DIÁRIO DE BORDO, 29 de Fevereiro de 2012

 

Paul Krugman, Prémio Nobel da Economia em 2008, professor em Princeton, colunista no New York Times, veio até Lisboa anteontem receber um doutoramento honoris causa. A seguir pôs-se a dar uma entrevista que passou na televisão. Como muitas vezes acontece com as celebridades falou sobre várias, algumas das quais ele não deve conhecer muito bem. E uma delas é Portugal. Quem nos conhece? Nem nós…


Paul Krugman falou contra a austeridade e, simultaneamente, preconizou que os salários portugueses devem continuar baixos face aos salários alemães. Isto para facilitar as nossas exportações. O problema é que para as nossas exportações crescerem os salários dos alemães teriam de aumentar. E de não irem comprar a outro lado. É por isso que se chama a tipos como o Krugman gurus. Estes são uns tipos meio sábios, meio bruxos, no falar do dia a dia das pessoas vulgares.  Falham muitas previsões, mas depois têm um discurso e tanto para as justificar.


O senhor professor acha que o caso português é mais parecido com o irlandês do que com o grego. Mas vai avisando que Portugal não deve seguir as soluções irlandesas, que não estão a dar bons resultados. Fala é em aumentar as exportações. E lamenta que Portugal tenha aderido ao euro, mas agora não aconselha a saída  da zona euro, porque iria causar grandes complicações. Refere a pouca margem de manobra do governo português, semelhante, diz ele, à de um governador de um estado americano. Tudo muito complicado.


Paul Krugman é especialista em geografia económica e comércio internacional. Deve ter uma certa dificuldade em compreender o caso português, apesar de já ter trabalhado cá. A certa altura, refere o agravamento do défice português nos últimos anos em termos que denotam surpresa. Deve conhecer pouco do caso BPN, dos problemas da banca portuguesa em geral, ou da epopeia dos submarinos. Não tem a percepção de que aquilo a que chama austeridade cá no burgo consiste quase exclusivamente em cortar salários e pensões, e em despedir pessoal. O volume de dinheiro que é posto em off-shores, a fuga aos impostos, a economia subterrânea, as despesas sumptuárias que persistem em ser consideráveis, as parcerias público-privadas, as empresas públicas com endividamentos brutais, que cresceram de modo pouco transparente, a corrupção, o que realmente está por detrás das privatizações, e outros casos semelhantes, escapam-lhe. Sabe que existem, mas o mais provável é que não conheça o peso na vida económica. E sobre os disparates como o excesso de auto-estradas e os estádios de futebol, as opções erradas como a Plataforma Logística da Castanheira do Ribatejo, também chamada de Lisboa Norte, pouco saberá. Por isso a conversa sobre os salários. É o que ele conhece… Não lhe ocorre que o aumento de exportações tem de ser acompanhado de um crescimento interno, incluindo de um aumento da produção agrícola e afins, para melhor alimentar a população. Se a população não tiver um mínimo de condições de vida, a produção não poderá aumentar. O próprio Krugman reconhece o perigo da deflação. Não se apercebe que Portugal já lá chegou.


Os americanos ainda andam a celebrar a queda do muro de Berlim, e o desmantelamento da União Soviética. Mesmo os que se identificam como progressistas (que lá auto-intitulam-se de liberais, palavra que lá tem contornos diferentes do que deste lado do Atlântico) têm dificuldade em escapar a estas fórmulas, que são corolários da ideologia capitalista. Como tal não passam muito tempo a pensar no estrago que a Alemanha tem feito no resto da Europa, após que lhe terem sido perdoadas indemnizações de guerra, ter recebido um apoio enorme para a reunificação, etc. Vêm na Alemanha uma potencial rival, sim, mas também uma aliada para enfrentar a China, os BRIC, etc. E por isso também não insistem no desmantelamento da zona euro, que a prazo poderia constituir um rival de peso para os EUA.


Há frisar que Krugman, como muitos dos seus colegas economistas, se identifica como progressista. Mas que na realidade tem dificuldade em adoptar um esquema de pensamento diferente do clássico, o qual  preconiza uma reduzida intervenção do Estado da Economia, subordinação do trabalho ao capital, produtividade assente em baixos custos do primeiro, liberdade de circulação do segundo, propriedade privada de meios de produção, etc. E aceitação de ideias como a de que as crises são boas para se ganhar dinheiro. Não chega a opções que invertam esta situação.

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