Sobre a desfinanceirização da economia. 2. É necessário des-financeirizar a economia. Por André Orléan

Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

 

 

A economia europeia está a atravessar uma crise de extrema gravidade, sem precedentes desde a crise da década de 30. Esta crise afecta, simultaneamente, a finança, a moeda e o emprego. Conceber respostas adequadas requer que um diagnóstico correto incida sobre a natureza das dificuldades que enfrentamos.


No entanto, sobre o diagnóstico propriamente dito não há unanimidade. Se a responsabilidade da esfera financeira é a que é mais frequentemente apresentada, ela dá origem a duas leituras de fortes contrastes. Uma primeira interpretação, anunciada pelo G-20 desde a Cimeira de Washington em 15 de Novembro de 2008, realça especificamente os “excessos” do sistema financeiro. A lista dos disfuncionamentos referenciados é impressionante: a opacidade dos produtos titularizados, a remuneração excessiva dos traders – os operadores nas salas de mercado dos grandes bancos – os paraísos fiscais, as normas de contabilidade inadequadas, as falha na regulação. o enorme peso que representa a influência as agências de rating, a existência de uma política monetária laxista, e isto só para citar os principais disfuncionamentos…


Esta primeira leitura propôs tantas reformas quanto os disfuncionamentos com a finalidade de libertar a esfera financeira dos seus excessos. Dito por outras palavras, a primazia aos mercados financeiros é preservada, mas no quadro de uma concorrência purificada dos seus excessos. O capitalismo financeirizado que nós conhecemos desde há trinta anos não é assim posto em causa. Este permanece, aos olhos do G-20 como o quadro institucional adequado. Trata-se apenas de o reforçar. A leitura da crise que proponho é diferente.


O que eu ponho em questão é  exactamente a ideia de que os próprios mercados financeiros ainda que transparentes permitiriam uma repartição do capital satisfatória. Pelo contrário, o que se deve fazer é considerar que os preços financeiros não fornecem bons sinais aos agentes económicos. É esta inadequação dos preços financeiros que está na origem dos desequilíbrios que conhecemos, incluindo mesmo os macroeconómicos. Se este diagnóstico é correcto, então o capitalismo financeirizado, que tem por característica intrínseca a de fazer desempenhar um papel central aos preços financeiros na sua regulação, deve ser abandonado.


Para entender este ponto de vista, lembremo-nos de que os preços são o coração da regulação económica. É sobre esta certeza que assenta inteiramente a eficácia tão propalada das economias de mercado. Num um artigo famoso em 1945, o economista Friedrich Hayek demonstra brilhantemente que os agentes económicos não têm necessidade de ter um conhecimento exaustivo da economia, porque a informação decisiva está contida nos preços.


Cada agente só tem um conhecimento local, limitado ao seu  horizonte  pessoal e cabe aos preços agregarem todas estas informações locais para se ter uma visão global coerente. Tomando o exemplo de uma matéria-prima que se tornou rara. Friedrich Hayek mostra que a economia vai-se adaptar a este choque sem que haja mais do que um punhado de agentes que estejam informadas sobre o choque inicial. E Hayek conclui: “o aspecto mais significativo deste sistema é a economia do conhecimento que permite, ou, o que é o mesmo, o pouco conhecimento de que as pessoas têm necessidade para tomarem as decisões adequadas “. Nunca será demais sublinhar este resultado. O mecanismo do ajustamento pelos preços desempenha um papel vital na coordenação de mercado. Este é um dos resultados essenciais da teoria económica de Adam Smith.


Notemos, no entanto, que esta análise teórica foi  primeiramente estabelecida  apenas para os mercados de bens correntes. Só muito recentemente é que esta ideia foi estendidos aos mercados financeiros. Esta extensão, a que se chama a teoria de eficiência financeira, data apenas da década de 70. Esta acompanhou a desregulamentação financeira, que aí encontrou a sua mais forte justificação. E foi em nome da capacidade dos mercados financeiros a produzir preços justos que se promoveu a intensa desregulamentação financeira que está na origem do capitalismo financeirizado. Se observarmos a história longa do capitalismo, esta desregulamentação é seguramente excepcional.


Por exemplo, lembremo-nos de que, na década de 70, a maior parte das taxas de juro eram preços administrados pelo poder público. Segundo a teoria da eficiência da  mesma maneira  que se considera que o preço das mercadorias supostamente reflecte a sua raridade, os preços financeiros são esperados estarem a propor uma imagem correcta do futuro e dos seus riscos.


Por exemplo, as cotações da bolsa exprimiriam a rentabilidade esperada e as taxas de juros reflectiam a probabilidade de incumprimento dos mutuários. É esta análise que contesto: a concorrência financeira não fornece  de modo nenhum uma correcta valorização das actividades produtivas, quer os mercados sejam transparentes ou opacos. As taxas de juros sobre a dívida pública europeia fornecem-nos uma ilustração exemplar.


Neste caso, não é possível impor uma qualquer opacidade destes títulos que estão entre os mais líquidos e mais transparentes. No entanto, até agora, a história destes mercados não é nada gloriosa. Eles não deixaram até agora de estar errados. Quanto ao passado, isto pode ser afirmado sem ambiguidade.


Com efeito, durante o período que vai da formação do euro nos anos aos anos de 2007-2008, verifica-se que esses mercados esqueceram completamente o risco soberano: as taxas de juro de todos os países da zona euro convergiram para um mesmo nível, tanto para a Alemanha como para a Grécia.


Obviamente, estes mercados mostraram uma forte miopia. Isto teve mesmo as suas consequências. Uma discriminação das taxas poderia ter posto de sobreaviso algumas economias contra os excessos da dívida. Os mercados não desempenharam o papel que lhes foi atribuído pela teoria da eficiência: o de um sinal informando todas as partes interessadas. Hoje acontece o mesmo. Há uma profunda divergência das taxas entre os países da área do euro, que também não se justifica, de forma nenhuma. Os níveis atingidos pelas taxas de juros não nos proporcionam uma avaliação justa do risco de incumprimento dos países considerados.


Se nós colocamos de lado a Grécia, considerada insolvente por muitos, a maioria dos economistas está de acordo em considerar como  sendo  estas taxas inadequadas. Elas são inadequadas pelo menos por três razões: em primeiro lugar, elas implicam uma punção sobre a riqueza social completamente desmedida; por outro lado, elas incentivam políticas rigorosas exageradas; finalmente, elas forçam a que as economias solváveis passem à situação de falência. É o seu perigo extremo.


No entanto, o que foi dito sobre as taxas de juro pode ser facilmente estendido a todos os preços financeiros. Estes produzem periodicamente motivações incorrectas ou incoerentes. levando as economias à deriva, como pode ser visto hoje para a dívida pública. Assim, se falarmos só sobre a valorização das acções, basta lembrar as motivações dementes da bolha da Internet e a crise que se lhes seguida no início de 2000.


Isto é ainda um exemplo para o qual não pode ser aceite a desculpa de opacidade. Acontece o mesmo para com as taxas de câmbio que estão sujeitas a fortes variações desligadas dos dados objectivos, os fundamentais. Mais geralmente, os mercados bolsistas veiculam. desde há mais de uma década, as exigências de rentabilidade, o famoso ROE (return on equity ), que pesa fortemente no investimento e no crescimento. Deve-se daqui concluir que os preços financeiros não são bons sinais. Nenhuma força de controlo vem limitar-lhes os seus excessos, ao contrário do que acontece nos mercados de bens correntes.


Os preços financeiros podem subir até valores muito altos sem que a procura  para esses produtos diminua, porque os investidores podem continuar a prever um aumento dos preços que justifica, de novo, novas ordens de compra. Da mesma forma, os preços podem descer até valores muito baixos baixo sem que com isso venha a criar uma procura que assim venha a travar a descida. E foi esta situação que se mostrou claramente com a crise em 2008, em que os preços dos produtos titularizados desceram para níveis muito mais baixos do que o que poderia justificar qualquer valorização racional, sem que, contudo, tivesse ocorrido alguma variação positiva da procura. porque os investidores temiam que ainda continuassem a descer. Como resultado, o sistema encontrou-se à beira da falência generalizada.


Se a descida dos preços foi interrompida, o que não teria nada a ver com a suposta acção das supostas propriedades auto-reguladores da concorrência financeira, foi pura e simplesmente porque as autoridades públicas optaram por comprar para evitar uma crise generalizada.


Esta divergência quanto ao diagnóstico sobre a natureza da crise levou-me a propor uma política completamente diferente daquela que foi defendida pelo G-20, sem sequer falar na sua extrema lentidão para porem em prática fosse o que fosse. Tentámos no quadro deste artigo identificar o princípio orientador: uma vez que os mercados financeiros geram avaliações dos produto que nos encostam contra a parede, que não nos deixam saída, é então importante reduzir drasticamente reduzir o seu papel.


A transparência financeira não vai resolver os nossos problemas. É necessário desfinanciarizar as nossas economias. Este é certamente um grande projecto de trabalho colectivo e uma verdadeira revolução intelectual, tanto quanto temos estado habituados nos últimos 20 anos a submetermo-nos  cegamente aos valores estimados pelos mercados. Este domínio e a consequente pressão do valor financeiro deve ser radicalmente posto em causa.


No princípio de base da desfinanceirização está a hipótese de que haja um outro quadro institucional com poderes de avaliação fora dos mercados (empresários, sindicatos, associações, entidades públicas), aptos a proporem-na, para finalidades que são do interesse público. Esta é a grande questão das políticas monetárias, industriais e ambientais. Hoje comprar dívida pública, seria para o Banco Central defender uma outra avaliação que não a dos mercados. É claro que essas mudanças só se podem desenvolver se e só se, simultaneamente, os circuitos de financiamento da economia se encontrarem fortemente reorganizados de maneira a reduzir fortemente o peso da esfera financeira.


André Orléan publicou muito recentemente L’Empire de la valeur. Refonder l’économie (Seuil, 340 p.) em que propõe uma nova abordagem do valor em economia.  André Orlean é um dos quatro co-autores  do  Manifeste des économistes atterrés (Les Liens qui libèrent, 2010). É igualmente Presidente   da Association française d’économie politique (AFEP) que defende  o pluralismo  no ensino e na investigação em economia.  É um especialista das questões monetárias  e financeiras e publicou ainda sobre a crise: De l’euphorie à la panique : penser la crise financière (Editions de la Rue d’Ulm, 2009).

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