POEMAS SOBRE O ALENTEJO – Jorge de Sena

 

 

 

POEMAS SOBRE O ALENTEJO

 

Jorge de Sena

 

De relance, o Alentejo

Um céu abafadiço, um ar de ausência

esperando nuvens imóveis no céu baixo.

A terra, já das ceifas recolhida,

alonga-se manchada a flores tardias,

roxas, vermelhas, amarelas, brancas,

como penugem de esquecida Primavera.

Por entre os campos, os cordões rugosos

dos caminhos para toda a parte,

menos para os campos, que pacientemente evitam.

Na linha do horizonte próxima ou distante

conforme as ténues cristas da planura imensa,

um claror de céu, um tufo de arvoredo,

alternadamente se tocam e se afastam.

De súbito, num alto que a planície esconde,

as casas surgem brancas e compactas.

Como surgem, mergulham

na sombra poeirenta de azinhagas em ruínas.

Ainda se demora uma torre antiga,

escura, com ameias e janelas novas,

caiadas.

Um rio se adivinha. Mas, de ao pé da ponte,

de novo apenas o ondular da terra,

um crespo recordar só de searas idas.

(30/5/1950)

 

 

Desenho: Espiga Pinto

 

 

Amanhã – Almada Negreiros

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