Passa na próxima terça-feira mais um aniversário da Revolta de 31 de Janeiro de 1891. Não deixaremos de dedicar à efeméride a atenção que merece. qual o motivo dessa revolta? Um ano antes deu-se um caso que iria marcar decisivamente a história das duas décadas seguintes. Referimo-nos ao ultimato que em 11 de Janeiro o governo britânico – chefiado pelo primeiro ministro Lord Salisbury – entregou, sob a forma de um “Memorando” que exigia a Portugal a retirada das forças militares chefiadas pelo major Serpa Pinto do território compreendido entre as colónias de Moçambique e Angola. A zona era reclamada por Portugal, que a havia incluído no famoso Mapa cor-de-rosa uma faixa de território que ia de Angola à contra-costa, ou seja, a Moçambique.
A cedência de Portugal às exigências britânicas, que ameaçaram bombardear a partir de navios de guerra, Lisboa e Porto, foi sentida como uma humilhação nacional pelos republicanos portugueses, que acusaram o governo e o rei D. Carlos I de serem os seus responsáveis. O governo caiu, e António de Serpa Pimentel foi nomeado primeiro-ministro. A Revolta de 31 de Janeiro no Porto foi um eco dessa indignação. Foi jugulada pelas forças leais à monarquia, mas foi uma derrota militar que se transformou numa vitória política – os republicanos usaram-na como símbolo do descontentamento popular e nunca mais pararam as suas movimentações até proclamarem a República.
Estamos perante uma situação internacional difícil. Não comparamos a humilhação de 1890 com a que nos está a ser infligida agora, embora esta indicie uma progressiva perda dos restos de soberania que ainda temos. Há cento e vinte anos, em pleno Romantismo, as coisas resolviam-se com magnicídios, suicídios, revoluções. As esquadras navais das grandes potências aproximavam-se ameaçadoramente (aquilo a que um pouco mais tarde se chamou a «política de canhoneira»).
Agora, mandam-nos uma troika e dizem-nos como devemos conduzir os nossos assuntos. E temos um governo empenhado em ser mais do que cumpridor. Não precisam de nos bombardear. O nosso governo se encarregará de nos dizimar com impostos, cortes nos vencimentos e pensões. E a bola de neve de falências, desemprego, marginalidade. A boa figura que o governo quer fazer, é realizada à custa de trabalhadores e pensionistas, provocando disfunções sociais de toda a espécie.
A história nunca se repete. O que se repete é a tendência dos poderosos para resolverem os problemas por eles criados à custa do sacrifício dos mais fracos.
A bem dizer, o canibalismo nunca acabou.

