Andando por aí (10) – por Margarida Ruivaco

A primeira vez que fui a Paris, foi pelos dias da Queda do Muro de Berlim. Sem que déssemos por isso… Atravessámos a cidade de carro em poucos minutos, parámos num “fast-food”, ( o meu primeiro, de toda a vida!), nos Campos Elísios e seguimos viagem para a Alemanha. No regresso, passados poucos dias, tentámos ver mais qualquer coisa, mas comemorações davam azo a estradas fechadas, polícias na rua, voltámos a descer os Campos Elísios e regressámos a Portugal.

 

A outra vez que fui a Paris, foi numa escapadela de fim de semana, frio, ventoso, chuvoso, mas nada que nos tivesse impedido de visitar o possível em duas noites e dois dias.

 

 

(Foto de Margarida Ruivaco)

 

Paris II

 

Quando se chega a Paris já de noite, pode estranhar-se a luz amarelada das ruas, espelhada em fachadas que mais parecem tabletes de chocolate branco. Contrasta com a fealdade das estações de metro, e com os subúrbios atravessados pela linha do comboio.

 

Gostei da cidade, do quarto de mansarda, das esplanadas do café da esquina, que nos são vendidos mascarados de romance. O ar limpo, asseado, discreto, o sossego e a tranquilidade no meio da grande cidade. Simpatia, ar sorridente.

 

Lojas de flores, de pão, de vinhos, as montras animadas, tudo parece convidar ao passeio, à estada, esquecer que existem outros países e locais menos cintilantes, onde moramos, e ficar para sempre por aqui.

 

Do outro lado da cidade, a vida nocturna, a mistura de gentes e as cores vibrantes, chocantes, atravessar as praças por entre os pintores, descer as escadas em direcção à agitação, fazem o coração bater e pensar que não é preciso conhecer qualquer outro local do mundo.

 

Até o céu se parece fundir com os telhados escuros e estar mesmo ali ao alcance da nossa mão e dos nossos sonhos.

 

Olhando mais de perto, porém, e sob os escrutínio de olho profissional, a cidade parece diferente. Os edifícios aparentam um luxo e qualidade que não têm, e atropelam as regras mais elementares que vigoram aqui em Portugal. Espaços reduzidos, materiais de aparência cara, que não valem o seu preço, regras de higiene e salubridade postas em causa em qualquer mesa ou balcão de cafetaria.

 

Como se Paris fosse apenas um enorme trompe-l’oeil, e que, a qualquer momento, nos possamos estatelar contra uma parede, que aparenta ser a mais bela das avenidas.

 

Que disfarçadas de variedade e diferença, as indiferenças andam por ali à solta.

 

Decidi que voltaria, sempre que pudesse, mas que nunca ficaria por muito tempo.

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