É PRECISO LIBERTAR O 25 DE ABRIL

 

 

 

Chegámos fianlamente ao dia 25 de Abril de 1974 – a engrenagem da “Operação” está em marcha – mas falta ainda que a segunda senha seja lançada para que tudo se torne irreversível. Está prevista para ser emitida à meia-noite e vinte através da Rádio Renascença. Carlos Albino tomou todas as precauções para que não possa haver falhas. Minutos de tensão…

 

 

 

 

 

 

00h00 – De acordo com o combinado com o coordenador do MFA, o locutor João Paulo Dinis terminou o  programa nos Emissores Associados de Lisboa e foi para casa.

 

00h20 – Na Rádio Renascença, nos estúdios da Rua Capelo, junto ao Governo Civil, Paulo Coelho, ia metendo anúncios publicitários no programa Limite. Não sabe o que se passa, nem compreende os sinais que Manuel Tomás e Carlos Albino lhe fazem do outro lado do vidro para que saia do ar e continua com os spots publicitários. Foram 19 segundos de tensão e desespero. Até que, não aguentando mais, Manuel Tomás entrou na cabina e deu uma palmada na mão do técnico José Videira. E a bobina com a gravação de Grândola Vila Morena, de Zeca – a segunda senha escolhida pelo MFA –foi para o ar.

 

(ilustração de Adão Cruz)

 

 

 

 

 

 

 

 

c. 00h30 – Na EPAM, um grupo de capitães e subalternos deu voz de prisão ao alferes miliciano Pinto Bessa, oficial de dia, e ao oficial de prevenção, aspirante miliciano Leão. O capitão Gaspar assumiu provisoriamente as funções de oficial de serviço. – No Campo de Instrução Militar de Santa Margarida (CIMSM) começaram-se a encher carregadores das G-3. – Na EPA continuou-se a preparação final do golpe, onde o capitão Santos Silva assumira já o comando, secundado pelos tenentes Ruaz, Sales Grade e Sousa Brandão. – Na EPI, em Mafra, os capitães Rui Rodrigues, Aguda e Albuquerque mandaram formar a companhia de intervenção. O capitão Silvério pôs em marcha o plano de defesa do quartel. Os majores Aurélio Trindade e Cerqueira Rocha convidaram o coronel Jasmins de Freitas a aceitar o comando da unidade.

 

00h40

No Campo de Tiro da Serra da Carregueira (CTSC) os capitães Oliveira Pimentel e Frederico Morais iniciaram a preparação dos homens para atingir o objectivo que lhes estava fixado – ocupar a Emissora Nacional. Na EPC, em Santarém os oficiais do MFA procuraram obter a adesão ao Movimento do tenente coronel Henrique Sanches. Não o conseguindo, procederam à sua detenção.

 

Estamos, desde ontem, a recordar momentos significativos da Revolução de 25 de Abril. Vamos a partir de agora publicar testemunhos, opiniões, textos poéticos, de argonautas e de amigos do nosso blogue. O argonauta Pedro de Pezarat Correia, oficial general na reserva, é um homem de Abril. Abrimos com o seu texto a galeria de intervenções de tripulantes da nossa Argos. É preciso libertar o 25 de Abril da dinâmica governativa e da lógica estritamente eleitoralista em que os poderes o encarceraram. Restituir ao 25 de Abril a sua condição de movimento luminoso e libertador… Mas vamos ler com atenção o que Pedro de Pezarat Correia nos diz:

 

 

Estamos em época de comemoração do 25 de Abril. Do XXXVIII Aniversário de “todos nós”, porque em 25 de Abril de 1974 todos renascemos, mesmo aqueles que só depois viriam ao mundo mas que, quando chegaram à altura de estudar a História de Portugal, se apercebem que naquele dia renasceu um país para que eles pudessem vir a ter uma vida melhor, mais livre e mais digna. Os argonautas em viagem querem assinalar a data e, pela minha parte, não falto à chamada com este modesto contributo.

Mas… pois é, esta comemoração, como as que nos anos anteriores imediatamente a precederam, tem um frustrante e maiúsculo MAS!. É que se comemorar pode e deve ter um sentido festivo, quando se celebra uma efeméride positiva, quando se pretende recuperar um passado reconfortante, também pode ter um sentido nostálgico quando se evoca algo que passou e deixou um vazio.

Convém clarificar. Não penso que o 25 de Abril esteja morto, que seja apenas passado e memória a esfumar-se no tempo. O 25 de Abril está vivo porque vivos estão os muitos e muitos milhares de portugueses – e não só portugueses – que o guardam como marco insubstituível do seu ideal de vida. E porque vivos estão os valores que o tornaram uma referência, a LIBERDADE, a SOLIDARIEDADE, a JUSTIÇA SOCIAL, a PAZ.

 

Mas o 25 de Abril está cativo. Cativo de um projecto sem rosto, sem nome e sem fronteiras, que à sombra de políticas escoradas em dogmas tecnocráticos e neoliberais, o realismo, a eficácia, a auto-regulação, o mercado, a ausência de alternativa, está a tornar a sociedade global e as sociedades nacionais cada vez mais egoístas, mais injustas, mais desiguais, mais exclusivas, mais indignas, mais obscuras, mais violentas. Os imensos recursos tecnológicos, conquistas da humanidade ao longo do seu percurso histórico, ainda que teoricamente estejam colocados ao serviço de todos, estão na realidade a ser cada vez mais instrumentos do ofensivo enriquecimento de uns poucos e do humilhante empobrecimento dos muitos que são cada vez mais. O inevitável estatuto de dependência que daqui resulta é sinónimo de obstrução à solidariedade, de negação da justiça social, de limitação da liberdade, de ameaça à paz.

 

E é por isso que digo que o 25 de Abril está cativo. Cativo de um poder político arrogante para com o cidadão comum mas servil perante o poder económico e financeiro. Cativo de órgãos de soberania legitimados pelo processo de acesso ao poder mas funcionalmente ilegitimados por uma prática que desrespeita a separação dos poderes, com o legislativo e até o judicial, ao mais alto nível constitucional, controlados pelo executivo e em que até o poder arbitral do chefe de Estado, aliás da mesma área político-ideológica do executivo, está paralisado por erros próprios irremediáveis. Cativo de governantes medíocres que através de discursos erráticos e desrespeitadores da verdade abusam da boa fé dos eleitores. Cativos de uma dinâmica governativa cujo vector aponta sempre e rigidamente em sentido único, preservação dos interesses dos poderosos, redução dos direitos dos mais desprotegidos. Mas atenção, o 25 de Abril está cativo de todos nós, da passividade e da cumplicidade de todos nós, porque todos somos responsáveis pela abdicação de cidadania que abriu caminho e legitimou o poder actualmente instalado. Não tu, não eu enquanto cidadãos individuais, mas nós enquanto povo colectivo.

 

Ouve-se, com frequência, o lamento “não foi para isto que fizemos o 25 de Abril!”. Discordo.

 

O 25 de Abril, para além do projecto ousado que todos abraçámos e que a Constituição da República de 1976 consagrou, também foi feito para isto, para que os portugueses escolhessem o caminho do seu futuro e quem os deveria representar na gestão desse caminho. Se os portugueses erraram, se enganaram ou foram enganados, permitindo o enclausuramento da esperança do 25 de Abril, têm nas suas mãos as ferramentas para o libertarem deste cativeiro. Apesar de uma informação pública condicionada, da instabilidade do seu posto de trabalho, da chantagem financeira, da ameaça com a insegurança, os portugueses têm direito à indignação e podem correr com os vendilhões do templo.

 

Este desabafo é a minha comemoração do 25 de Abril. O eco que ele e o de muitos outros que se vão ouvir nestes dias tiverem na consciência dos nossos concidadãos, será a prova de vida do 25 de Abril.

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