O GARDEN- PARTY, de KATHERINE MANSFIELD – III. Tradução de João Machado.

Um Café na Internet

Katherine_Mansfield

(Continuação)

Tinha que ser. Os homens já tinham posto ao ombro as aduelas e encaminhavam-se para o lugar em questão. Apenas o fulano alto ficava para trás. Baixou-se, apanhou um rebento de alfazema, levou o polegar e o indicador ao nariz e aspirou o cheiro. Ao ver este gesto Laura esqueceu tudo a respeito das karakas, estupefacta por ele dar atenção a coisas como o cheiro da alfazema. Quantos homens conhecia ela que fariam uma coisa assim? Pensou que os trabalhadores eram muito simpáticos. Porque não poderia ela ter trabalhadores como amigos em vez dos rapazes parvos com quem dançava e que vinham cear ao domingo? Dar-se-ia muito melhor com homens como estes.

 

Isto é tudo, concluiu ela, enquanto o fulano alto desenhava nas costas de um envelope uma coisa que tinha de ser envolvida ou pendurada, por causa destas absurdas distinções de classe. Bem, por parte dela, não as levava em conta. Nem um bocadinho, nem um átomo… E agora começava o pam – pam dos martelos de madeira. Alguém assobiou, outro gritou  ― Estás aí, rapaz? ― . ― Rapaz! ― O afecto com que era dito … Para provar como estava contente, para mostrar ao fulano alto como se sentia á vontade, e como desprezava convenções estúpidas, a Laura deu uma grande dentada no seu pão com manteiga enquanto olhava para o pequeno desenho. Sentia-se uma trabalhadora.

 

― Laura, oh Laura, por onde andas? Vem ao telefone, Laura!

 

― Lá vou! Deslizou pela relva fora, até ao caminho, subiu os degraus, atravessou a varanda e entrou em casa. No átrio o pai e Laurie escovavam os chapéus para irem para o escritório.

 

― Ouve, Laura ― disse Laurie rapidamente, ―podias dar  uma vista de olhos ao meu fato antes de logo à tarde? Para ver se precisa de ser passado a ferro.

 

― Eu vejo ― respondeu ela. De repente, não se conseguiu conter. Correu atrás de Laurie e agarrou-lhe o braço.

 

― Gosto muito de parties, e tu? ― sussurrou.

 

― Bastante ― disse Laurie com a sua voz quente e juvenil, e agarrou também no braço da irmã, empurrando-a suavemente. ― Olha o telefone, miúda.

 

Claro, o telefone. ― Sim, sim. Olá. É a Kitty? Bom dia, querida. Vens almoçar? Vens, pois. Fico muito contente, é verdade. Vai ser tudo improvisado, uns restos de sanduíches e de merengue, tudo sobras. Olha que linda manhã que está! Vens com o branco? Era o que eu faria também. Espera só um momento, não desligues. A mãe está a chamar. ― e a Laura chegou-se para trás e endireitou-se ― O que é, mãe? Não oiço.

 

A voz da senhora Sheridan ecoou na escada. ― Diz-lhe que traga aquele lindo chapéu que ela tinha domingo passado.

― A mãe diz para trazeres aquele lindo chapéu que tinhas no domingo passado. Está bem. À uma hora. Até logo. 

(Continua)

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