Diário de Bordo de 10 de Fevereiro de 2012

Tem todo o ar de ser uma lenda, mas ganhou foros de facto histórico a resposta que Maria Antonieta deu a uma aia que lhe disse que o povo não tinha pão: – «Por que não comem bolos?». Essa frase histórica de duvidosa veracidade, tem sido muito lembrada a propósito de uma gaffe de, Nora Berra, secretária de Estado da Saúde do governo francês que aconselhou os “sem-abrigo a ficar em casa” para se protegerem da vaga de frio. Donde se pode comprovar que a falta de sensibilidade para os problemas reais dos povos que supostamente governam, é comum a toda esta gente adepta do neo-liberalismo que consegue chegar ao poder. O neo-liberalismo, para além das formulações teóricas, tem no conceito de pragmatismo o seu principal pilar. Aquilo que se chama “cortar a direito”. E esta dos sem-abrigo ficarem em casa, até é mais engraçada do que a produzida por Manuela Ferreira Leite, que a ser posta em prática condenaria à morte todos os doentes de insuficiência renal com mais de 70 anos – os que não possam pagar a hemodiálise.

 

Após estes disparates, vem sempre quem os disse afirmar que houve interpretação errada, abusiva ou descontextualizada. Martin Schulz não fugiu à regra e veio garantir não ter pretendido criticar o primeiro-ministro português ou a política externa portuguesa, quando disse que a aposta no investimento angolano era o “declínio” do país: “Lamento muito que tenha havido gente que tentou interpretar mal uma coisa que não pode ser mal interpretada, pois eu não critiquei o Governo, nem o país, apenas exprimi a ideia que os europeus fariam melhor em trabalhar em conjunto”.

 

Estas declarações de Schulz tiveram o mérito de unir todo o leque partidário, da esquerda à direita. E, no entanto, cometendo uma evidente ingerência na política externa de um estado formalmente soberano, da sua perspectiva europeísta, tem alguma razão. Os políticos portugueses estarão preocupados com a perda de soberania do País ou com a perda da autoridade formal que lhes resta?

 

O excesso de zelo deste governo, está a sacrificar a grande maioria do povo português, mas não vai evitar que Portugal seja, como a Grécia já está a ser, um dos bodes-expiatórios da crise europeia. Merkel com as declarações sobre a Madeira e Schulz vaticinando o declínio, são iniludíveis sinais dessa escolha. Escolha merecida porque estamos a aceitar a canga com indignações simbólicas e continuamos a tolerar todas as arbitrariedades que estes governantes incompetentes e insensíveis cometem para agradar aos seus patrões. “Vendo as pessoas tratarem-nos tão bem, apesar das suas desgraças, obriga-nos ainda mais a trabalhar pela felicidade deles”. Isto escreveu, de facto, Maria Antonieta a sua mãe.

 

E, apesar da sua sensibilidade, foi guilhotinada.

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