Novas Viagens na Minha Terra, Série II, Capítulo 75. Por Manuela Degerine.

Um Café na Internet

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Num Jardim da China: as mulheres

 

 

      Diante do Senhor, embora no exterior do edifício e num tapete poisado no chão, dançam duas bailarinas ao som da música tocada por três mulheres. Estas artistas remuneradas, exteriores à vida familiar, servem de transição entre o espaço masculino e o feminino.


     Quatro degraus acima delas, à esquerda do Senhor, provavelmente atrás dos homens da família, encontram-se algumas criadas e, do lado esquerdo, aproximam-se outras, transportando objetos rituais, bandejas com frutos, uma jarra com flores, pivetes de incenso… O movimento dos homens é da direita para a esquerda, pois penetram na casa, o das mulheres é da esquerda para a direita, pois saem do espaço feminino.


      No pátio seguinte descobrimos outra figura importante: a Primeira Esposa. Senta-se numa alta cadeira dourada, à frente de uma pintura mural porém, para chegar junto dela, cumpre subir dois degraus apenas. No espaço do Senhor, o tapete assinala a natureza do poder: intocável, inacessível, inviolável. Nada vemos de equivalente no espaço da Primeira Esposa. Ao lado dela encontra-se uma adolescente – filha, talvez – e, pouco mais adiante, uma criada.


       Neste pátio vemos duas mulheres sentadas. A Primeira Esposa recebe a visita de uma dama cujo estatuto é sublinhado, não apenas pelo vestuário e penteado, mas também por ter os pés atrofiados, uma mutilação com conotações sexuais, sociais e estéticas; é levada por um criado numa cadeira de rodas. Embora a visitante venha da direita e possa até chegar do exterior: não é um elemento ativo. De joelhos, com grandes movimentos de mangas, um rapaz faz-lhe uma vénia e, à direita, duas damas ricamente vestidas, talvez as outras esposas, preparam-se para lhe render homenagem, enquanto à esquerda mais duas senhoras, com estatuto menos importante, a julgar pelo trajo e posição, esperam a sua vez; quem possui legitimidade para primeiro saudar esta visitante é, mesmo dentro do espaço feminino: um homem.


      A Primeira Esposa e a Grande Dama distinguem-se ambas pelos toucados de ouro e, enquanto a maioria das figuras (mais de quarenta) participa na encenação do poder masculino, centrada no corpo do Senhor, aqui o centro das atenções nem sequer é a Primeira Esposa… Esta cena não passa de um complemento feminino da cerimónia oficial – que é masculina.


      Quatro mulheres assistem de uma varanda à chegada da Grande Dama, ainda que uma lhe vire costas, a segunda e a terceira não olhem e a quarta pareça apontar: atitudes de despeito por não participarem na cerimónia?


      Para além deste pátio, isto é, mais à esquerda e, portanto, mais para o interior da casa, nas traseiras deste conjunto de edifícios, vemos terraços e um passadiço à volta de um lago. Por ali andam figuras femininas com estatutos diversos, umas criadas, outras familiares, concubinas do Dono da Casa; estas olham ou conversam.


      Na parte visível da propriedade não se lava roupa, não se faz comida, não se varre o chão, não se pinta, nem lê, nem escreve… Para além das músicas e dançarinas, artistas com estatuto marginal, da Primeira Esposa e das senhoras que recebem uma visita, as mulheres da família nada fazem. E até as criadas parecem limitam-se a trajar roupa elegante e levar oblatas – do Senhor – aos deuses protetores. O fazer, base do poder, é masculino. As mulheres não têm estatuto por si mesmas: a beleza, as atitudes, o refinamento dos penteados, o comprimento das mangas de seda, os leques e varinhas com pompons, compõem um ambiente de luxo, contemplação e ociosidade que revela o poder do Dono da Casa num mundo ao qual elas não têm acesso: para além dos muros da propriedade. 

Leave a Reply