Bento XVI, Santo Eugenio e a solução final. Por Carlos Loures

Este texto foi publicado no Estrolabio em 29 de Setembro de 2010

 

 

 

 

 

No Natal passado, Bento XVI, apelou durante a tradicional oração do Angelus na Praça de São Pedro, a um sentido mais religioso das festividades, dizendo: «o Natal não é um conto para crianças» (…) «é a resposta de Deus ao drama da humanidade em busca da verdadeira paz». A mensagem começou com uma expressão de pesar porque em «Belém, que é uma cidade símbolo da paz na Terra Santa e em todo o mundo, não reina a paz». Bento XVI explicou em seguida que o Natal «é profecia de paz para cada homem, compromete os cristãos na tomada de consciência de dramas, com frequência desconhecidos e escondidos, e dos conflitos do contexto em que se vive». Recordou que o Natal tem que fazer com que os homens se transformem em «instrumentos e mensageiros de paz, para levar o amor aonde há ódio, perdão onde haja ofensas, alegria onde haja tristeza e verdade onde haja erros». Entretanto, a comunidade judaica criticou a decisão do papa de aprovar as «virtudes heróicas» do papa Pio XII, primeiro passo para a beatificação, apenas faltando que se reconheça um milagre feito por sua intercessão para que Eugenio Pacelli seja considerado beato.

 

Será que os judeus têm razão? Acho que neste caso têm e muita.

 

Eugenio Pacelli era tão isento, ao longo da 2ª Guerra Mundial, que lhe chamavam «il Tedesco». Todos sabiam que o cardeal Pacelli era germanófilo. Parte da sua formação académica decorreu na Alemanha, em Munique. Entre 1925 e 1929 esteve instalado em Berlim. Foi nesse último ano que Pio XI o chamou ao Vaticano e o nomeou secretário de Estado. Foi ele que negociou com o governo de Mussolini o Tratado de Latrão (1929). A Igreja Católica recebeu 750 milhões de liras e, em contrapartida, reconheceu o regime fascista. Foi Pacelli quem, em 1933, supervisionou os termos da Concordata entre o Vaticano e o governo de Hitler, que monsenhor Gröber, der Braune Bischof (o «bispo nazi» de Friburgo), redigiu, rompendo em nome da Igreja o isolamento diplomático a que a comunidade internacional votara o novo governo alemão.

 

 

 

 

Em 1939, Eugenio Pacelli, sucedeu a Pio XI, tomando o nome de Pio XII. A sua relação com Mussolini e Hitler sempre foi cordial. Nunca denunciou publicamente os crimes que estavam a ser cometidos pelo governo do III Reich. Não podia deixar de saber da Endlösung, a «solução final», que previa a eliminação de todos os judeus da Europa, calculados em 11 milhões. No Angelus do Natal de 1942, lá disse qualquer coisa discreta sobre as «centenas ou milhares» de pessoas que, sem outra culpa que não a sua nacionalidade ou etnia, estavam «assinalados pela morte e por uma progressiva extinção». Sabia também que muitos dos que iam para as câmaras de gás não era pela sua etnia, mas sim pela sua opção política ou pela sua orientação sexual. Entre os esquerdistas e os homossexuais executados, havia numerosos católicos.

 

Quando, já depois da execução de 335 reféns civis, o Gueto de Roma foi, em Outubro de 1943, cercado por tropas SS, sendo executados 75 judeus, Pio XII permaneceu em silêncio. A Santa Sé mandou uns telegramazecos e fez uns telefonemas para o embaixador alemão, aceitando as justificações ladradas pelo diplomata. Perante uma reacção tão violenta os alemães atemorizaram-se e, ainda em Outubro, num Domingo, embarcaram 1060 judeus, cidadãos italianos, directamente para Auschwitz. Com o seu estranho silêncio, foi um cúmplice de Hitler e de Mussolini. E dispunha da única estação de rádio independente na Europa que estava sob a bota hitlerista. Depois da guerra, os seus defensores deram como desculpa que, se o papa se tem manifestado, isso iria radicalizar as posições dos ditadores.

 

Mostrando a sua solidariedade com as vítimas do nazismo, quando a guerra terminou, Pio XII proporcionou passes, salvos condutos e passaportes a criminosos de guerra, fascistas e nazis, bem como a colaboracionistas italianos que estavam abrigados no Vaticano e assim puderam recomeçar as suas vidas no Paraguai, na Argentina ou em Espanha. E para cúmulo da severidade, deu-lhes pequenas quantias em dinheiro. Na realidade, um homem que fez tanto bem, merece ser beatificado. Vejam lá se não se atrasam em juntá-lo à Corte dos santos.


Para terminar: eu acho que os judeus têm razão em protestar contra o projecto de beatificação de Eugenio Pacelli. Porém, será que Bento XVI não deveria ter já denunciado as atrocidades que os soldados israelitas cometem diariamente contra os civis palestinianos?

 

Provavelmente, tal denúncia impedi-lo-ia, após a sua morte, de ser beatificado.

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