Um Café na Internet
Mas voltemos à exposição. Nela, pudemos ver muitas imagens dos cenários e dos espectáculos dos 20 anos de existência dos «Ballets Russes», assim como uma parte significativa dos figurinos.
Com Diaghilev há uma renovação da linguagem visual, o corpo humano, graças ao virtuosismo dos bailarinos, expressa emoções, naturalmente por influência de Fokine; conseguindo reunir o contributo de artistas como Picasso, Matisse, Braque, Goncharova, Larionov, renovando assim os figurinos e os cenários, assim como de músicos, como Ravel, Satie, Stravinsky, Prokofiev, Rimsky-Korsakov e outros, contando com uma selecção de virtuosos dançarinos, como já referimos, tais como Nijinsky, Pavlova, Karsavina, e ainda escritores como Jean Cocteau.
Juntar toda esta gente entre os colaboradores dos «Ballets Russes» já seria tarefa bastante para colocar Diaghilev como um dos grandes renovadores da dança, podendo mesmo dizer-se que a sua genialidade o leva a saber rodear-se dos melhores.
Serge Lifar e Alice Nikitina em «La Chatte», 1927
Há um outro aspecto da vida dos «Ballets Russes» que a exposição não nos deixa esquecer e que tem a ver com a relação amorosa de Diaghilev e de um dos seus grandes bailarinos, Nijinsky. Mas, numa digressão da companhia pela América do Sul, que a aristocrata húngara Romola de Pulszky acompanhou, o que Diaghilev não fez, Nijinsky acabou casado com ela, facto que o empresário não perdoaria, demitindo-o da companhia.
Mas a personagem principal desta nossa crónica é Diaghilev e os seus «Ballets Russes», não é Nijinsky, embora a sua vida, a sua arte superior e o seu drama bem o merecessem.
Na razão desta exposição em Madrid estará, com certeza, o facto de a companhia se ter refugiado em Espanha durante a I Guerra Mundial, embora tenha passado neste período seis meses na Suíça e feito uma primeira digressão pelos EUA. Terminada a guerra, volta a Londres , onde obtém grande sucesso em 1918 e 1919.
A ligação de Diaghilev e da sua companhia a Espanha acentua-se em 1920, retomando a digressão apresentando-se em Barcelona, com contributos de artistas espanhóis, tendo sido Josep Maria Sert o primeiro não russo a participar na concepção de um bailado de Diaghilev. Outros espanhóis se seguiram na concepção de figurinos e cenários para a companhia russa, como Joan Miró e Juan Gris, para além de Picasso, como já foi referido, e músicos como Manuel de Falla.
Para levar a cabo os seus ambiciosos espectáculos, Diaghilev encheu-se de dívidas, o que o obrigou a aceitar apresentar a companhia no Casino de Monte Carlo durante um tempo significativo; no entanto, a partir de 1925, os seus proveitos subiram significativamente com dois notáveis êxitos de dois espectáculos, os bailados «Romeu e Julieta», com música de Tchaikovsky (1925) e, em 1927, «Édipo Rei», com música de Stravinsky.
Traje para a mulher do bobo de «Chout», segundo desenho de Mikhail Larionov
Ao reproduzir o traje baseado num desenho de Mikhail Fyodorovich Larionov, não resistimos a falar um pouco dele, casado com Natalia Sergeyevna Goncharova, que conheceu em 1900, sendo também ela colaboradora de Diaghilev. Larionov tinha uma visão radical da arte. Começou por ser um pintor impressionista, seguindo-se uma fase pós-impressionista, após uma visita a Paris –sempre Paris se revelou fundamental para artistas e grandes nomes da política- a que se seguiu um estilo designado neo-primitivista, movimento artístico russo da pintura. Antes da sua primeira exposição individual, que aconteceu em Moscovo em 1911, participou numa exposição em Moscovo com pintores vanguardistas como Henri Matisse, Georges Braque, Van Gogh e Paul Gauguin, promovendo também uma outra exposição em que um dos artistas presentes era Marc Chagall, sendo a exposição deste pintor, actualmente no Museu Thyssen-Bornemisza e na Fundación Caja Madrid, o motivo principal da nossa deslocação a Madrid, do que falaremos numa próxima crónica, qinda sob o título «De regresso a Madrid».



