EM COMBATE – 53 – por José Brandão

 

A Zona de Intervenção (ZI) abrangia uma área aproximada de 30.000 Km2, com uma grande extensão de fronteira com a República Democrática do Congo (RDC). No  Camaxilo, além da nossa unidade militar, existia o Aeródromo de Manobra nº 42 (AM.42) da Força Aérea Portuguesa, com um pequeno grupo de militares especialistas, sob o comando de um Alferes. Semanalmente, invariavelmente ás quartas-feiras aterrava um avião da FAP (DO.27 ou PV-2) trazendo-nos correio, e géneros frescos (carne e peixe) transportados em caixas isotérmicas. Para que conste, na maior parte das vezes, os ditos «géneros frescos» eram de imediato incinerados e elaborado autos de abate e destruição. Na Sede da Companhia e nos respectivos Destacamentos, sempre que fosse necessário, o pessoal socorria-se com o abate de algumas espécies da fauna local (cabras de mato e palancas) para melhoria do rancho geral.

 

Em Março de 1968, integraram o quadro orgânico da Companhia, preenchendo vagas em aberto, o 1º Sargento de Cavalaria João Pereira, o 2º Sargento de Cavalaria José Canhão Grenho e o Furriel Miliciano Manuel Carrapichano de Oliveira que foi ocupar a falta existente no 4º Grupo de Combate (GC).

No mês de Abril de 1968, efectivou-se a substituição do capitão Miliciano Médico Duarte Henrique Marques pelo Alferes Miliciano Médico Jorge Henrique Simões Abrantes Frazão de Aguiar.

Ainda neste mesmo mês, o comandante da Companhia, capitão Miliciano de Artilharia Narciso Júlio Loureiro de Sousa foi exonerado do comando da unidade pelo comandante do Batalhão de Caçadores 1892 tenente-coronel de Infantaria Segismundo da Conceição Revés.

 

Interinamente, assumiu o comando da unidade, o Alferes Miliciano de Cavalaria Hernâni Duarte da Silva Rodrigues, por impedimento médico do então nomeado capitão Rui Fernando Leal Marques. Também, ocorreu a exoneração do Furriel Miliciano do SAM Arlindo da Silva Miguel.

 

Durante o período compreendido entre os meses de Março e Abril, a Companhia preocupou-se em reconhecer a sua zona de intervenção, patrulhando intensamente a área, quer em viaturas, quer apeada com uma secção ou um grupo de combate, percorrendo picadas e controlando a região junto à fronteira com a República Democrática do Congo. O terreno, uma região planáltica, não apresentava de uma maneira geral grandes relevos, excepção feita à zona do Zôvo (Mabetes) que era recortada por inúmeros braços de rio, alguns de forte caudal, correndo de Sul para Norte. Os meios de comunicação eram péssimos, devidos ao mau estado das picadas, da natureza arenosa e a existência de inúmeros pântanos. Abundantes pontes, feitas com troncos de árvores em péssimo estado de conservação, cuja passagem era sempre arriscada. Na zona do destacamento do Cuílo, era necessário atravessar o rio numa jangada composta por várias canoas ou pirogas indígenas interligadas entre si, sustentando um pranchamento onde embarcavam as viaturas e o respectivo pessoal. A vegetação de uma maneira geral era aberta, excepção feita à zona do Zôvo e num determinado local da picada Camaxilo/Cuílo onde a mata era muito alta e fechada.

 

Em Maio de 1968, a Companhia continuou a preocupar-se com o reordenamento das populações civis, agrupando-as em grandes aldeamentos (sanzalas), tornando mais acessível o seu controle pelas nossas tropas (NT), facilitando às populações o acesso às lavras de mandioca e ao abastecimento de lenha e água, e principalmente à sua auto defesa.

 

No dia 13 de Maio de 1968, apesar das constantes patrulhas efectuadas pelas nossas tropas (NT), um grupo do Exército de Libertação Nacional de Angola (ELNA) entrou em (TN) Território Nacional na zona de Caúngula e atacou uma viatura civil (Land-Rover) matando dois civis (um branco e um negro) no itinerário Caúngula/Camaxilo, tendo a nossa companhia reagido prontamente, embrenhando-se na mata e controlando os itinerários principais, capturou diverso material subversivo e munições, conseguindo o inimigo (IN) atravessar a fronteira para a República Democrática do Congo e alojar-se no quartel fronteiriço de Shauianga.
No mês de Junho de 1968, a unidade preocupou-se em recuperar elementos da população civil que tinham fugido para a República Democrática do Congo (RDC) por aliciamento da UPA (União dos Povos de Angola), ajudando-os na reconstrução dos aldeamentos e na acção psico-social. Esse procedimento, obrigou as nossas tropas (NT) a um constante vai e vem nas zonas afectadas.

 

 

 

 

Contudo, um grupo do inimigo (IN) sob o comando de «Noé» (guerrilheiro da UPA) voltou a atacar (na zona da primeira emboscada), uma viatura da PIDE/DGS, tendo ferido ligeiramente um dos elementos «Flechas», utilizando no ataque lança granadas foguete, espingardas automáticas e granadas. As nossas tropas (NT) reagiram prontamente, tendo interceptado parte do grupo inimigo (IN) capturando diverso material subversivo e ferindo gravemente um dos comandantes do inimigo (IN). Outra parte do grupo inimigo conseguiu fugir para a República Democrática do Congo, tendo raptado a população do Muazanza e destruído os seus haveres.

 

Em Julho de 1968, a Companhia redobrou a sua acção operacional, tendo novamente o grupo do «Noé» sublevado a sanzala Funda (perto do Zôvo) ameaçando e obrigando a população a fugir para a República Democrática do Congo, tendo levado guias com a mesma finalidade para a sanzala Monamena (itinerário Caúngula-Zôvo). Contudo, a população deste último aldeamento comportou-se dignamente, seguiu bem as instruções dadas pelas nossas tropas, quer refugiando-se nas matas, quer avisando o nosso destacamento militar de Caúngula, conseguiu pôr em debandada o inimigo que conseguiu atravessar a fronteira.

 

No início do mês de Agosto de 1968, um grupo inimigo da UPA (União dos Povos de Angola) constituídos por cerca de 30 a 40 elementos sob o comando de «Noé» saindo do seu aquartelamento em Shauianga na RDC (República Democrática do Congo) entrou em Território Nacional utilizando trilhos pouco usuais, caminhando ao abrigo da noite, instalou-se numa colina com uma cota superior á do nosso aquartelamento do Camaxilo, e flagelou sem consequência a nossa unidade, a zona comercial (Teixeira & Lemos) e posto administrativo com granadas de morteiro 82mm de origem chinesa. Perante a ousadia do acto, as nossas tropas correndo para os abrigos, responderam ao fogo com rajadas de metralhadoras MG34 (Dreyse) e Breda e tiros de morteiro 60mm.

 

Foi lançada inadvertidamente uma granada iluminante very-light que, por arrastamento do vento veio a posicionar-se à vertical da nossa unidade.

 

Felizmente, mais tarde ao serem aprisionados e interrogados pela PIDE/DGS, alguns elementos do inimigo confessaram ter interpretado o lançamento do very-light como um sinal para as nossas tropas no exterior e na proximidade do local de ataque, o que originou de imediato a sua fuga em direcção à fronteira, enterrando os pratos de apoio dos morteiros para agilizar a fuga. Nesta operação, os elementos confirmaram à PIDE, o ferimento do chefe do grupo «Noé».

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