Um postal para o “ignorante” em CDS que é o nosso argonauta João Machado – VI. Por Júlio Marques Mota.

3. A Europa manipula os valores da Grécia e da recapitalização?


A partir de um texto do banqueiro Georges Ugeux, Le Monde, Outubro de 2011

 

 

 

 


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Isto parece ser intoxicação da mais pura, da mais simples. Em nenhum caso uma recapitalização dos bancos europeus de 100 mil milhões de dólares se pode justificar a partir da dívida grega.


Alguns números globais:

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A exposição dos bancos comerciais em dívida grega é na ordem dos 81 mil milhões de euros. Ora, ninguém coloca a hipótese de um abandono total da dívida grega. Mas onde estão estes 81 mil milhões?


Como 49 mil milhões de euros são detidos pelos bancos gregos, outros bancos europeus têm, portanto, um valor em títulos de 32 mil milhões de euros. Mesmo que 50% desta dívida foi finalmente abandonada, o montante máximo seria EUR 16 mil milhões de euros! O acordo de 21 de Julho já fornecia um sacrifício de 21%.A falta de transparência e a confusão criada pelas informações dos debates europeus começa furiosamente a ter o aspecto de uma manipulação política. Encontrámo-la magnificamente ilustrada no caso Dexia em que a Grécia representaria apenas 3,7% dos activos de EUR 100 mil milhões que são financiados com a garantia da França e da Bélgica. Isto não impediu que os governos em causa – erradamente – fizessem de Dexia uma vítima “vítima da crise na zona euro” e não tivessem considerado antes que Dexia estava a ser vítima da sua má-gestão. Nenhum banco privado alemão excede os 2 mil milhões sobre o valor da dívida grega. Em França, o BNP Paribas tem 5 mil milhões e a Société Générale tem 2,6 mil milhões.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A única explicação é que a recapitalização dos bancos europeus de que se fala visa outras situações que não a Grécia mas continuando a só falar dela, é o modelo que assim escapa a qualquer crítica e todos os que dele muito bem vivem, mais calmamente poderão continuar a viver. Lembremos aqui que nem sequer foram capazes de se entender sobre as normas de contabilidade, pois ao impor ou querer impor a regra contabilística mark to market, para o valor dos títulos em carteira e de cada instituição aos preços dos mercados não se está entretanto a impor um poder de ampliação dos efeitos nefastos que a especulação gera nos mercados, contra a hipótese de  se avaliar as mesmas carteiras de títulos  ou pelo valor histórico ou pelo modelo de avaliação interna? A questão é ainda mais caricata, para não dizer dramática, tal é a incompetência demonstrada até à exaustão. No caso aqui presente, o valor da capitalização torna-se altamente volátil e exige-se aumento dos fundos próprios, mantendo tudo o resto. Dificulta-se o crédito, é a consequência imediata. Por outro, com a liquidez como problema, os Estados reforçam as políticas de austeridade e aumentam a instabilidade da economia. Aumenta-se assim a pressão sobre a necessidade de rigor, aumenta-se a pressão sobre os Estados, aumenta-se a pressão sobre as taxas de juro, aumenta-se a pressão sobre a liquidez dos bancos, dificulta-se o crédito, tudo em simultâneo, neste inverno muito longo da nossa crise. E também aqui, em tudo isto, a culpa é da Grécia, é de Portugal, é da Espanha, é da Itália, é do próximo que se seguir. O exemplo em questão mostra que uma regulação à escala europeia se impõe, com uma total integração do sistema bancário e financeiro, sob tutela de uma comunidade de reguladores aplicando regras precisas e conformes, adequadas ao momento que se passa, com uma avaliação dos riscos e com o estabelecimento de normas contabilísticas que não vivam do instante dos mercados privados, criando um espaço de decisão e de regulação pública face aos mercados, criando um modelo estável e duradouro para o financiamento da economia e da dívida soberana dos respectivos países. Por outras palavras, criando-se verdadeiros mercados financeiros ao serviço da economia e não ao serviço dos criadores do risco, como se tem estado a fazer.

 

O exemplo em questão mostra ainda que a zona euro é uma espécie de barco completamente à deriva, ao sabor das ondas e das tempestades que os deuses dos mercados vão criando enquanto os timoneiros, os diversos Durão Barroso, face aos rombos no casco entendem que a solução é tornar os rombos ainda maiores, este é o trabalho das políticas da austeridade, para que a agua se escoe em pleno alto mar e na crista de uma enorme vaga.

 

Aliás, a contradição é de tal forma brutal, visível ao mais cego dos cegos, audível para o mais surdo dos surdos, explicável pelo mais mudo dos mudos, que só nos resta a pergunta: como é possível que só se saiba falar em austeridade!

 

Como referencia André Orléan quando lhe perguntam sobre quem governa a Europa e em que responde:

 

“Na zona euro, é o mercado. O poder político conforma-se com as prioridades que estes lhes estabelecem e temem também as suas avaliações. Viu-se ainda agora com a degradação da França por Standard and Poor’s . Ao mesmo tempo, o mercado financeiro é um soberano profundamente errático e incoerente. O mercado  nunca está satisfeito  como pode ser visto com estas políticas rigorosas que são acompanhadas de baixo crescimento  e esta baixa taxa de crescimento acarreta ela própria  novas dificuldades, e gera ela-mesma outras dificuldades ainda. No final, tem-se a impressão de que, na zona euro,  a confiança nunca mais voltará.” E aqui podemos citar e aplicar um recente relatório da  McKinsey, de Setembro passado,  aplicado á economia global: “Profits are strong, interest rates low, and bargains abundant, yet many companies aren’t investing. Uncertainty—about the economy, markets, and economic policy—no doubt ranks high among the reasons “ ou ainda:”   One of the puzzles of the sluggish global economy today is why companies aren’t investing more. They certainly seem to have good reasons to: corporate coffers are full, interest rates are low, and a slack economy inevitably offers bargains.”

 

Ora já que se fala tanto em transparência, a desconfiança quer dos investidores quer dos trabalhadores face a esta Europa, a estes dirigentes não será assim que será dissipada. Antes, pelo contrário, assim só pode ser ampliada. Como assina um antigo banqueiro Charles-Henri Filippi : “A crise que enfrentamos é muito mais do que uma crise económica e social, por muito grave que esta seja: ela é também o fracasso político que sanciona  a passagem da era do dinheiro socializado e disperso para a era do dinheiro privatizado e fortemente concentrado. É, portanto, não só contra a depressão imediata que se deve lutar, mas é também contra o risco da forte erosão democrática e contra o crescendo das oligarquias que se escondem por trás dela. A ordem de dinheiro controlado, compatível com a liberdade e justiça, está agora toda ela por refazer.”

 

Outros políticos, outras políticas, outras formas de pensar a economia, de pensar a sociedade, exigem-se. Reinventemo-las. Reinventemos pois uma sociedade que integre, e não desintegre, os homens e as mulheres de todas as gerações, que coloque os jovens na senda de um futuro condigno a alcançar, que os estimule pelo gosto na técnica, pelo prazer na cultura e no conhecimento, pela alegria no respeito de uns pelos outros, e façamos pois com que estas questões estejam no centro do nosso projecto de vida em sociedade e antes que seja tarde.

 

Júlio Marques Mota

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