… as estratégias de localização das empresas: os choques da globalização
Selecção e tradução de Júlio Marques Mota
(Continuação)
Os efeitos diferenciados das trocas internacionais
Em boa teoria económica, a integração no mercado mundial pode ter por efeito acelerar a inovação nos países mais desenvolvidos e inversamente de a travar nos países menos desenvolvidos (Grossman e Helpman, 1991, pp. 249-250).
Um nível de aquisição de conhecimentos relativamente superior das economias desenvolvidas permite introduzir novos produtos mais rapidamente. Como resultado, este país tem uma parte cada vez maior do número de produtos diferenciados e uma parte crescente da procura agregada. Os empresários têm mais incentivos para produzir novos produtos e acontece o contrário no país menos desenvolvido, onde a queda do mercado de bens diferenciados leva os empresários a estarem menos dispostos a realizar despesas em I&D. As aberturas são favoráveis aos países desenvolvidos e prejudiciais aos países menos desenvolvidos. Com a integração no comércio mundial, o o país líder em termos de níveis de conhecimentos acumulados vai dominar a investigação e a produção de bens de alta tecnologia a nível mundial. Os outros países irão especializar-se na produção de bens tradicionais. Se os bens de elevada tecnologia são intensivos em trabalhadores qualificados e os bens tradicionais em trabalhadores não qualificados o país com trabalhadores predominantemente não-qualificados é levado a especializar-se na produção de bens tradicionais. As localizações das actividades e as empresas é suposto ligarem-se a esta diferenciação e deverão traduzir-se numa taxa de crescimento mais elevada nos países desenvolvidos do que nos países pobres. Mas não é isso o que é observado. As estratégias empresariais e as políticas industriais que lhes servem de suporte não correspondem a este esquema.
A abertura ao comércio é uma condição necessária para o desenvolvimento de uma economia em atraso de desenvolvimento. A lição geral que pode ser extraída de experiência é que as economias que têm as taxas de crescimento mais altas foram aquelas que foram capazes de atingir uma radical transformação estrutural das suas actividades tradicionais de fracos ganhos de produtividade para as actividades modernas onde os ganhos de produtividade são fortes. No entanto estas actividades dizem respeito aos bens transaccionáveis.
O Japão, a Coreia do Sul ou da China são exemplos óbvios do sucesso desta estratégia em momentos diferentes da história. Uma economia em atraso de desenvolvimento, para criar o seu processo de convergência de rendimentos, em bens cuja produção está associada com o maior potencial para a aprendizagem e, portanto, associada aos maiores ganhos de produtividade. Para maximizar os seus ganhos de produtividade e crescimento, a economia precisa de produzir uma gama largamente diferente de bens consumidos internamente, devido ao fraco nível relativo do seu rendimento. A sua competitividade vai depender desta estratégia…
Com efeito, no país em atraso, os rendimentos individuais são baixos e as actividades para as quais há uma procura significativa não são aqueles onde os ganhos de produtividade são necessariamente os mais importantes. A fraqueza do rendimento médio e o seu impacto sobre a procura são contornados fazendo apelo à procura externa. O forte crescimento da produtividade será apenas obtido quando os recursos produtivos são dirigidos para as indústrias de exportação, para aquelas cuja procura emana dos países desenvolvidos. Assim, o comércio internacional torna-se um factor essencial de crescimento.
A capacidade de um país em sair do subdesenvolvimento apoiando-se no crescimento das suas exportações de bens industriais está fortemente dependente da intervenção das autoridades públicas. Esta não é o produto de um mercado livre nem simplesmente do acesso gratuito ao volume global de conhecimento através de transferências generalizadas. As políticas públicas para apoiar o desenvolvimento das indústrias são necessárias (Rodrik, 2005). O objectivo primeiro da abertura ao comércio internacional não é o objectivo de impor uma disciplina de preços, mas sim o objectivo de mercados externos para escoar a produção das indústrias nascentes. Assim, a abertura em questão apela a reformas complementares: garantir uma intermediação financeira para ajudar as empresas nacionais, confrontadas com o custo da transformação do seu aparelho produtivo e do seu modo de gestão; por em marcha formas de protecção social para garantir um mínimo de rendimento aos trabalhadores durante o período de transição. Além disso, o Estado é maciçamente interveniente ao manter as empresas públicas e ao procurar activamente coordenar o investimento das empresas privadas em áreas específicas. A estratégia de desenvolvimento com base nas exportações levou à implementação das medidas de política económica destinadas a fixar certos tipos de localizações.
A entrada nos mercados globais dos países emergentes, assim realizada é sentida como fonte de conflito com os países desenvolvidos, na medida em que as indústrias relevantes são aquelas em que os países desenvolvidos foram anteriormente dominantes. Os efeitos de escala afectam positivamente o desempenho de todos quando a redistribuição das indústrias se faz de países controlando a sua quase totalidade para os países com inicialmente muito poucas indústrias, os primeiros podendo então evitar a fragmentação excessiva da sua força de trabalho entre as diferentes actividades. Isto já não é o caso quando os países em causa se aproximam uns dos outros. As diferenças no nível de desenvolvimento persistem e são reflectidas na estrutura da procura interna de cada um deles. Mas a distribuição das actividades é menos desequilibrada e a perda de uma actividade por um país desenvolvido, com o benefício de um país emergente pode ser uma perda para o primeiro, um ganho para o segundo. Assim, quando os ganhos de produtividade nos países emergentes dizem respeito a actividades para as quais os países desenvolvidos eram até aí os países exportadores, os primeiros ganham com prejuízo para os segundos em termos de rendimento enquanto aumenta o rendimento global (Baumol e Gomory, 2000). Cabe, então, às empresas dos países desenvolvidos inovar não tanto para manter um avanço tecnológico geral cada vez mais ilusório como para manter nichos tecnológicos e criar novas indústrias. Estas estratégias de inovação têm possibilidades de terem sucesso se forem desenvolvidas e aplicadas políticas públicas, destinadas a reduzir as fracturas criadas na estrutura produtiva (Gaffard e Saraceno, 2008, 2012).
(Continua)
