Introdução
Iniciamos hoje a quarta série de textos sobre Globalização e Desindustrialização, tema que agora Sarkozy, em França, e Obama,. nos Estados Unidos, estão a retomar face ao descalabro desta globalização a que a Europa e os Estados Unidos se tem submetido completamente, pela mão da Comissão Europeia, pela mão de Durão Barroso, pela mão da Organização Mundial do Comércio, pela mão de Pascal Lamy, seu Director-Geral, pela mão de Clinton e Bush também. Os textos desta quarta série estão obviamente ligados aos textos das séries anteriores, quer do ponto de vista da transcriçãopontual da realidade, com um capítulo sobre retratos da Globalização, quer do ponto de vista da transcrição global feita por grandes organismos públicos ou privados, Senado francês, Brookings, EPI, quer ainda no plano teórico, no plano das teorias justificativas das relações internacionais actuais, isto é, da actual divisão internacional do trabalho.
Aqui, questionaremos duramente a teoria dominantedo comércio internacional, retomando ideias já apresentadas em textos anteriores e tomaremos, portanto, como ponto de partida, a teoria das vantagens comparadas de David Ricardo-Stuart-Mill. Por esta via retomaremos uma linha de análise que já foi objecto central em duas cartas ao meu antigo aluno e actual ministro de Economia supostamente enviadas, criticando-se esta teoria e o silêncio dos economistas que a ela permanecem agarrados para assim poderem defender a política neoliberal imposta à escala mundial quer no âmbito dos trocas internacionais quer no âmbito dos mercados financeiros, e ambos os mercados representam a frente e o verso da mesma moeda, do mesmo modelo, o modelo neoliberal.
Com estes textos queremos chegar a uma tese central apresentada primeiramente pelos americanos Paul CraigRoberts, antigo secretário de Estado da Administração Reagan, e Charles E. Schumer, (senador democrata) em 2004, na BrookingsInstitution e que se pode sintetizar da seguinte forma: “Eu gostaria de vos dizer uma última coisa. (…). E Karl Marx assinalou que uma das consequências não intencionais dos governos era criar um mercado de trabalho para destruir o sistema feudal. Isso levou ao aparecimento do capitalismo. E é o que se pode realmente estar a testemunhar agora, a ascensão, a economia global que está muito para além dos Estados-nação.”
Antes de continuar a citação, relembremos aqui uma passagem de Marxnos Grundrisseonde se pode ler: “ O capital realizou a sua função histórica quando, por um lado, as necessidades foram bastante desenvolvidas para que o sobre-trabalho a mais do que o trabalho necessário, se torne ele próprio uma necessidade geral e decorra das necessidades do próprio indivíduo; e, por outro, que o zelo no trabalho imposto por uma férrea disciplina do capital às gerações sucessivas de trabalhadores seja transformada num bem comum da nova humanidade” e esta pode então aqui ser vista como o resultado do sistema capitalista no seu pleno sobre as formações anteriores que o precederam, formações estas que ele capitalismo dissolveu. A violência historicamente demonstrada consiste exactamente nesta dissolução e esse é o seu papel histórico “progressista” assumido pelo capitalismo face a todos os modelos de sociedade que o precederam, na opinião de Marx.
Os autores americanos citados encontram um forte paralelo entre a exposição de Marx face à dissolução do feudalismo e a situação presente, com a diferença que se trata agora da dissolução das soberanias nacionais face à globalização, e afirmam:
Quando se criou uma economia global e se tem ainda os Estados-nação, não há nenhuma maneira de corrigir a redistribuição do rendimento e da riqueza. Dizem-nos que no início da nossa história que tivemos a migração da indústria de Norte para o Sul, mas todos nós tínhamos maneira de fazer com que isso acontecesse. Mas quando se atravessam as fronteiras nacionais e a economia se torna global enquanto a soberania é nacional nós então vemos o desenvolvimento económico a mudar o sistema político. E podemos simplesmente estar a ver algo como o que Marx descreveu, onde ninguém pensava que o sistema feudal ia ser destruído, mas foi. E pode muito bem ser que a economia mundial signifique o fim das soberanias nacionais. Temos necessariamente de ter alguma forma de sistema de governo mundial. Caso contrário, não podemos lidar com todos os desequilíbrios que resultam do facto destes factores de produção serem altamente móveis.
Então, pode ser isto o que vai acontecer. E isto pode estar para além da capacidade de alguém fazer o quer que seja acerca disto e vão-se dar tremendas perturbações tal como se deu com a transição e transformação do feudalismo para o capitalismo. E isso pode ser exactamente o que está a acontecer sem que ninguém o reconheça.”
E cremos que é neste contexto que vamos inserir a quarta série de documentos sob o tema Globalização e Desindustrialização e é também neste contexto que agora se pode compreender a crise europeia, tomada como crise da dívida soberana mas que é muito mais que isso, é a crise global de um modelo global, a crise de economias nacionais a apagarem-se face a um espaço integrado em que ele próprio está sujeito e intensamente aos mecanismo de mercados mundiais sem qualquer regulação e a caminho diríamos de uma nova Ordem Internacional, neste caso de uma Nova (des)Ordem Internacional, sem mecanismos de governação, desordem esta que no plano europeu pode ser entendida como uma capitulação à ditadura dos mercados, à civilização também.
Entretanto sob o outro lado desta globalização, os países emergentes, aqui vos deixo um texto de humor, publicado hoje pelo LeMonde mas que simboliza a problemática que nesta série será levantada.
E bom acompanhamento da longa série que em A viagem dos Argonautas será publicada sobre Globalização e Desindustrialização..
Coimbra, 12 de Fevereiro de 2012
Júlio Marques Mota
