Consequências em cascata do fim do AAA francês.

Selecção e tradução por Júlio Marques Mota

 

Paris lembra que Standard and  Poor’s  tinha decidido, em Outubro, a manutenção da sua classificação AAA, “destacando a seriedade  e o desempenho da gestão das finanças municipais que permanecem fundamentalmente sólidas”. 


Agora, a provável perda do AAA por parte da França é já é uma realidade nos mercados financeiros. As condições de financiamento da França, cuja diferença nas taxas de juro com a Alemanha   é já superior a 1 ponto percentual, para os empréstimos a dez anos (3,2%),, mostram isso mesmo.


Além disso, se se faz “rodar”, o modelo de classificação da agência norte-americana Standard & Poors, à maneira dos economistas, assente num feixe de dados económicos (défice público, o crescimento potencial, o comércio externo, etc.), o resultado é inevitável: a França obtém hoje ‘ hoje… um duplo A.


Mas, para além da observação sobre a qual  todos os economistas concordam,  ter-se-á tido  em conta os efeitos directos e indirectos que teria tal degradação da notação da França sobre a sua  economia? Tão depressa este Césamo perdido, uma das primeiras consequências seria ver a França excluída das  políticas de investimento dos grandes  fundos  internacionais, que seleccionam  para os seus clientes, as dívidas  mais seguras, notadas de AAA . Por exemplo, este é o caso dos fundos geridos por bancos privados suíços, alérgicos ao risco.


Da mesma forma, se a perda dos AAA  deve encarecer   o custo do “CDS” (Credit  Default Swap) da França – esses seguros que subscrevem os  credores de um Estado ou de uma empresa, para proteger contra o risco de incumprimento  – certos  bancos centrais fora da zona euro poderiam ser tentados a reduzir os  seus investimentos em obrigações francesas…


Sobretudo, a retirada dos AAA  provocaria a  degradação de notações em cascata  para todos os organismos públicos chamados de “sub-soberanos” : as autoridades locais, empresas com capital de Estado e empresas que beneficiam da garantia implícita do Estado. “Os AAA protegem  a economia francesa. Não se deve minimizar o impacto da sua eventual perda”, disse o economista Christian Saint-Etienne.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Em  França, os grandes emitentes  de dívida, que são a Caixa de Amortização da Dívida Social (CADES), Unedic ou  a rede ferroviária da França (RFF), todos notados  AAA  verão, sem dúvida,  como todas as agências públicas garantidas pelo Estado , então  a sua notação de crédito degradada. Este facto encareceria o custo do seu financiamento em detrimento portanto da sua situação financeira.

 

 

Também seria o caso dos Correios ou da Caisse des Dépôts et Consignations (CDC), um poderoso apoio financeiro das políticas públicas (habitação, renovação urbana, etc.) e, no contexto de crise, é uma peça central nas operações de   resgate de  instituições em dificuldades.

 

A perda do AAA da  CDC é, pelo menos atribuída, num momento bem inconveniente para a França   porque esta é uma instituição que deve  organizar  o desmantelamento de  Dexia – o principal banco no financiamento local, salvo da falência pela  Bélgica e pela França – e, ao mesmo tempo, resgatar a seguradora mutualista Groupama, ajudando a liquidar  os seus investimentos imobiliários!  As empresas cotadas em Bolsa, de que o Estado é directamente  accionista, serão também  prejudicadas pela perda dos AAA :  EDF,  Aeroportos de Paris, GDF Suez, Safran, Thales, Air France KLM, EADS, France Telecom, Renault, CNP.  As suas  notações poderão  baixar  e o custo dos  seus CDS, pode assim disparar.

 

 

Por seu lado, as colectividades territoriais, de que o Estado é o fiador, in fine, que para algumas se poderem financiar nos  mercados (como a região de Ile-de-France), também irão ser atingidas com esta perda dos AAA. E que dizer dos bancos, de quem os investidores consideram, desde a crise financeira de 2008 e da falência do banco de negócios americano Lehman Brothers,  que os bancos beneficiam  do apoio de um Estado “credor em última instância”.

 

 

No plano internacional, são de prever outros efeitos  para os organismos  de que a França constitui  um grande apoio. O Fundo Europeu de Estabilidade Financeira (FEEF) também perderia o seu AAA, como o deixa sugerir Standard and  Poors, na segunda-feira, 5 de Dezembro, ao anunciar colocar sob perspectiva negativa  o seu AAA.  Mas talvez também o Banco Europeu para a Reconstrução e o Desenvolvimento (BERD) e o Banco Europeu de Investimento, cujas emissões são garantidas pelos Estados possam ser igualmente atingidos.

 

 

Não ceder  ao pânico

 

 

Falta medir os efeitos reais destas baixas de notação sobre as condições em que se  financiam  todas estas entidades. “É muito difícil de medir, diz-nos o economista Patrick Artus, pois todas as empresas relacionadas com o Estado vão ser atingidas.” A economia será toda ela afectada. “Mas a forma como os mercados vêem as empresas conta tanto como as notações”. “A questão, diz Artus, é se a perda dos AAA já foi tomada em conta pelos mercados”. Uma análise caso a caso é pois o que se impõe.

 

Para  Nicolas Véron, do centro  Bruegel,  não se deve ceder ao pânico. ” A perda dos AAA  da França  não quer dizer  que não haverá mais AAA  em França , diz-nos ele.  Os efeitos induzidos não mecânicos. Nos Estados Unidos, cuja notação foi degradada por Standard & Poor’s em Agosto [de AAA para AA+], as empresas que dispõem de rendimentos internacionais robustos, continuam a serem notadas com os AAA.” “É verdade, reafirma Laurence Boone dirigente do  Bank of America Merrill Lynch, o impacto nos Estados Unidos  foi  bem menos forte do que o que se esperava, mas a inquietação permanece “Se o FEEF fosse degradado  diversos grandes países da zona euro seriam degradados e o sistema d e  gestão   da crise não valeria praticamente nada, afirma.

 

 

Anne Michel

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