por Rui Oliveira
Na Segunda-feira, 7 de Maio, deixaremos à escolha, conforme os gostos, entre iniciativas musicais e uma rememoração fílmica.
Os amadores da 7ª Arte (o Cinema, assim classificado no Manifesto de Ricciotto Canudo, 1912) poderão rever, no Ciclo Claude Chabrol, na sala do Institut Français de Portugal, às 19h com entrada livre, “La fille coupée en deux “(A rapariga cortada em dois) (França, Alemanha, 2006) com Ludivine Sagnier (Gabrielle), Benoît Magimel (Paul) e François Berléand (Charles), nos papéis principais, além de Caroline Sihol, Mathilda May, Marie Bunel, Valéria Cavalli, Etienne Chicot, Thomas Chabrol, Jean-Marie Winling, Didier Bénureau e Édouard Baer.
Sinopse: Gabrielle Deneige é a jovem apresentadora do boletim meteorológico de um canal de televisão. Gabrielle vive com a mãe, que trabalha na livraria onde a jovem acaba por conhecer o famoso escritor Charles Saint-Denis. Iniciam uma relação, apesar de Charles ser casado. Quando este desaparece, Gabrielle acaba por casar com o rico playboy Paul Gaudens, a quem conta o seu passado…
Deste filme, presente em Cannes e Toronto, dito “ (d)enso, grave, comovente: um dos mais belos filmes de Chabrol …(c)ineasta por vezes cortado em dois, entre seriedade e farsa, tragédia e grotesco, aqui ele consegue perfeitamente equilibrar as suas duas tendências (Serge Kaganski)” , mostramo-vos la bande-annonce :
Quanto aos entusiastas da 4ª Arte (a Música, como tal considerada na Estética de Hegel) têm por seu lado a oferta do Palácio Foz que, na sua Sala dos Espelhos, apresenta ao longo deste 7 de Maio dois recitais.
Um, às 18h, por iniciativa da Missão do Brasil junto da CPLP, será um Recital de flauta transversal e viola caipira onde intervirão João Silveira, flauta transversal e Ivan Vilela Pinto, viola caipira interpretando trechos de compositores tradicionais brasileiros.
Antecipando o som que se ouvirá, eis executantes consagrados da viola caipira Daniel Viola e José Henrique :
Outro, às 19h30, para contraste, será um Recital de Canto, Violoncelo e Piano designado “O Som Português” para que foram convidadas a actuar Margarida Marecos, soprano, Clélia Vital, violoncelo e Isa Antunes, piano com um programa a anunciar em breve.
Na Terça-feira, 8 de Maio, voltemo-nos para a 2ª arte, a Pintura, do Manifesto referido atrás (e terceira para Hegel, embora curiosamente sem musa atribuida na Antiguidade Clássica …) e visitemos exposições cujo encerramento se avizinha (!).
No Espaço Múltiplo Carpe Diem Arte e Pesquisa encontram-se até 12 de Maio expostos trabalhos de arte contemporânea de Pedro Calapez, Jeanine Cohen, Joana Bastos, José Carlos Teixeira, Márcio Vilela e Ricardo Jacinto.
Destacaríamos à cabeça o projecto “Gymnasium (diário íntimo)” de Pedro Calapez. O artista descreve-o deste modo : “Imaginei uma larga sala. Nela, os desenhos, que não me saíam da cabeça e se encontraram depois nas minhas mãos, descobrem o seu lugar: uns contra os outros, uns ao lado dos outros. Aí ocupam o espaço, revelando o refazer diário de pequenas histórias. Estes desenhos fazem assim surgir o local do exercício, o lugar dos movimentos e gestos, o estruturar do pensamento. O gymnasium, na antiga Grécia, existia para a prática dos jogos públicos mas também um lugar de produtiva convivência social…”
Ainda no campo essencialmente pictórico (já que os outros tem componentes de audio e video como elementos centrais da criação), chamaríamos a atenção para a instalação “Owners left!” de Jeanine Cohen (Bélgica), trabalho que consiste, sobretudo, em pinturas site-specific sobre paredes, estruturadas pela geometria, onde a artista joga com a abstracção e a superfície (neste caso o diálogo é com as salas do Palácio Pombal) que definem as soluções estéticas do seu trabalho, aqui utilizando materiais simples como madeira, fitas adesivas e cores que operam com a geometria dos espaços.
Pedro Calapez Jeanine Cohen
Bom apreço da crítica têm também tido a exposição na Galeria Cristina Guerra do artista angolano Yonamine chamada “Só China”, aberta até 9 de Maio. Diz C.M. (Actual 21/4/12) “o que torna este trabalho interessante é o modo como as diferentes escalas da realidade se articulam nele – o público e o privado, o individual e o global, o íntimo e o colectivo – e como deixa claro que as próprias diferenças e distâncias culturais e geográficas são noções em estado de solvência na corrente de informação desierarquizada que nos liga ao mundo .. .”
E por último relevaríamos a exposição de Tiago Baptista na Galeria 3 + 1 que denominou “O que fazer com isto” e que encerrará a 19 de Maio. Diz outro crítico J.L.P. (Actual 21/4/12) que “Tiago Baptista pinta as imagens e a sua destruição, numa cena que tem tanto de iniciática como de inquietante. E a mesma inquietação lá está em todas as outras pinturas, onde a clareza do desenho das figuras se alia à opressão do chão, de barro ou de lama, … e é o sentido possível desse caminho, entre o barro e o barro, que (T.B.) procura a partir da caverna que a sua pintura alegoricamente é.”
Yonamine Tiago Baptista
Na Quarta-feira, 9 de Maio, aproveitemos para salientar alguns dos espectáculos notáveis da 12ª edição do Festival Internacional de Marionetas e Formas Animadas – FIMFA Lx 2012 que está a decorrer desde 4 a 20 de Maio não só em Lisboa, como dissémos no Pentacórdio anterior.
Aqui destacaríamos na Sala de Ensaio do Centro Cultural de Belém, às 11h, a peça “Smart as a Donkey – Esperto como um burro” da companhia de teatro holandesa TAMTAM Objektentheater, onde a ideia, história e actores-manipuladores são de Gérard Schiphorst (também autor da cenografia, vídeo e música) e Marije van der Sande.
Sendo a terceira colaboração da companhia com o escritor, poeta e pintor Wim Hofman, é um espectáculo sem palavras em que o teatro de objectos revela a história comovente de uma personagem muito especial, um burro que procura instruções para a vida. Quando fazemos alguma coisa mal feita ou nos enganamos, há sempre alguém que nos diz: “és estúpido como um burro!” Mas os burros não são estúpidos, apenas têm de descobrir como as coisas funcionam… porque crescer não é fácil…
O vídeo narra bem o curso da sua descoberta :
Outro espectáculo dessa Quarta 9 de Maio decorre no Museu da Marioneta (Convento das Bernardas – Rua da Esperança, n° 146), ás 21h30, onde a artista, também cantora e performer israelita Yael Rasooly exibe “Paper Cut” com interpretação sua, de textos seus com Lior Leman, a quem coube a cenografia com Yaara Nirel.
Inspirado no cinema americano e nas estrelas de Hollywood dos anos 40, este espectáculo a solo de Yael revela a obsessão e os perigos das fantasias românticas. A linguagem do cinema a preto e branco é transformada no universo “low-tech” do papel recortado e do teatro de objectos, criando uma tensão surreal, cheia de humor e suspense.
História: Uma secretária solitária fica só no escritório e tenta escapar ao seu aborrecido dia-a-dia, trazendo à vida fotografias a preto e branco de velhas revistas de cinema. Perde-se no mundo dos sonhos, onde é uma glamorosa estrela de cinema que ficará com o seu amor verdadeiro no final do filme … mas o seu conto de fadas romântico transforma-se num pesadelo hitchcockiano ! Como explicita o vídeo :
Na Quinta-feira, 10 de Maio, o destino mais interessante julgamos ser o CCB pela variedade da sua oferta. Não só se prolongam (até Domingo) as proezas das marionetas do TamTam (ver acima), como nos dois auditórios há “manjar” para gostos muito diversos.
No Pequeno Auditório (Sala Eduardo Prado Coelho), às 21h, a jovem pianista de origem russa Anna Vinnitskaya apresenta-se pela primeira vez em Portugal. Vencedora do Concurso Internacional Reine Elisabeth em 2007, entre outros, e colaboradora de diversos maestros com destaque para Vladimir Fedoseyev, Emmanuel Krivine, Kyrill Petrenko, Gilbert Varga, Dimitri Jurowski, Paul Goodwin e Pietari Inkinen, vem descrita como “ impressionante pelo vigor e facilidade técnica com que aborda obras imponentes do repertório”.
Apresenta-se com um programa de que constam :
Maurice Ravel Sonatine para piano, em Fá sustenido menor, Sergei Prokofiev Sonata para piano n.º 2, em Ré menor, op. 14, Alexander Scriabin Prelúdios, op. 16 e Sonata para piano n.º 2, em Sol sustenido menor, op. 19, “Fantaisie” e Maurice Ravel Gaspard de la nuit (Ondine, Le gibet, Scarbo).
É numa destas últimas peças Ondine de Maurice Ravel que a podemos ouvir em :
Os menos amadores da música dita “clássica”, optando mais pela world music tem ao lado, no Grande Auditório do Centro Cultural de Belém, às 21h, uma sua insigne representante, a cantora peruana Susana Baca que vem apresentar “Afrodiaspora”, o seu mais recente álbum.
Nele a ex-ministra da Cultura do Peru e actual presidente da Comissão de Cultura dos Estados Americanos olha para a influência de outras músicas e outros mundos na música peruana, desde as cumbias colombianas, os tangos argentinos, ao bolero e à valsa mexicana ; presta também homenagem a ícones já desaparecidos da world music (como a mexicana Amparo Ochoa ou a cubana Celia Cruz) e demonstra, mais uma vez, a sua atenção à poesia lírica, rodeando-se de compositores notáveis e incontornáveis como Javier Ruibal de Cádiz, Iván Benavides, Javier Lazo e Victor Merino.
Actuará acompanhada de Ernesto Hermoza guitarras, charango, Oscar Huaranga contrabaixo, Hugo Bravo percussão e Maria Elena Pacheco violino, entoando canções como esta Maria Landó :
Na Sexta-feira, 11 de Maio, far-se-á alguma história musical no jazz em Portugal quando no Grande Auditório da Culturgest, às 21h30, for gravado ao vivo este concerto “Aurora” que reunirá Sara Serpa e Ran Blake.
Ran Blake, uma personalidade singular e sonoridade única, combinando elementos dos grandes compositores da história do jazz, da tradição dos blues e do gospel e de temas dos clássicos Film Noir, tem um legado musical que inclui mais de 30 discos gravados, dos quais se destacam colaborações com artistas como Jeanne Lee, Anthony Braxton, Jaki Byard, Steve Lacy, Houston Person, Enrico Rava, Clifford Jordan, Ricky Ford.
A vocalista e compositora Sara Serpa é “a voz mágica” de acordo com o pianista Ran Blake, que tem uma longa experiência a trabalhar com vocalistas. A sua voz sem vibrato e artifícios tem sido descrita como “límpida como cristal” e a sua capacidade para cantar melodias vocais complexas, em pé de igualdade com instrumentalistas, destaca-a como uma das cantoras mais criativas dos últimos anos, elogiada mesmo pela “All About Jazz” como “a cantora mais inovadora do momento”, com actuações no prestigiado Village Vanguard.
Do álbum “Camera Obscura” que ambos gravaram e em que reinterpretam standards do cancioneiro americano retira-se este vídeo que fará antever a qualidade do concerto :
No Sábado, 12 de Maio, algum repouso nostálgico deverá levar muitos a deslocarem-se ao Coliseu dos Recreios, às 21h30, onde “Maria Bethânia interpreta Chico Buarque”.
Desconhecem-se os pormenores do concerto mas, como diz Vanessa da Matta “é o encontro do dono da canção com a dona da voz” e, tendo em conta a forma muito própria como Bethânia se apropriou de canções de Vinicius de Moraes, Roberto Carlos, Caetano Veloso e do próprio Buarque, são esperadas abordagens porventura surpreendentes.
Assim cantava em Lisboa Maria Bethânia Olhos nos Olhos, canção que Chico Buarque compôs para ela em 1976 :
Como essa dádiva foi feita, contam-no Bethânia e Chico aqui.
No Domingo, 13 de Maio, hesitamos sobre o alvitre a dar e deixaremos pois a escolha aos leitores que terão na Gulbenkian um concerto clássico, mas no CCB uma homenagem singular ao barroco português.
No Grande Auditório da Fundação Calouste Gulbenkian, às 19h, a Deutsche Kammerphilharmonie de Bremen dirigida pelo maestro Trevor Pinnock tocará um programa que foi entretanto alterado dada a ausência da pianista Maria João Pires. Em sua substituição comparecerá a jovem pianista georgiana Khatia Buniatishvili que traz como repertório o Concerto para Piano e Orquestra nº 1 de Ludwig van Beethoven.
A Orquestra executará de Franz Schubert a Sinfonia nº 5, em Si bemol Maior, D. 485 mas desconhece-se se duas outras peças do programa original (Carl Philipp Emanuel Bach Sinfonia nº 4, em Sol maior, Wq 183/4 e Joseph Haydn Abertura da ópera Armida, em Si maior, Hob.XXVIII:12) se mantêm.
Para tomar conhecimento com a nóvel intérprete, eis como Khatia Buniatishvili executa um tema de Chopin :
Entretanto no Pequeno Auditório do Centro Cultural de Belém, às 17h, o espectáculo A Pedra Irregular e o nascimento do Barroco em Portugal permite ao ensemble associado do CCB Sete Lágrimas com voz e direcção artística de Filipe Faria e Sérgio Peixoto concluir o seu projecto Tríptico da Terra com este terceiro concerto.
Diz o programa que, se como conceito o termo “barroco” pretende opor certas qualidades – o primado da cor, da profundidade, da claridade relativa – às qualidades do Renascimento, o facto é que a palavra “barroco” na sua origem portuguesa serviu primeiro somente para referir pedras toscas e irregulares. Neste concerto, uma das principais vozes especializadas no repertório barroco, a soprano argentina de oridem dinamarquesa Maria Cristina Kiehr, interpreta um programa composto exclusivamente por compositores portugueses :
Francisco António de Almeida (1702-1755?)
O quam suavis
Carlos Seixas (1704-1742)
Sonata para órgão, em Lá menor, K. 75/A. 20.2
Francisco António de Almeida
Si quæris miracula (Responsorio a 4 concertato per la Festa de St.º Antonio)
Carlos Seixas
Sonata para órgão, em Lá menor, K. 76/A. 20.3
Sonata para órgão, em Lá menor, K. 76/A. 20.3 (adapt. Sete Lágrimas)
Francisco António de Almeida
Justus ut palma florebit (Motetto a 4 concertato in commune unius martyres)
António Teixeira
Sacram beati Vicentii (Responsorium I in festo S. Vicentii)
Francisco António de Almeida
Lamentatio prima in Sabbato Sancto a 4 concertata
Carlos Seixas
Sonata para órgão, em Sol maior, K. 48/A. 15.1
Sicut cedrus exaltata sum (Responsorium II in festo assumptionis B.M.V.)
Sonata para órgão, em Lá menor, K. XXI/A. 20.6
António Teixeira (1707-1774)
Tanta grassabatur crudelitas (Responsorium II in festo S. Vicentii)
Carlos Seixas
Hodie nobis cælorum Rex (Responsório a 5 para o Natal)
Eis o som do Ensemble Sete Lágrimas :











