Selecção e tradução por Júlio Marques Mota
A baixa a 13 de Janeiro da nota soberana de vários Estados europeus, incluindo a da França, pela Agência Standard & Poors (S & P) não é um caso sem precedentes. Desde 2009, duas das principais agências de notação, a S & P e a Moody’s, têm degradado a classificação da dívida soberana dentro da zona euro mais de 75 vezes, sem contar com os avisos, as ameaças, de ficar sob vigilância negativa, nem as revisões à baixa das perspectivas de segurança das obrigações dos Estados-Membros europeus.
É um verdadeiro tema de inquietação, talvez menos sobre o valor futuro dos «Eurobonds» e das taxas de juros do que pelo papel exercido das próprias agências de notação de crédito. Ao invés de acompanhar as tendências dos mercados e ajustarem as suas notações, como sempre fizeram, este oligopólio apresenta as suas estimativas de futuro próximo mais à maneira dos comentadores do que de uma forma profissional.
A 17 de Janeiro, o Presidente do Banco Central Europeu, Mario Draghi, questionou-se: “Será certamente necessário questionarmo-nos até que ponto estas notações são importantes para os mercados, para os investidores?” Alguns sugeriram que as agências de notação têm sido hiperactivas na variação das notações de crédito aos países da União Europeia.
De acordo com um estudo realizado pelo Banco Central Europeu, há uma correlação significativa entre o rendimento das obrigações do Tesouro e as perspectivas de variação da notação e perspectivas ligadas. Os desenvolvimentos são particularmente influentes perante de avisos pessimistas, mas são eventos muito menos importantes quando as perspectivas são positivas. Por outras palavras, as agências de notação, através da degradação da dívida soberana, parecem estar a influenciar o comportamento dos mercados, em vez de serem um reflexo desses mesmos mercados.
Essas degradações não estão limitadas a Europa. A Standard and Poor’s recentemente assumiu o papel de analista político nos Estados Unidos também. Enquanto o Congresso discutia em 2011 a séria questão do tecto da dívida, S&P ameaçava com a degradação da notação da dívida – uma ameaças com base mais política do que com base na situação da economia, pois que a S &P afirmava que a saúde da economia dos EUA não se tinha alterado fundamentalmente.
Lembremo-nos, em 25 de Outubro de 2010, a S & P anunciou em manter o triplo A das obrigações do Tesouro americano., com perspectivas estáveis nos próximos três a cinco anos. A Agência de classificação decidiu, em Abril de 2011, menos de seis meses depois, rever à baixa as perspectivas para a notação de crédito sobre a dívida soberana americana, argumentando com o risco de que os “decisores políticos americanos poderiam não chegar a um acordo sobre a forma como enfrentar com os desafios orçamentais a médio e longo prazo antes de 2013”.
Em seguida, em Julho, a S&P colocou os Estados Unidos sob vigilância, acreditando que “o debate político sobre (…) o tecto de dívida americana , do nosso ponto de vista, se tornou mais complexo. Apesar de meses de negociações, as duas partes permanecem fundamentalmente com divergentes posições na política orçamental. Portanto, nós acreditamos que existe um risco acrescido de impasse político por um período que vai para além da questão colocada pelo aumento do tecto da dívida”. A S &P afirmou que havia 50% de risco de que a nota seja baixada no prazo de três meses.
A 5 de Agosto de 2011, vinte e dois dias após ter sido colocada sob vigilância e três dias depois da assinatura do compromisso sobre o tecto da dívida pelo presidente Barack Obama, S & P reduzia a notação da dívida americana de AAA para AA +, afirmando que “a eficácia, a estabilidade e a previsibilidade das instituições políticas americanas foram enfraquecidas face a um período de importantes desafios económicos e orçamentais “. Contudo, Standard and Poor’s precisava: “ nós estimamos que as características económicas externas e financeiras do Estado americano, na base da notação soberana têm em grande parte permanecido inalteradas”.
Como resultado da degradação, Wall Street teve seu pior dia desde a crise financeira de 2008. Em duas semanas, o Dow Jones perdeu mais de 600 pontos. Fugindo de um turbulento mercado de acções, os investidores colocaram o seu dinheiro em títulos do Tesouro americano, apesar da degradação de Standard and Poor’s, e o seu valor na verdade aumentou.
As actividades das agências de notação têm certamente gerado incerteza e exacerbado a volatilidade dos mercados. Elas também ocasionaram mais movimentos no rendimento das obrigações do que se agências tivessem efectuado o mesmo trabalho prudente que fazem para os valores mobiliários das sociedades. Assim, não criaram apenas as condições em que se os ganhos e perdas dignas de um verdadeiro casino se verificassem mas provocaram também ansiedade e incerteza para os cidadãos dos países em causa.
Em tempos económicos menos turbulentos, as notações são fáceis de atribuir e as agências de rating têm feito um serviço satisfatório. Pelo contrário, durante as crises, quando o seu trabalho poderia ser da maior utilidade, as suas decisões passadas não são nada reconfortantes. A crise financeira com que nós ainda continuamos a debatermo-nos ainda hoje não é, porém, a primeira calamidade em que as agências de notação são grande parte do problema.
No início da crise de 1929, 98% das obrigações emitidas pelas trezentas e dez cidades americanas estava classificados como AA ou mais – mas enquanto elas estiveram cotadas como investimentos válidos (investment grade), 25% delas estavam já em situação de incumprimento nesse ano. Entre estas estavam Detroit, Cleveland, Miami e o Condado de Cook em Illinois, onde se encontra a cidade de Chicago.
Desde então, empresas de primeiro plano como Penn Central, Pacific Gas & Electric, Lehman Brothers e Washington Mutual, cujas obrigações eram consideradas como investimentos válidos, encontravam-se em situação de incumprimento três meses mais tarde.
No período que precedeu a crise financeira, a qualidade das classificações dos produtos financeiros estruturados eram medíocres. A Standard and Poor’s classificou 17000 títulos de dívida avaliados em milhões de milhões de dólares entre 1985 e 2011. Entre estes, M & T Bank analisou uma amostra de 2 679 títulos endossados a empréstimos imobiliários avaliados em 564 mil milhões de dólares. destes 2 670, ou 99%, estavam com classificação AAA na emissão mas 90% têm hoje notações que desencorajam quaisquer investimentos (non-investment grade). A dimensão destes erros é fabulosa.
Apesar dos seus resultados terrivelmente maus, o negócio da notação é uma mina de ouro. Os lucros da Moody’s quadruplicaram entre 2000 e 2007, e durante cinco anos consecutivos, a empresa teve os lucros mais altos do índice S & P 500 da bolsa. Em 2006, as margens antes de impostos, geradas pelas actividades de notação da Moody’s foram superiores a 60%. De 2008 a 2010, estas tinham ultrapassado os 45% quer na Moody’s. quer na Standard and Poor’s.
A lei Dodd-Frank, ratificada por Obama em Julho de 2010, reestrutura o quadro regulamentar do sistema financeiro e em muitos pontos de vista, mas temo que isso não possa evitar uma outra crise porque esta lei não resolve ou não aborda a sério alguns dos problemas mais importantes da crise anterior – como, por exemplo, o papel das agências de notação.
Nós não podemos permitir a um grupo de organizações que se enganaram tantas vezes que continuem o seu trabalho sem que a isso se reaja. É evidente que uma regulação mais forte mas justa minimizaria o risco de uma nova crise ao mesmo tempo que preservaria o espírito de empresa tão necessário à manutenção da liderança económica americana.
As agências de notação são empresas financeiras especializadas na avaliação dos riscos de crédito sobre títulos emitidos por empresas privadas e pelos Estados soberanos.
Robert G. Wilmers, Face ao seu falhanço, degrademos a notação das agências de notação, de rating!, Le Monde, Fevereiro de 2012.
Robert G. Wilmers, Président-directeur général de M & T Bank Corporation
