Ventura Ledesma Abrantes (III) – por Carlos Luna

 

 

O professor Carlos Luna é um conhecido activista da causa de Olivença. Num texto que escreveu a propósito do cinquentenário da morte de Ventura Ledesma Abrantes, traz até nós a figura ímpar de um ilustre oliventino, de um grande português.

 

 

Ventura Ledesma Abrantes – um português de Olivença (III) – por Carlos Luna

 

(conclusão)

 

 

 

 

5) O escritor Ventura Ledesma Abrantes

 

Mas… Ventura Ledesma Abrantes foi principalmente um escritor.

 

A sua Bibliografia, extensíssima, é quase toda dedicada a Olivença. Lidava com facilidade surpreendente com a língua (portuguesa) materna, de uma forma quase apaixonada.

 

A lista dos seus livros, mais ou menos completa, porque há obras menores, é a seguinte: “Saudades da Terra das Oliveiras”(1932); “Olivença a Gloriosa”(1933); “De Olivença a Marvão”(1934; este livro valeu-lhe uma homenagem da Câmara Municipal de Marvão); “A Santa Casa da Misericórdia da Vila de Olivença”(1940); “A Não Esquecida”(1943); “A Noite do Menino nas Terras de D. João II “(1943); “A Defesa da Porta do Calvário da Vila de Olivença”(1944); “Olivença, a Sombra da Saudade”(1949); “Anais da Velha Vila de Olivença”(1951); “Crónica Histórica e Bibliográfica da Vila de Olivença”(1946); “O Património da Sereníssima Casa de Bragança em Olivença”(1954).

 

A última obra atrás referida de Ventura Ledesma Abrantes é, digamos assim, a sua grande “conclusão”… mesmo porque faleceu dois anos depois. Mas é mais porque se trata de uma gigantesca e completíssima monografia, com mais de 500 páginas, uma das melhores existentes em língua portuguesa, e que talvez não fosse má idéia reeditar.

 

É visível que Ventura Ledesma Abrantes compreendeu que o franquismo ia destruir mais profunda e radicalmente do que até então sucedera as raízes e a vivência lusitanas em Olivença, pelo que o seu livro descreve o maior número possível de aspectos, História, e características, mesmo as menos visíveis, da Cidade, para que não se pudesse negar uma realidade que talvez fosse deixar de existir.

 

6) O reconhecimento de uma obra

 

Ventura Ledesma Abrantes morreu mais ou menos ignorado.

 

O Estado Novo, no qual, devido ao seu nacionalismo, depositara decerto esperanças para a recuperação de Olivença para a soberania portuguesa, decerto o desiludiu. A sua obra, ainda que propalada, era-o discretamente, pois constituía um embaraço diplomático constante, tanto ou mais do que a sua actividade frenética de publicista, orador, homem de acção.

 

Ledesma Abrantes era um Romântico. Acreditava na “pureza” do povo, e, republicano, preferia cidadãos a súbditos. Tendia para correntes conservadoras, mas foi, acima de tudo, um inconformado. Acreditou na sinceridade das intenções de muita gente, e foi quase sempre iludido.

 

Postumamente, um anátema parece continuar a persegui-lo. O seu nome foi quase esquecido em Portugal e na cidade de Lisboa que ele tanto amou. Em Olivença, mesmo após a Restauração da Democracia em Espanha em 1975, o seu nome é pouco citado, e é-o ainda depreciativamente. No excelente Museu Municipal de Olivença estava exposto um painel de azulejos oriundo da sua casa no Estoril, desaparecido em 2003. Rezava assim:

 

Escuta

Nesta casa vive a ventura e a esperança

da História pátria! Não perturbes a sua paz!

 

Se és meu amigo – Deus te guie!

Se és português – Deus te guarde!

Se és alentejano – Deus te salve!

Mas se és de Olivença!

Entra, meu irmão – esta casa é sempre tua!

 

Aqui vive-se junto ao céu!

a alma alimenta-se da imponderável fé!

o coração sonha e adormece

olhando o mar…

É a saudade lusíada do passado!

É o culto da pátria, que só Deus mantém inalteravelmente!

É Portugal, aquecendo o peito ao fogo dos cânticos de Camões

é o pensamento místico da ama

é a fé do patrono Nun’Álvares!


Laus deos

Casal Oliventino

Olivença-Portugal

 

Só após uma luta de quatro anos o Homem a quem se devem mais conhecimentos sobre a Cultura Oliventina da Primeira Metade do Século XX, cultura inegavelmente portuguesa, e que foi uma figura de intelectual de inegável grandeza em Lisboa, viu o seu nome dado a uma artéria desta cidade, após votação unânime da Câmara Respectiva em 30 de Dezembro de 1997, próximo do Estádio de Alvalade, da Quinta do Lambert, e da Avenida Marechal Craveiro Lopes. Lisboa, que ele tanto amou, e a Cultura Portuguesa, deviam-lhe isso.

 

A verdade e a justiça prevaleceram sobre o preconceito.

 

  

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