Perante um executivo que vai emendando, sempre para pior, os lapsos que comete, não nos parece ser exercício para que estejamos vocacionados o de ir comentando as más notícias que a «sinceridade» do primeiro-ministro e de seus comparsas nos vão diariamente transmitindo. A questão do “plafonamento” das reformas, é um bom exemplo destas areias movediças em cima das quais Passos Coelho vai construindo um edifício cujo colapso ou implosão é inevitável.
Aproxima-se mais um 25 de Abril e vai comemorar-se o 38º aniversário de uma Revolução que não o foi.
«É costume dizer-se que o 25 de Abril ficou a meio, porque não estruturou a sua aliança com o campesinato ou não teve um projecto de luta pelo Poder» (…) o MFA nasceu somente para instaurar a democracia e realizar eleições livres» (…) somente queria criar condições para que todas as opções políticas tivessem acesso à palavra». Estas são palavras de Salgueiro Maia, proferidas dez anos depois da Revolução. Foi nesse mesmo aniversário que, em discurso na AR, o socialista Tito de Morais, afirmou que tal como a Medicina era tarefa para os médicos, a Política era assunto para os políticos. E logo por aqui se via como os militares do MFA, generosos e honestos, foram ingénuos.
Devolveram a Democracia ao povo. Competia-nos criá-la. Os militares do MFA demoliram o barracão podre e velho do Estado Novo. Como disse Josep Vidal, um argonauta de Barcelona. No terreno onde estava esse velho edifício, ficou um terreno baldio. As ratazanas que viviam e procriavam no barracão, espalharam-se com as suas ninhadas pelo terreno. Aí os temos, descendentes da velha União Nacional, que Marcelo Caetano transformou em Acção Nacional Popular, e «ala liberal» crismou como Partido Popular Democrático, desaguou neste Partido Social Democrático que hoje, de lapso em lapso, de degrau em degrau, nos leva de regresso a um futuro onde reina o espírito do passado.
O Partido Socialista, e não falamos só da clique que tomou o poder e rasgou os princípios enunciados em 1973, tem responsabilidades nesta situação. Abriu as portas a este conceito de democracia que retira todo o poder a quem, por definição, o devia ter. Aí temos em toda a sua grandeza e esplendor o resultado do que Tito de Morais defendia – os políticos exercendo a sua profissão…
A nosso ver, a política não é uma profissão. É um dever de cidadania. Se deixamos que a democracia, o «governo do povo», seja em nosso nome exercida por profissionais, não nos podemos queixar. Porém, entrando naquilo a que eles chamam «jogo democrático», digamos que em todas as profissões, há maus profissionais. Estes, tal como os anteriores, são péssimos.
Com justíssima causa, devemos despedi-los. Já!
Só há um pequeno problema – os patrões, não somos nós.

