Globalização e Desindustrialização – 4ª Série. Capitulo I. Retratos da Desindustrialização. Por Júlio Marques Mota.

 

1.7  Jalatte: crónica de uma deslocalização anunciada


Introdução

 

Júlio Marques Mota


Foi com muita emoção que na época li relatos sobre este caso e tanto mais quanto eu próprio trabalhei como operário vários anos numa fábrica de artefactos de borracha e em que tive como patrão alguém que não seria muito diferente de Pierre Jallate, o patrão de que se fala nesta peça. Curiosamente quando um dia a PIDE me foi buscar à fábrica onde eu trabalhava é ele, o meu patrão, que se dirige aos esbirros da PIDE e lhes pergunta se pode saber qual a razão pela qual lhe levam preso um dos seus bons funcionários. E possivelmente acredito que a pergunta me terá beneficiado bastante nesse pequeno incidente político.


Trata-se de capitalistas hoje quase impossível de encontrar exactamente porque a forma como o sistema leva a que os actores funcionem retira-lhes qualquer dose de humanismo: o preço tem que ser o mínimo e as condições de produção têm que satisfazer este requisito imposto pela ditadura dos mercados. Esta situação é emblematicamente assumida por um dos maiores traders mundiais, a empresa Glencore, cuja divisa é “Kill or die” . A ser verdade, isto mostra-nos a lógica cruel do modelo neoliberal em que a única referência a ser tomada nas múltiplas decisões dos múltiplos agentes é o preço a que o produtor coloque a sua produção no mercado, situação tornada ainda mais grave quando grande parte dos operadores nesses mercados mundiais, porque desregulamentados, não funcionam sob as mesmas regras, seja na compra, seja na venda, seja nos dois lados do sistema. Assim se compreende que aos ventos desta globalização nem os capitalistas de matriz humanista resistem. Hoje, desta forma, não seria possível uma fábrica como a da Vista Alegre em Ílhavo, por exemplo.   


Ao traçar a série de retratos  sobre a globalização veio-me de novo à memória a realidade do caso Jallate. Naturalmente. Uma homenagem simples, portanto, de um antigo operário a alguém que soube ser patrão.


E boa leitura.


Júlio Marques Mota,

 

Jalatte: crónica de uma deslocalização anunciada

 

Nathalie Funès,  Le Nouvel Observateur, 12.09.07


Resumo: A fábrica de sapatos em Saint-Hippolyte-du-Fort, no Gard, deverá fechar as suas portas, enviar os seus trabalhadores para o desemprego e a sua produção para a Tunísia. Mas o seu fundador, este, suicidou-se. Os políticos, os media agitaram-se e os fundos foram desbloqueados para limitar a grave questão social Regresso, pois, ao processo Jallatte


A fábrica está vazia. Nada mais há mais  que o sol que se reflecte nas pedras brancas.


E o carteiro passa de vez em quando para entregar o correio.


No final de Julho, a fábrica Jallatte e seus trabalhadores foram de férias de Verão. A fábrica estava fechada e tinha sido retirado o pano preto que barrava o pórtico de entrada , arrumado o livro de apresentação de sentimentos que toda a gente tinha vindo  assinar. Saint-Hippolyte-du-Fort, no sul da França, retomou os seus velhos hábitos. Coquetel no Café de Gard, jogava ao bowling depois da sesta. Como se nada tivesse acontecido. Como se nunca tivesse havido esse maldito plano social que queria eliminar do mapa de Cevennes uma empresa velha e já com meio século. E tudo o que se lhe  tinha seguido. Os directores sequestrados pelos trabalhadores, as manifestações para evitar a deslocalização para a Tunísia, o desfile dos políticos entre as duas voltas das eleições, o desembarque das câmaras de televisão e, por fim, a morte do seu fundador…


Pierre Jallatte iria fazer 89 anos de idade. Foi ele quem criou esta pequena oficina de galochas em Saint-Hippolyte-du-Fort, em 1947, e que, ao longo das décadas seguintes, tinha alcançado o estatuto de nº 1 do calçado de segurança na Europa. Ele vendeu depois as suas acções e, em seguida, retirou-se da actividade há mais de vinte anos. A empresa terá passado, desde então, por entre uma dúzia de diferentes mãos (Révillon, André, Eternit, Etex, CVC Capital Partners…) e tinha mesmo havido uma fusão com um concorrente para se tornar o grupo Jal, em 2000. Mas Pierre Jallatte continuou a estar ao corrente da vida da “sua” empresa de quase todos os dias. “Desde que eu morra antes que a fábrica feche”, repetia aos seus familiares, ultimamente. No dia 8 de Junho, cerca das 15 horas a sua mulher foi apanhar umas flores no jardim da sua casa em Nîmes. Pierre Jallatte pegou na sua espingarda e puxou o gatilho. “Foram os accionistas que o mataram”, acusa Georges Argeliès, 75 anos, antigo Director-geral.

 

Será muito pouco afirmar que se terá celebrado este patrão “humano”, que conhecia cada um dos seus trabalhadores pelo seu primeiro nome, que fazia escorregar uma nota para qualquer operário quando sabia que o seu filho estava doente, era o primeiro a chegar à fábrica, era o último a partir. Este antiga resistente cujo irmão mais novo, Gérard, foi executado pelos alemães em 1944. Este ” cara de actor ” (como disse Jacques Molénat, o único jornalista a tê-lo entrevistado para o “‘Express Méditerranée “), cachimbo nos lábios, a palavra fácil, poderia parecer um actor de um filme de série B da década de 70. Não, decididamente, nada a ver com os novos accionistas, chegados em 2005, uma holding de banqueiros anglo-saxónicos (Gatesworthy). Eses, são o género de tipo muito forte , de gravata, de pasta na mão, “que não sabem sequer como se fabrica um par de sapatos e que nunca puseram os pés aqui, no Gard” ironizava Jean-François Anton, delegado sindical da CGT.

 

Pierre Jallatte, ele, fazia viver esta vila, “com o suor do seu rosto”, dizia-se aqui. Durante muito tempo, os professores que queriam enviar uma garoto brilhante para a escola recebiam sempre a mesma resposta das mães: «não vale a pena, ele vai para a fábrica de Jallatte». Aqui entra-se como um aprendiz aos 14 anos e sai-se quando se vai para a reforma. No momento do seu esplendor, nas três fábricas de Saint-Hippolyte e Alès trabalhavam com cerca de 1 000 pessoas. Os habitantes da aldeia (3 400 habitantes) ainda se lembram da multidão e do barulho das ruas no início da manhã, quando as lojas começavam a abrir as suas portas e, alguns minutos mais tarde, era a escola que abria também. E que dizer sobre os benefícios sociais? “Os trabalhadores ganhavam o dobro de um professor”, diz-nos Fernand Léonard, ex-prefeito de comunista. Havia também um “prémio em  Junho”, equivalente a um décimo terceiro mês, um sistema de estímulos, participação nos lucros, uma quarta semana de férias (desde 1968), um Comité de empresa que enviava as crianças de férias para as colónias de férias e havia ainda prendas distribuídas no Natal. “Assim, não se deve estar a pagar mal aos mais inteligentes e mais interessados, aos mais vivos, declarava Pierre Jallatte ao “‘Express Méditerranée;” em 1972. Em cada reajustamento eu aumento mais os salários mais baixos. A diferença é muito grande entre os salários dos gestores e dos técnicos e os dos operários.» Diz-se mesmo que terá sido ele que levou os seus operários a parar de trabalhar, aquando de Maio 68. Ele estava com medo de que os grevistas do Gard viessem dar cabo da sua fábrica.


Terminou a grande época. Terminaram as três décadas do boom económico do pós-guerra, os famosos trinta Gloriosos. Esqueçam-se as taxas de crescimento a dois dígitos no calçado profissional. Hoje, Jallatte está financeiramente na zona vermelha (1,7 milhões de euros de prejuízos líquidos em cerca de 34 milhões de volume de negócios no ano passado). A situação do grupo Jal, a empresa-mãe com sede em Milão, não está nada melhor, (resultado quase nulo para um volume de negócios de 162.5 milhões de euros). Os accionistas fazem as suas contas. E o cálculo foi rapidamente feito. Grosso modo, um tunisino ganha num ano o que ganha um francês num mês. Já, do lado de Bizerte, no norte da Tunísia, Jal tem 16 edifícios, emprega 4.500 trabalhadores (85% da força de trabalho) e fabrica aí a maioria dos 11 milhões de pares de sapatos anuais. Enquanto nas fábricas de Saint-Hippolyte e Alès, as tarefas são dramaticamente  reduzidas. Ao longo dos anos, a fabricação dos canos das botas e, em seguida, o corte da pele, a montagem  dos protectores em aço e dos revestimentos em resina (que protegem dos choques) estas funções, umas após outras, passaram a cruzar o Mediterrâneo. Porque é que não se vai mais longe? Na quarta-feira, 30 de Maio pela manhã, Giovanni Falco, Presidente e Director-Geral da Jal e Joël Aunos, Director-Geral da Jallatte, convocaram os membros do Comité de Trabalhadores da empresa Jallate. E aqui anunciaram-lhes o encerramento total de todas fábricas do Gard, incluindo a de Saint-Hippolyte, instalada numa encosta de Vauban. A partir desta situação, 285 postos de trabalho são suprimidos, com um simples traço de um lápis. “Senhores Directores, os senhores merecem ser enforcados, os senhores são uns bandidos!” gritou-lhes Georges Argeliès à saída da reunião. E, depois, como o fez muitas vezes na vida foi telefonar ao seu antigo patrão, a informá-lo da situação.


Será o suicídio de Pierre Jallatte, o seu “sacrifício”, como se diz  na aldeia? Trata-se de uma bronca político-mediática? A sequência, sabemo-la.. Não é ainda desta vez que a Saint-Hippolyte fecha as suas portas. 143 postos vão ser salvos.. Não há nenhum despedimento seco, as partidas serão apenas voluntárias e as reforma são antecipadas. O Estado, o departamento, as Comunas, concordaram assinar um grande cheque (8 milhões de euros para financiar a reforma antecipada e a adquisição do local). “Compraram-se empregos”, reconhece Damien Alary, Presidente Socialista do Conselho geral do Gard. Por quanto tempo? Em Saint-Hippolyte, evita-se a questão. Como se prefere esquecer que os planos sociais se multiplicam desde há vinte anos e que o fundador mítico não era apenas um patrão ferido, mas sim um homem enfraquecido por artrite e pelos desgostos da vida (o seu único filho, Marc, suicidou-se aos 20 anos de idade, a sua mãe ter-se-á atirado numa fonte em Nîmes). É que os trabalhadores, eles também, estão cansados. Eles têm 52 anos em média, trinta, quarenta anos de casa. Eles sofrem de doenças profissionais, invalidez (20% da força de trabalho). Como Robert Rouvière, operário de corte…


Ele repetiu de tal forma e todos os dias, os mesmos gestos que os seus  membros gritavam por paragem. Periartrite no ombro, nos cotovelos epicondilite, e nas mãos problemas com os dedos… Ele já não pode jardinar no seu pequeno quintal ou nadar na piscina. No anterior plano social, em 2003, ele ainda era relativamente jovem. Mas desta vez, aos 55 anos de idade, ele não hesitou: ele vai embora. “É o penúltimo passo,” disse ele. Da próxima vez, a fábrica vai fechar. “É assim que as coisas se passam agora nas empresas…”.


A história da fábrica de calçado Jallatte é tristemente banal. Anualmente, centenas de empresas deslocalizam: 15 000 postos de trabalho esfumam-se desta forma, de acordo com o INSEE como na região de Gard, em que já nem têm conto as fábricas que colocaram a chave debaixo da porta ou reduziram  a produção. A fábrica de collants Well em le Vigan, a cerca de 30 km, os Pianos Pleyel em Ayes, a roupa interior Eminence em Aimargues… “Por causa das deslocalizações ou das reestruturações, estimam-se em 2.000 o número de empregos industriais perdidos em quatro anos, enquanto a região já detém o recorde nacional (12,3%,) pelo sua “taxa de desemprego”, disse Freddy Bauducco, secretário departamental da CGT. Aqui, definitivamente, a História claramente vacila. Já se sofreu o encerramento das fábricas das sedas no final do século XIX, seguindo-se depois o das minas de Alès, de La Grand-Combe, de Bessèges, que empregaram até cerca de 13.000 pessoas, e também da fábrica de botões na década de 60… “Nós vamos lentamente acabar sem nada, queixa-se Francis Chirat, antigo Presidente da Câmara Municipal de Saint-Hippolyte, vamos acabar por nos tornarmos uma vila de pensionistas, um dormitório da cidade de Nîmes e de Montpellier. Já aí há um Museu da Seda. Dentro de poucos anos, sem dúvida, haverá um  museu do calçado em vez da fábrica actual.” Para se ir até lá, é preciso ir pela antiga rua do Fort.. Em breve será rebaptizada rua Pierre-Jallatte…


Nathalie Funès, Jalatte : Chronique d’une délocalisation annoncée, Le Nouvel Observateur, 12.09.07

 

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