A senhora do Cabo – Manuela Degerine

 

 

 

 

Manuela Degerine  A senhora do Cabo

 

 

(Adão Cruz)   

 

 

 

   A tua avó era um bocado atrevida, dizia a prima Maria Luísa com a hipocrisia do eufemismo, porém eu desconfiava da versão, que sabia convencional, por conhecer Maria Luísa, logo substituía o qualificativo por arrojada ou inovadora, que melhor assentavam em Elisa Rosa Penim, a minha avó, contente por me falarem dela, embora Maria Luísa não percebesse o que a movia, atribuísse significados vulgares a incomprendidos signos, a prima da minha avó evocava a visita de um doutor ao Cabo Espichel, que doutor não me perguntes, o que recordo é a cena final, o tal doutor, os faroleiros, os semafóricos, os guardas fiscais a fumarem frente ao oceano e, na versão malquerente da prima, Elisa Penim pavoneava-se à volta deles, não, nunca aceitei a história por ela contada, parcial narradora de uma prima insubmissa, para além de bonita, o verbo pavonear-se parecia-me errado, a tia Marquinhas, a prima Maria Eufrásia, no pouco que diziam, contavam o sofrimento da minha avó, é certo que Elisa Penim pôs o melhor chapéu para aparecer diante de um homem que arrastava consigo luzes, lojas, teatros, livrarias, pastelarias, é certo que Elisa Penim naquela tarde, como em tantas ocasiões, lamentou não haver nascido homem para se juntar ao grupo, para escapar à sua prisão azul, para oferecer outras cores à imaginação, pois sendo filha do faroleiro-chefe, nascera no Cabo Espichel e frequentara a escola na Azóia, que lhe revelara bosques, montanhas, Nun’Álvares Pereira, mas os pais tinham oito filhos e o futuro das mulheres era casarem, bastando saberem ler e escrever, Elisa Penim sentira desde a infância uma curiosidade dolorosa por outros mundos, aquém e além das festas de Santa Maria do Cabo, das marcas deixadas pela mula que a Virgem montava, Nossa Senhora da Pedra da Mua, pegadas de dinossáurios com cento e cinquenta milhões de anos, o que Elisa Penim ignorava, a tragédia da condição feminina face ao infinito do tempo e do espaço, do céu e do mar azuis, tanto mais que o rei D. Carlos, cientista oceanógrafo e contador de histórias, almoçara esporadicamente no Cabo e, em tais ocasiões, Elisa Penim arranjara maneira de se manter presente, ajudando a servir o monarca, demorando-se por ali invisível, o faroleiro-chefe respondia às perguntas do soberano, narrava naufrágios, tempestades, prodígios, pescas milagrosas, o Rei explicava fenómenos marinhos e, no contentamento da inabitual liberdade, alargava a conversa além dos temas habituais, evocando até os faustos de Santa Maria do Cabo em tempos de D. José e D. Maria I, aquela menina casou anos mais tarde com o meu avô, homem austero, semafórico, uma pequena ascensão social, para ela insignificante, no Cabo nascera, no Cabo viveria, prisioneira do infinito, o céu e o mar até ao fim dos seus dias, ela com pé pequeno e imensos olhos castanhos, nasceram fatalmente dois filhos, seguiram-se anos dolorosos, durante os quais Elisa Penim fez frente ao oceano, porquanto o marido detinha um poder social, jurídico, económico, tivesse recato, tivesse vergonha, pensasse nos filhos, raras vezes a deixando ir a Lisboa, de onde ela trazia jornais que lia aos analfabetos, de onde ela regressava contudo silenciosa, com olhos vermelhos de olhar as modas e os modos, carregada de tecidos que, nas semanas seguintes, transformava em vestidos, casacos e chapéus para levar à missa, não, Elisa Penim não se pavoneava, Elisa Penim sentia-se suspensa num vazio azul, a espuma, os ouriços, os cavalos-marinhos, os dias de tempestade, as noites de luar, as estrelas do céu e do mar não chegavam para preencher tal vácuo, tinha uma única amiga, a Candinha, com quem trocava segredos e chapéus, que conheci tão alegre, protagonista do drama que depois te contarei, segredos do Cabo, crónicas de muitos tormentos, alguns acrescentaram um guarda fiscal à história, a Elisa Rosa Penim bastava ser da terra e não do mar, bastava a mordaça, bastava o equívoco, bastava a imensidão do tempo, bastava o desespero do aquém, bastava a paixão estética por outos mundos, para quê um guarda fiscal, vizinho de faroleiros e semafóricos, Elisa Penim entregou o ouro à irmã Marquinhas, a qual pensou que o queria esconder do marido, a quem as boas almas não se coibiam de explicar o missal, os vestidos, os chapéus, não há algas sem água, recomendou à irmã e ao cunhado, Pedro Terrabuzzi, se algo lhe sucedesse, cuidassem da menina, o pai cuidaria do rapaz, saiu durante a noite, revelou depois o marido, sendo encontrada no sopé da falésia com os olhos vendados e o enigma da sua morte mas, decorridos tantos anos, não obstante a dor, o silêncio, o embaraço, a incompreensão, as reticências, as conveniências que obscureceram a minha avó, eu herdei, com estes brincos, as palavras de uma possível versão: a nova lenda desta senhora do Cabo.

 

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