Globalização e Desindustrialização-4ª Série

Selecção e tradução por Júlio Marques Mota. 

 

Capitulo III.  Alguns retratos mais sobre a globalização, sobre a desindustrialização

 

4. A concorrência nas energias renováveis, quando a China se apropria do Sol

 

PAR WILLY BODER BERNE

 

Os mercados americanos e europeus de painéis solares estão em crise. A China é acusada de ser a responsável. Os mercados americanos e europeu dos painéis solares estão em crise. A culpa é dos chineses? Os Estados Unidos estão a considerar a hipótese de aplicar medidas proteccionistas. A ideia de um certificado ecológico está lançada.


“Existe um enorme desequilíbrio entre a oferta e a procura de painéis fotovoltaicos”. Os preços arrasados, reduzidos de metade no ano passado, favoreceram a  indústria chinesa mais poderosa na produção em  massa.» Matthias Fawer, autor de um estudo recente do banco Sarasin sobre a indústria solar, analisa a situação com frieza e considera inevitável a consolidação do sector.

 

“O desequilíbrio devido ao excesso de produção, num contexto de redução das subvenções na compra da energia de origem solar por causa das dificuldades orçamentais de vários países europeus, levou a um círculo vicioso para muitas empresas na Europa e nos Estados Unidos. “Apenas 30 a 50% das linhas de produção estão a ser usadas” diz-nos  Matthias Fawer. Neste ambiente económico bem depressivo, apenas as empresas menos endividadas, ou as melhores subsidiadas pelo Estado, como a China é acusada de o estar a fazer, são susceptíveis de sobreviver.


Quem diz consolidação diz desaparecimento de dezenas de empresas dos EUA e da Europa assim como de milhares de postos de trabalho. A falência da Solyndra nos Estados Unidos e as graves dificuldades de tesouraria dos alemães Q-Cells representam apenas a ponta do iceberg. A Suíça, atingida pelo falhanço de Flexcell e pela brutal paragem da construção, no cantão de Berna, da maior fábrica de módulos fotovoltaicos do país, não é também ela poupada por essa inversão completa do mercado. A culpa? Muitas pessoas são aquelas que acusam China, que entretanto se tornou o país líder neste sector.


Inexistente nesta área há cinco anos, este país, que exporta 95% da sua produção de painéis solares, é agora omnipresente. Mais da metade das células fotovoltaicas instaladas na Europa são de origem chinesa. E se a primeira empresa neste campo, First Solar, é americana, ela está apertada por três empresas chinesas que por si só representam duas vezes e meia o seu volume de produção. De entre os dez maiores fabricantes de painéis solares, cinco são chineses e dois estão instalados em Taiwan.”


Arvind Shah, especialista no ramo fotovoltaico, professor honorário do Instituto de Microtecnologia de Neuchâtel-EPFL, considera que há uma forte distorção da concorrência. “As autoridades chinesas estarão maciçamente a subsidiar o preço da electricidade. Construir painéis solares com um preço da corrente equivalente a apenas alguns cêntimos do euro é uma forma de concorrência desleal com os fabricantes europeus e americanos. Para não mencionar a maciça ajuda directa chinesa aos fabricantes.” Este discurso verifica-se também a nível das autoridades americanas. Também está a começar a aparecer nalgumas regiões alemãs, irritadas de verem subsidiar indirectamente a instalação de painéis solares chineses enquanto as empresas locais, activas neste sector, vão à falência. Na semana passada, a administração americana do comércio internacional tem relatado que tem “fortes razões para crer que as empresas chinesas que exportam os módulos para nos Estados Unidos recebam subvenções maciças e verosimilmente ilegais da parte do governo chinês “.Esta conclusão poderia conduzir a uma guerra comercial entre os dois países e à aplicação a de  direitos aduaneiro especiais  pelos Estados Unidos. O patrão da Suntech, a empresa chinesa que emprega 22.000 pessoas e será sem dúvida o  número um ainda este ano, nega uma política de auxílios estatais maciços. “Os créditos  efectivamente recebidos do Estado são dez vezes menos do que os  7,3 milhões de que se fala .” “E as taxas de juro concedidas às vezes são superiores às taxas ocidentais”, disse numa entrevista publicada no Le Figaro.


Nicolas Musy, chefe do Centro Suíço em Xangai, não nega os auxílios estatais às áreas consideradas como prioritárias, mas admite que o sucesso chinês no solar é explicado por outros factores. «A totalidade dos custos de produção é menor e há também uma massa crítica importante que faz baixar o custo por unidade produzida.» Arvind Shah agarra o problema de outra maneira. Ele lançou nos meios científicos o projecto de etiqueta ecológica para minimizar o impacto da fabricação de painéis solares altamente consumidores de massa cinzenta. Para conseguir essa etiqueta, comparável a uma norma de qualidade ISO, os fabricantes chineses tiveram por exemplo que renunciar à utilização de electricidade produzida em centrais a carvão e geralmente alinhar com as normas da produção “verde”, respeitadas na Europa e nos Estados Unidos. A aquisição de corrente “verde” subvencionada pelos países europeus poderia então estar ligada à obtenção desta qualificação, desta etiqueta. “O meu medo, se nada for feito, é o medo de ver degradar-se a reputação da energia solar, nem  sempre verde pelo modo de produção dos painéis,” explica  Arvind Shah.


“Esta etiqueta é uma ideia interessante”, observa Matthias Fawer. Esta também não desagrada a Nicolas Musy, persuadido de “que a China poderia adaptar-se como o fez  para a norma CE da União Europeia.


Jornal Le Temps, 2012

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