Capitulo IV. 1. Bens e serviços negociáveis e não negociáveis no quadro da economia global: o caso da economia americana. Por Michael Spence e Sandile Hlatshwayo – II
(Continuação)
Introdução
No ambiente pós-crise, as questões de sustentabilidade na trajectória da economia americana começaram a ser levantadas. Entre os problemas que eram sublinhados estava um grande défice na conta corrente, estava a escassez de poupança interna, estava o excesso de alavancagem e de endividamento no sectores financeiros e nas famílias, e estava igualmente a estagnação dos rendimentos ao nível da classe média. No entanto, o que nessa análise estava claramente a faltar era uma análise detalhada quanto às mudanças estruturais na economia sobre o longo prazo e era uma análise sobre a maneira pela qual o crescimento económico das economias emergentes está a afectar a estrutura de emprego na indústria e a do valor acrescentado por trabalhador na economia americana. O presente trabalho tenta preencher essa lacuna, oferecendo um novo olhar sobre a evolução da estrutura económica dos EUA ao longo dos últimos vinte anos e tenta explorar as implicações de tais mudanças.
A economia americana não existe num sistema de vacuum; a evolução de algumas das suas mais marcantes características está ligada à evolução das características de longo prazo dos países em desenvolvimento e sobretudo está ligada à evolução das economias emergentes em especial às mais importantes delas.
A primeira secção do presente trabalho descreve a evolução da estrutura da economia global e oferece uma perspectiva de como as economias emergentes aumentaram a sua influência sobre a economia americana desde os anos 50.
A próxima secção descreve as características da economia vista esta em dois grandes agregados da sua estrutura produtiva, um agregado, uma parte, a do conjunto dos bens e serviços negociáveis internacionalmente e como segunda parte, como segundo agregado, o conjunto dos bens e serviços não negociáveis internacionalmente. A partir desta divisão pretende-se olhar para as tendências do emprego, do valor acrescentado, do valor acrescentado por trabalhador nas indústrias de cada um destes dois grandes agregados em que se dividiu a economia… O artigo conclui com uma análise dos desafios estruturais e sobre as questões sobre o emprego e tenta de forma diria preliminar fazer uma exploração sobre possíveis respostas políticas.
O corpo principal do trabalho é a análise detalhada e que se quer intensiva a partir dos dados da economia americana sobre as mudanças no emprego e no valor acrescentado das diferentes indústrias dos EUA. Os leitores interessados basicamente sobre as principais tendências e sobre as suas conclusões poderão ler o sumário executivo e a evolução da estrutura da economia global, e em seguida as últimas quatro secções, a partir da página XXXXX, onde se discute as respostas politicas que podem ajudar a mudar a actual trajectória
Na mudança da estrutura da economia global
Desde o final da Segunda Guerra Mundial, com a economia global tem-se vindo, por lado, a aumentar o peso do comércio externo face à sua produção interna, o PIB, e por outro lado, a aumentar a sua abertura financeira, o que foi possibilitado em parte pelo Fundo Monetário Internacional (FMI), pelo Banco Mundial e pelo Acordo Geral de Tarifas e Comércio (GATT), este último transformado agora em Organização Mundial do Comércio (OMC). Em paralelo, o colonialismo, com os seus inerentes constrangimentos sobre o desenvolvimento económico e as suas assimetrias internas, falhou. Apesar de duzentos anos atrás dos países desenvolvidos, cuja aceleração em termos de crescimento se iniciou no século dezoito com a revolução industrial inglesa, os países em desenvolvimento em todo o mundo iniciaram um processo secular de modernização. Hoje estamos já percorremos um pouco mais de metade do caminho, ao longo deste século.
Como as barreiras formais ao comércio e aos fluxos de capital diminuíram, houve uma série de outras tendências a acelerarem o crescimento assim como as mudanças estruturais nas economias em desenvolvimento. Nisto incluíam-se as inovações tecnológicas nos transportes e nas comunicações, a inovação na gestão em empresas multinacionais, os processos de aprendizagem sobre como fazer negócios em vários e diversificados ambientes, e a integração de cadeias produtivas multinacionais.
Graças às tecnologia da informação, muitos dos serviços que anteriormente não eram negociáveis internacionalmente como por exemplo as actividades que vão desde os serviços de radiologia até às contabilidades e à manutenção das tecnologias da informação passaram a serem actividades cujas produções se tornaram agora bens e serviços negociáveis internacionalmente.
As grandes economias emergentes, com diferentes pontos de partida (e muitas falsas partidas), têm mantido altas taxas de crescimento, muitas vezes superior a 7 por cento ao ano. Depois de várias décadas de crescimento em alta velocidade, essas economias tornaram-se mais ricas e economicamente maiores. Um ingrediente essencial é que neste crescimento haja mudanças estruturais. Com o aumento da sua dimensão, as transformações das estruturas dos mercados emergentes tenham cada vez mais e maiores impactos sobre as estruturas das economias dos países avançados. Uma economia emergente em crescimento desloca-se na sua cadeia produtiva para produtos de mais elevado valor acrescentado nas cadeias internacionais de produção, tal como o capital físico, o capital humano e o capital institucional aprofunda as economias emergentes levando-as a competir com as economias desenvolvidas.
No inicio do período pós-guerra, com as sucessivas rondas de negociações do GATT removeram-se restrições às exportações da produtos manufacturados , os países em desenvolvimento, cujas exportações consistiam até principalmente de recursos naturais e produtos agrícolas, desenvolveram uma base industrial em produtos da indústria transformadora intensivos em mão-de-obra e de baixo valor acrescentado . Nesta sua base industrial a indústrias têxtil e a do vestuário eram dominantes. Outras indústrias foram sendo sucessivamente acrescentadas à medida que se progredia no tempo. A lista é quase que interminável: malas de viagem, louças, coudelarias, brinquedos, produtos pessoais, e assim sucessivamente.
Mas não eram apenas produtos acabados que estavam a ser adicionados às carteiras de activos das economias emergentes. As partes das cadeias internacionais de produção fortemente utilizadoras em trabalho não especializado também se estavam a deslocar para as economias emergentes tanto quanto as empresas multinacionais aprenderam a integrar de forma eficiente operações de produção geograficamente dispersas. No sector de produtos electroeletrónicos, o processo de montagem fortemente intensivo em trabalho não especializado é, diríamos, um produto quase que naturalmente adaptado aos países de baixos rendimentos. Semicondutores, placas de circuitos impressos e outros componentes são projectados e fabricados em lugares diferentes, ou seja, em países de médio e altos rendimentos tais como a Coreia do Sul e Japão. A concepção e elaboração dos produtos das grandes marcas, o marketing, e investigação tendem a ser feitas nos países ricos. Cada componente da cadeia internacional produtiva tem sempre a sua mais eficiente localização de modo a reduzir ao máximo o custo do produto final.
A forma que assume a cadeia global de produção está constantemente em mudança. Países entram e integram-se na economia global em momentos do tempo diferentes e expandem-se também a taxas diferentes. As economias que anteriormente apresentavam altas taxas de crescimento, as economias do Japão, da Coreia do Sul e Taiwan – inicialmente eram países exportadores de produtos intensivos em trabalho e foram-se gradualmente movendo e subindo na cadeia de produção global e então foram-se deslocando para produtos mais intensivos em capital como automóveis e motocicletas e depois para actividades intensivas em capital humano, como o design e o desenvolvimento tecnológico. As actividades intensivas em trabalho, foram as actividades que estes primeiros mercados de alto crescimento deixaram partir quando os seus custos do trabalho aumentaram e estas indústrias deslocalizaram-se então para os países mais recentemente chegados à economia global e estes são predominantemente os países asiáticos, como a China e o Vietname…
A transformação da estrutura global não é estática, nem cíclica, nem auto reversível. Esta é bem melhor descrita como sendo um dia que só pode ser vivido nesse mesmo dia.. Os países que chegaram tardiamente à industrialização tendem a seguir a mesma trajectória que aqueles que os antecederam.
(Continua)
