Esteve ligada à formação de professores durante doze anos. Foi dirigente sindical.
Escreveu para jornais e publicou em 2004 o seu primeiro livro Era uma vez Future Kids, em 2006 Aurora Adormecida e em 2010 Era uma vez em Outubro. Está a terminar o quarto livro Corconte, um romance.
Este é o depoimento de Eva Cruz:
Sobre Democracia.
Em tempos de crise, enquanto uns choram, outros fazem lenços.
Democracia é, como todos os conceitos, uma utopia. Chegar lá não será possível, mas caminhar para ela e senti-la cada vez mais próxima é o que qualquer ser humano verdadeiramente consciente deve ambicionar.
O vinte e cinco de Abril abriu as portas de par em par e quase nos levou ao altar da Democracia. Muito mais cedo do que se imaginava, os abutres a torceram e distorceram levando-a às portas da morte.
A história repete-se através dos séculos. E o desânimo apodera-se lentamente dos lutadores e perseguidores de utopias.
A reflexão por parte de quem quer que seja, esporádica ou sistemática, pode ser um simples desabafo ou inglória panaceia, mas é sem dúvida uma arma forte de esclarecimento. O silêncio é uma forma de legitimar as injustiças. É, por isso, muito importante que se escreva, se reflicta e faça reflectir sobre estes temas.
Por muito grande que seja a desilusão, há sempre um sentido que aponta rumos que nos arrastam e criam forças onde parece que as não há.
Numa sociedade onde a ciência, a tecnologia e o pseudo-desenvolvimento estão ao serviço do super-lucro e de uma desenfreada economia de mercado a expensas do esmagamento da dignidade e felicidade humanas, onde os governos não passam de meros gestores da forma de enriquecer meia dúzia de senhores do mundo à custa de milhões de milhões de explorados, a vida já não pode fazer sentido fora de um contexto revolucionário.
A reflexão vale essencialmente como motor da denúncia. Denúncia sem medo e sem tréguas, denúncia pública e arrojada dos verdadeiros culpados, sejam eles altos capitalistas, governos, instituições com rosto ou sem rosto. Denúncia que empurre tais grupos ou pessoas para a sentença que merecem.
A legitimidade de viver a vida bafejada, pelo menos, de saúde e emprego começa a ser rara e por isso as hostes dos indignados engrossam.
É importante que ninguém se perca no vazio acrítico de si mesmo.
É importante não esquecer que, enquanto uns choram, outros fazem lenços, com a triste ironia de limpar as lágrimas dos que choram.


Ainda bem, Eva, ainda bem que não sou só eu a dizer que a utopia não é um objectivo nefasto mas para perseguir sempre, como uma miragem, talvez, mas como um sonho, de certeza. E alguém disse que o sonho comanda a vida. Como se constrói a democracia? Primeiro não a traindo e, depois, continuando a construí-la todos os dias em tudo o que essa construção implica. E não ficando em silêncio nem “no vazio acrítico de si mesmo” como muito bem dizes.