiu o cair de uma lágrima na sua cara, prenunciando aquilo que estava para acontecer. Estava decidido a despedir-se sozinho, sem medo, sem se arrepender de ter existido. Finalmente percebera que as perguntas não paravam na sua cabeça e as respostas variavam consoante o seu humor e preferiu orgulhar-se daquilo fizera e da maneira como tinha conseguido. A vida obrigara-o a lutar, mas nunca perdera noção de justiça, moral e igualdade, e então, enquanto deambulava pelo passado, orgulhou-se de si mesmo e percebeu que não precisava de respostas, pois atingira a felicidade. E a escuridão veio e ele enfrentou-a com um sorriso.



Bem-vindo, Afonso, mais o teu talento 🙂
obrigado Augusta Clara e cumprimentos para todos os argonautas 😉
Afonso, neste momento estás no primeiro lugar do ranking das leituras. Desconfio que pregaste um grande susto ao pessoal: julgam mesmo que vem aí o fim do mundo.