À uma da manhã havia pelo país fora uma actividade febril – embora a maioria dos portugueses dormisse, os militares – os do MFA e os outros – estavam bem acordados. Ora vejam – Havia quem dormisse, quem não dormisse e até havia quem ainda não tivesse nascido… Mas continuemos a contar como foi – É uma hora do dia 25 de Abril de 1974:
01h00 – No BC 5 o major Fontão ordenou ao alferes Frazão que mantivesse pessoal de guarda à central telefónica. Mandou fechar os portões e neutralizar a central rádio. – No CIMSM o tenente Luís Pessoa reuniu os cabos milicianos e conseguiu a sua imediata adesão. – Na EPC o major Rui Costa Ferreira assumiu o comando.
01h30 – Na EPC Salgueiro Maia mandou acordar o pessoal e formar na parada. A adesão foi entusiástica. Salgueiro Maia iria comandar a força. – No CIAAC, em Cascais, um grupo de jovens oficiais foi impedido de entrar na unidade que, ao contrário do que se previa, não aderiu ao Movimento. Contactaram o Posto de Comando pedindo nova missão. – Na EPAM os soldados foram armados. – No RI 14 os capitães Gertrudes da Silva, Silveira Costeira, Aprígio Ramalho, Ferreira do Amaral e Augusto convocaram os oficiais subalternos aos quais expuseram a situação. – No Regimento de Cavalaria 3 (RC 3), em Estremoz, não se tornou fácil cumprir a missão de avançar para Lisboa com uma coluna de auto-metralhadoras, estacionando na zona da portagem da Ponte Salazar, aguardando ordens do Posto de Comando. O comandante, coronel Caldas Duarte, indeciso, pediu tempo para reflectir.
Tal como o coronel, Margarida Ruivaco também pediu tempo para reflectir quando lhe pedimos que escrevesse sobre o 25 de Abril.
Depois de reflectir, saiu-se com esta:
– Não sei, que não estava lá, e nem consigo imaginar muito bem…
Eu nasci quase um ano depois do dia 25 de Abril de 1974.
Nesse dia, os meus pais estavam na Guiné Bissau, onde o meu pai cumpria serviço militar, e onde a minha mãe passava os dias menos ocupados da sua vida, preenchendo o tempo livre a costurar vestidos da última moda para as mulheres de outros oficiais. Nesse dia, eles ainda não estavam grávidos.
Nasci no mês de Março do ano seguinte, em Portugal, porque a minha mãe foi recambiada, de avião, sem aviso prévio, em Outubro, com outras mulheres. O meu pai regressou, algumas semanas depois.
Durante anos, não fiz ideia do que era o “25 de Abril”.
Depois entrei para a Escola Primária, e continuei sem saber, excepto que era um dia bom, sem escola. Pouco tempo depois, passou a ser o aniversário de uma prima.
O que eu sabia de política, na altura, era que um político tinha morrido de avião, porque tínhamos acompanhado a televisão a preto e branco em casa dos avós maternos. E foi o que continuei a saber durante muito tempo. E que o meu tio tinha fugido da polícia numa manifestação de estudantes..
Na quarta classe, o livro de “Meio Físico e Social” fazia uma ligeira referência, com alguns nomes, e com um cravo vermelho.
O que eu sabia de política, na altura, era que o meu pai ia a reuniões da Junta de Freguesia à terça-feira à noite. E foi o que continuei a saber durante muito tempo. Depois, que ele colava cartazes para as eleições , e que o senhor que ele apoiava tinha sido agredido a poucos quilómetros de nossa casa. E que Portugal agora fazia Parte da CEE
A escola continuou, e passámos a ter História. Mas a História que me contaram nunca chegou mais perto do que a 1ª Guerra Mundial, apesar de ter começado na Pré História.
A uma vendedora de enciclopédias, foi adquirida uma colecção da história política contemporânea de Portugal, que fica bem no armário do escritório, mas que, aos 14 ou 15 anos, não me despertou a menor curiosidade. Por esses dias, caiu um muro, em Berlim, e isso sim, foi notícia. Depois do nono não ano, não voltei a ter história, na escola.
O que eu sabia de política, na altura, era que antes era tudo bem pior. Assim o diziam os meus pais, embora me parecesse que o meu avô não estava muito convencido. Que havia leis que não deixavam dar boleia na mota, e que sobre a matrícula das bicicletas, e que na fábrica não se podia dizer ou fazer, que o meu avô patrulhava o cinema, que alguns familiares liam livros que não deviam ( ???). E foi o que continuei a saber durante muito tempo.
Um dia fiz 18 anos e aproximaram-se as eleições europeias. Votei, feliz da vida, o mais à esquerda que consegui, tão à esquerda, que quase dava a volta e tocava a direita. O meu pai respirou fundo, e “democraticamente”, lá me tentou convencer da asneira. Abanou a cabeça, mas no meio do desacordo, lá deve ter pensado” antes assim, do que amorfa e desinteressada”.
Só recentemente me apercebi da importância do 25 de Abril, e do que isso representa no que somos.
Só quando passei a trabalhar, a ter responsabilidades e o um ordenado para gerir é que percebi o alcance da política e no que as decisões podem fazer de um povo. Só quando me passei as exprimir por escrito, mais além do que perguntas e respostas da escola, é que percebi porque o posso fazer.
Só recentemente fui procurar em livros e internet, quem foi quem e o que aconteceu, e que é “a esquerda” e “a direita”. Pelo que, só muito recentemente, e já depois dos 30 anos é que verdadeiramente entendi o que se passou.
Só há pouco tempo percebi que, dentro de mim, a política mexe, não há esquerda, não há direita, mas sim e apenas equilibrada nas minhas convicções e pensamentos, e que como tal, sem “lado “ onde me apoiar oficialmente, deve aguentar e fazê-la crescer, antes de sair cá para fora, sob pena de não ser ouvida, ou de ser apenas mais uma ovelha.
O que se diz, comummente, é que o 25 de Abril trouxe a liberdade. Discordo, porque a liberdade vem de dentro para fora , e não ao contrário. Trouxe, talvez, libertação, consciencialização.
E foi essa libertação que fez o povo manifestar-se, não pelo ordenado, não pela reforma, não pela manutenção de benesses ( e, por isso, vejo tão sem sentido as manifestações de hoje em dia!), mas sim pela explosão da liberdade contida.
Hoje, poder estar aqui sentada, a escrever o que penso, sendo mulher, mãe, empresária, e não ter medo de o ser ou de o fazer, pode não ser nada de estranho em muitos países do mundo, desde há muitos anos. Até àquele dia, em Portugal, seria a compra de uma ficha para jogar à roleta russa.

