Fui à procura de um livro de poesia, livros que não consigo ter ordenados por uma ordem lógica, e os meus olhos ficaram presos a «um dia e outro dia…» e «outono havias de vir», que constituem o volume I – Poesia I – das Obras de Irene Lisboa, em publicação pela Editorial Presença, com organização e prefácio de Paula Morão. Não resisti a reler algumas das suas poesias, mas logo a memória começou a funcionar: “No Diário do José Gomes Ferreira lembro que ele…”
E lá voltei à estante onde estão os 5 volumes já publicados do «Diário» do Poeta Militante. De facto, no «Dias Comuns II – A Idade do Malogro», de José Gomes Ferreira, pág. 207, aparece a referência ao estudo que lhe haviam encomendado sobre a poesia de Irene Lisboa, por quem nutria profunda admiração: «Acordei – escreve ele a 25 de Maio de 1967 – a esfaquear-me com esta pergunta: como poderei, sem escrúpulos de hesitação, escrever um estudo sobre a poesia de Irene Lisboa, no actual momento de expansão da Nova Crítica e do Estruturalismo que mal conheço?». Mais à frente, págs. 210/11, reproduz uma carta que, a 29 de Maio, escreve a «Ilda Moreira – velha amiga de Irene Lisboa». Para além de mais uma vez manifestar desconhecimento das «novas correntes que revolucionaram a crítica», conhecimento que, na altura, considerava de «importância fundamental» para elaborar o estudo que lhe havia sido solicitado, fala também da crise que atravessava, «provocada em parte pelas condições da minha vida parva de tradutor de fitas», escreve, quase a finalizar: «Que vamos fazer? Ou melhor: que devemos fazer para que a glória da Irene não sofra com as minhas desmoralizações tolas?»
Este estudo, como refere Paula Morão, foi encomendado a José Gomes Ferreira no seguimento do «plano para a obra completa, estabelecido e acordado por D. Ilda Moreira (a amiga da escritora que ficou depositária do espólio) com um editor em Fevereiro de 1978, [de que] apenas se cumpriu uma pequena parte – …». Ora, o estudo de José Gomes Ferreira, «Breve introdução à poesia de Irene Lisboa», seria para uma edição da poesia de Irene Lisboa igual ao que acima se refere, o que leva, e muito bem, Paula Morão a dizer que se faz «assim duplamente justiça – a Irene Lisboa e ao poeta que genuinamente a admirou e acerca disso se explica de modo claro, autorizado e informado, neste texto que vê a luz doze anos depois de ter sido escrito (o que dá bem a medida do imobilismo editorial que perseguiu as obras de Irene)».
De facto, Irene Lisboa nunca foi bafejada pela sorte de ter muitos leitores, apesar de apelidada de grande escritora não só por José Gomes Ferreira, mas também por Jorge de Sena, José Régio, Vergílio Ferreira, Carlos de Oliveira, …, de nada valendo à nossa grande escritora os nomes ilustres que a enalteceram. Carlos de Oliveira, no «Aprendiz de Feiticeiro», também referido por José Gomes Ferreira no seu estudo, escreve, sob o título de «À espera de leitores», texto este que teve uma primeira versão em 1959 e remodelado em 1966, deixa (deixa-nos) esta interrogação: «Mas hoje, ultrapassado o desfasamento inevitável a que estão sujeitos os inovadores, por que razão continua Irene Lisboa a não ser lida?»
Sim, porquê, pergunto eu agora, em 2012?
E Carlos de Oliveira, a finalizar, escreve assim: «Seja como for, o problema permanece: Irene Lisboa não rompeu ainda o círculo das estantes «intelectuais» que precede geralmente o grande público e às vezes se eterniza; de modo que é nossa obrigação não desistir, tentar «lançá-la», descongelar-lhe os livros, poupar-lhe ao menos a injustiça duma posteridade vagarosa.»
Eu não desisto, seguindo o conselho de Carlos de Oliveira. E vocês?
Termino com a transcrição de um dos muitos poemas que Irene Lisboa intitulou «outro dia»:
Quem me ouve
e quem me lê
julga, às vezes,
que eu fui como os ricos…
que tive e que dei,
que desprezei
e que desbaratei…
Ó, nada tive!
Nada recebi
e nada dei.
Outros julgam
que eu fui como os pobres,
que mendiguei…
Nem como esses fui!
Os pobres pedem
e aceitam.
Eu nada aceitei.
Nada conheci!
Vivi sempre como os cegos,
de olhos abertos,
parados
e abstractos…
Todos me magoam!
Uns porque acham ridícula
a minha pobreza,
outros porque duvidam
da minha singeleza…

