(Conclusão)
A Revolta em Lisboa
A partir de 5 de Fevereiro de 1927, tinham começado a verificar-se em Lisboa greves e agitação nos meios operários, solidários com os revoltosos do Porto. Os trabalhadores, pelo menos os mais politizados, sentiam-se revoltados com a imobilidade dos militares que, sabendo o que se estava a passar no Porto, salvo raras excepções, se mantinham nos quartéis. Operários socialistas, anarquistas, comunistas, de uma forma geral, organizados na Confederação Geral dos Trabalhadores, incitaram os militares a sair para as ruas.
Na verdade, o que estava planeado era que, 12 horas depois do levantamento militar do Porto, a revolta deveria eclodir em Lisboa, onde as unidades militares apoiadas por civis enquadrados pelas organizações operárias e democráticas, deveriam boicotar o envio de reforços às tropas do Governo no Norte, e imobilizar o Governo, dando tempo a que se consolidasse a situação no Porto o movimento se estendesse a unidades de outras regiões.
A realidade era trágica, aparecia aos olhos dos trabalhadores lisboetas com dimensões ainda mais catastróficas – os democratas do Porto estavam a ser chacinados, constava. A agitação cresceu no dia 6 de Fevereiro quando grupos de civis se amotinaram, sendo reprimidos pela Polícia e pela GNR. O Café Brasileira e outros pontos, foram encerrados pela polícia, sob o pretexto de que eram locais onde se realizavam comícios revolucionários.
Os marinheiros do Arsenal, honrando as tradições da Armada, revoltaram-se e, acompanhados por civis armados, assaltaram a Brigada do Alfeite. Ao mesmo tempo, os ferroviários do Sul-e-Sueste declararam no Barreiro uma greve geral, paralisando o tráfego de comboios a sul do Tejo. O Governo respondeu com a ocupação militar das estações e vias férreas
No dia 7, quando no Porto o movimento agonizava, apareceram as primeiras adesões entre os militares. Adesões hesitantes, movidas pela solidariedade com os militares do Porto. «Revolução do remorso», classificou-a Sarmento Pimentel quando se referia ao estertor da Revolta no Porto: «Nós, os do Porto, chamámos àquele levante tardio de Lisboa, a “Revolução do remorso”. É claro que a ditadura, podendo bater os seus inimigos, primeiro um e, depois deste vencido, o outro, esmagou este retardatário impiedosamente. Deu-se até ao desporto de andar a caçar a tiro, nas ruas de Lisboa, os republicanos tresmalhados, como quem caça coelhos».
O comandante Agatão Lança foi o líder militar do levantamento, tendo como segundo comandante o coronel José Mendes dos Reis. Face à recusa de adesão das principais unidades do Exército, estas forças eram constituídas por marinheiros, unidades da Guarda Nacional Republicana, e, por civis armados, alguns deles ex – membros da Movimento da Formiga Branca.
Dando lastro ao movimento, aderiram alguns vasos de guerra, como, por exemplo o cruzador Carvalho Araújo, sob o comando do comandante João Manuel de Carvalho e a canhoneira Ibo. Concentrados no Arsenal, os rebeldes foram atacados pelos aviões do Exército (a Força Aérea Portuguesa só foi constituída como ramo independente em 1952, pela junção da Aeronáutica Militar – Exército – e Aviação Naval – Marinha).
Em Lisboa a defesa governamental teve o comando do general Luís Manuel Domingues e, depois do dia 9, do ministro da Guerra, Passos e Sousa. As principais unidades apoiaram o Governo, deixando os revoltosos isolados e pobremente municiados, apesar de terem assaltado o Depósito de Material de Guerra e a Fábrica das Armas.
Na noite de 8, o Ministro da Guerra entrou em Lisboa, num ambiente de euforia dos seus apoiantes, dada a vitória no Porto. Com ele vieram tropas disponibilizadas, depois de jugulada a rebelião na Invicta. Assumiu o controlo das forças leais e apertou o cerco aos revoltosos de Lisboa, aos quais exigiu, como no Porto, a rendição incondicional. Na tarde seguinte, a 9 de Fevereiro, pelas 19.30 horas, já sem munições, Mendes dos Reis aceitou a render-se sem condições.
A ameaça de fuzilamento sumário dos civis que fossem encontrados armados, que já fora feita no Porto, cumpriu-se em Lisboa: no dia 9, junto ao chafariz do Largo do Rato, vários civis e marinheiros foram executados por fuzilamento. Em Lisboa, os combates, que cessaram no dia 10, causaram cerca de 90 mortos e mais de 400 feridos. Logo o Núncio Apostólico transmitiu ao Governo da Ditadura Militar, em nome dos países com embaixada em Lisboa, as felicitações por ter restabelecido a ordem e a normalidade. Também algumas associações patronais se apressaram a louvar o Governo e o Exército. Em 15 de Fevereiro, por decreto governamental, todos os funcionários públicos de algum modo envolvidos nos acontecimentos do Porto e de Lisboa, foram demitidos. Outro decreto com a mesma data dissolvia todas as unidades do Exército e da GNR que houvessem tomado parte na Revolta. Todos os partidos e organizações políticas que se tivessem associado ao movimento, foram igualmente dissolvidos.
Em cima: foto de 1927 que mostra a zona onde se deram os mais acesos combates em Lisboa – o Largo do Rato e a Rua da Escola Politécnica. à esquerda, o chafariz que foi cenário de numerosos fuzilamentos.
No dia 16, Raul Proença e Jaime Cortesão, ligados à «Seara Nova» e à estrutura política e militar do movimento, foram demitidos, respectivamente, dos cargos de Director Geral e de Director dos Serviços Técnicos da Biblioteca Nacional. O mesmo aconteceu a muitos outros intelectuais.xxx Em 26 de Março foi criado em Lisboa uma polícia política – a Polícia Especial de Informações, embrião da polícia política do Estado Novo, sendo recrutados agentes da extinta Polícia Preventiva de Segurança do Estado. Em 11 de Abril é criada uma Polícia Especial de Informações no Porto. Em 27 de Maio, o Governo decretou a dissolução da Confederação Geral dos Trabalhadores. O órgão oficial da CGT, A Batalha, foi assaltado por manifestantes em 6 de Maio.
Em baixo: civis e militares deportados na sequência da Revolta.
O movimento de Fevereiro de 1927 permitiu à Ditadura, como dizia, começar a criar um aparelho repressivo a todos os níveis, aparelho que iria constituir a pedra angular do Estado Novo. Considerando a Ditadura a única alternativa aos caos da Democracia, até alguns republicanos entenderam que este punho firme era a solução para os problemas nacionais. Os que apoiavam a Ditadura, a criação de um Estado autoritário e despótico, não perderam tempo – em a 9 de Fevereiro, ainda se trocava tiros em Lisboa, foi criada a Confederação Académica da União Nacional, o primeiro movimento civil de apoio à ditadura, criado por Vicente de Freitas. Embrião da União Nacional, o partido único que iria durar até 1969, quando Marcelo Caetano o crismou de Acção Nacional Popular, teve desde logo o apoio da imprensa de direita e, claro, da Igreja Católica.
No entanto, a Oposição teve também algumas vantagens. Em 12 de Março de 1927 foi criada em Paris a Liga de Defesa da República, integrando exilados políticos de diversas tendências – António Sérgio, Afonso Costa, Jaime Cortesão, entre muitos outros. Mas o chamado «Reviralhismo» não parou – logo em Junho de 1927, com o desacordo dos «liguistas», um grupo de oficiais exilados na Galiza, enviava clandestinamente a Portugal o capitão Jaime de Morais, para tentar chegar a um acordo com a União dos Oficiais Republicanos, dirigida pelo tenente-coronel Ribeiro de Carvalho e pelo comandante Cunha Aragão. Liderado pelo general Norton de Matos, foi criado um comité para uma novo movimento revolucionário.



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