Selecção e tradução por Júlio Marques Mota
Desde há seis meses, o Governo mudou o seu discurso sobre o risco de uma degradação da notação atribuída à França. Uma diminuição na notação parece agora já decidida.
No espaço de seis meses, o Governo francês mudou o seu discurso sobre o risco de degradação da nota pela França. Agora, a redução da notação do país parece ser sido já decidida, pelo menos em palavras, dez dias depois de estarem sob vigilância pela Standard & Poors, os países da área do euro.
No final de Junho, enquanto que pairava no ar a ameaça de degradação nos Estados Unidos, a maioria, o Governo francês, optou por atacar o Partido Socialista sobre o tema de “irresponsabilidade económica”. Nicolas Sarkozy querendo defender o seu mandato, no momento onde os candidatos socialistas participavam nas primárias, insiste no seu dever de proceder a reformas económicas.
“Eu não fui eleito para que a França conheça um dia os problemas da Grécia, da Irlanda ou de Portugal”, disse ele, em seguida, referindo-se às crises graves crises orçamentais que atravessavam estes três países. Pelo seu lado, o conselheiro do Presidente, Franck Louvrier, comentou: “Com os socialistas, teríamos perdido a notação AAA.”
A notação AAA tornou-se o nosso tesouro colectivo
No início de Agosto, o Governo francês crispa-se ainda um pouco mais quando a agência Standard & Poors passa das palavras aos actos e reduz a nota da dívida pública dos Estados Unidos, que, em seguida, se encontram privados, pela primeira vez desde a criação desta Agência em 1941, do seu AAA.
Dois dias depois, a 10 de Agosto, o economista Jacques Attali desempenha o papel de Cassandra indicando que, “contrariamente ao que toda gente diz”, a França foi “explicitamente designada” por Standard & Poor’s como um país que poderia perder o seu AAA. A comitiva do Ministro da Economia, François Baroin, em seguida, apressa-se a negar esta afirmação: “esses rumores são totalmente infundados e as três agências, Standard & Poors, Fitch e da Moody’s confirmaram que não havia nenhum risco de degradação”.
“[Nicolas Sarkozy] já não pode mudar de linha de orientação: preservar a nota AAA da França custe o que custar.” “Esta tornou-se o nosso tesouro colectivo”, considera o ensaísta Alain Minc, escritor próximo do Presidente. Depois, a 19 de Agosto, o primeiro-ministro, François Fillon, num fórum publicado no Le Figaro, admite novamente a possível perda da nota suprema como um verdadeiro perigo: “Alguns defendem a criação de obrigações europeias, os eurobonds, que apresentam como uma panaceia”. “Mas eles esquecem-se de dizer que isso encarece o custo da dívida francesa e poderia mesmo por em perigo a nossa notação”, afirmou, de seguida, garantindo que somente a “regra de ouro” orçamental pode salvar as finanças públicas.
Um acervo extremamente valioso
Desde o princípio de Outubro, é nesse momento para defender a reformulação do Fundo Europeu de Estabilidade Financeira (FEEF) que a perda do AAA aí é apresentada como um verdadeiro risco. Uma fonte próxima do Eliseu, em seguida, explica então ao Le Monde que “algumas semanas atrás, em plena campanha contra os bancos franceses, o nosso triplo teria estado em perigo se nós não tivéssemos tudo recapitalizado sozinhos”. Mas “no caso do plano europeu o esforço será conjunto e a situação é pois diferente”.
Depois, em 17 de Outubro, novos sinais de ameaça da agência Moody’s: “No decorrer dos próximos três meses, Moody’s iria monitorar e avaliar esta perspectiva estável [da nota pela França], em face dos progressos realizados pelo governo.” No dia seguinte, François Fillon disse que a nota francesa “é um acervo extremamente valioso que não se pode em nenhuma situação permitir que se degrade e é um valor adquirido […] que não é intangível”.
Por seu lado, François Baroin também garante que a França iria “tudo fazer “ para manter esta sua notação. “Nós estaremos cá para manter este AAA.” É uma condição necessária para proteger o nosso modelo social, disse ele, em seguida. Tomaremos todas as medidas e, portanto, não há lugar para nenhuma preocupação. “Tudo está posto em marcha desde há três anos, para não sermos sujeitos à degradação da nossa notação. “.
SARKOZY: Se perdermos o AAA, eu serei um homem morto
Em 17 de Outubro, a maioria governamental lança a acusação contra François Hollande. Ele “não tem a capacidade”, acusa o Ministro do Interior, Claude Guéant. “Com François Hollande, é o concurso Lepine das despesas, dos impostos e dos défices,” ironiza o ministro. “O nosso objectivo é a credibilidade, é a responsabilidade”, diz o Ministro do Orçamento, Valérie Pécresse, que critica aos socialistas o facto de se recusarem a votar a regra de ouro e de estarem a inquietar as agências de notação por um projecto demasiado dispendioso.
Se o programa PS fosse posto em prática isso significaria ” o equivalente para a França ver a sua notação degradada em dois minutos”, diz mesmo François Baroin, em 19 de Outubro, na Convenção “resposta” da UMP, dedicada à “análise minuciosa” do projecto “irrealista” do PS.
No dia 23, de acordo com Le Canard Enchainé Nicolas Sarkozy teria mesmo dito: “Se perdermos o AAA eu sou um homem morto”.
Em seguida, no início de Dezembro, o clima fica mais calmo, quando a Alemanha, até então, unanimemente considerada como um refúgio de paz no meio da turbulência da zona euro é confrontada por sua vez com a ameaça de uma degradação do seu AAA avaliado pela Standard & Poors.
O TRIPLO A, ISTO NÃO É UM TOTEM
O primeiro acto oficial da mudança de discurso é representado em 6 Dezembro por François Fillon, convidado para o noticiário de France 2. “As agências de rating, isso é muito importante, mas não é o único elemento que o governo deve levar em conta nas suas escolhas”, diz então. “O Triplo A, é uma forma de pagar menos cara a dívida, isso não é um totem”, diz imediatamente a seguir a comitiva do primeiro-ministro.
Numa entrevista concedida ao Le Monde, Sarkozy, também ele garante que a perda do AAA não seria ” não ultrapassável”.
Em 14 de Dezembro, é a vez do Ministro dos Negócios Estrangeiros, Alain Juppé, vir ao terreno e explicar numa entrevista em Les Echos que a degradação da notação da França “não seria uma boa notícia, claro, mas não seria um cataclismo”. “Os Estados Unidos, que perderam o seu AAA continuam a contrair empréstimos nos mercados em boas condições,” argumentou.
Por fim, no dia seguinte, o primeiro-ministro Fillon, durante uma visita oficial ao Brasil, minora ainda mais o impacto da degradação: ” os mercados e as agências de rating tem sua lógica”. Eles vivem e traduzem o imediato, o que é instantâneo. “Mas o que importa não é o seu julgamento por um dia, é o caminho politicamente estruturado e orçamental rigoroso que a Europa, que a França decidiram adoptar”.


