
Este quadro de Dorindo Carvalho inspirou o texto poético
AMBÍGUO PARAÍSO– por Paulo Rato
Ambíguo paraíso, este, seccionado pelo verde de que a ave repele o amarelo e transporta quase ao azul.
Trémula, a ave – no limite da obscuridade, paralisada pela sedução de Medusa de emaranhadas serpentes ou fios de pensamentos, sinuosas fibras oscilando perplexas, do acolhimento à ameaça – hesita, entre a mão que a solta, ou espera, ou prende em seu magnético gesto e as aéreas volutas, de que o belo movimento – que latente se adivinha, inquietante e suave – a atrai. Ou tão só concentra, na sua quase transparência, a vibração da tela e a dispersa pela vertical do braço, a oscilação do verde – diagonal de que a aparente lassidão de hipérbole nos distrai, mas busca, sub-reptícia, a sua outra componente, a que, do limite da terra vermelha, se lhe opõe e ascende, negra, de seu vértice suspensa a feminina fenda, oculta na redonda coxa, violenta irrupção de violeta que a desnuda e projecta no negro a que terra e corpo se fixam, sem visíveis raízes ou liames?
O violeta nasce para aquém do negro e o penetra e rasga, atravessa a lente que o verde agora insinua e perverte a integridade que o olhar deseja, revela a tensão, a firmeza da carne que, na clara água, a primeiro plano chamada e em preciso vaso contida, apenas se pressente.
Porque só o violeta transborda dos planos que se cindem e neles persiste, na irrecusável diagonal que trespassa a que de verde se veste.
Aqui o olhar não repousa, o corpo não se acomoda, a mente não encontra lugar de plácida contemplação.
Tudo, no desenho e na cor, desmente o edénico, indesejável apaziguamento, que o título – irónico? – promete.

