1. Introdução.
O título é uma hipótese que tenho andado a observar já algum tempo. Parece existir uma estrada de dupla via, dois caminhos que são paralelos entre ascendentes e descendentes dum ser humano, um cruzar-se nas diferentes etapas da vida entre adultos e crianças. Um efetivo avançar das crianças que resulta num aparente declínio dos pais. Parecendo que, à medida que a criança cresce, o adulto inicia esse declinar e não a procura de outros objetivos não entrosados à vida com a qual sempre sonhou ou para a qual se preparara ou que teria sido preparado. Todo o adulto, na nossa cultura, é ensinado que o seu objetivo é fazer crianças, nutri-las, cuida-las, ajuda-las no seu crescimento e educa-las.
Ama-las. Ser o peão de pivô, o fantasma do objeto da vida, o apoio necessário para os que andam a aprender. Modelo para filhos, ou para a nova geração, caso filhos não houver. A questão que se coloca não é simples: um dia nasce uma criança e os adultos, alvoroçados, sentem e pensam que o seu olhar deve ser reproduzido; seu pensar, um elo central; as suas palavras, a lei sagrada a ser respeitada. O seu amor, o centro da forma de reproduzir o grupo social. Reprodução com ou sem descendentes, reprodução como memória histórica: o que eu faço é bom, e era melhor ainda, se a geração seguinte fizesse igual. Igual nos sentimentos que me fazem feliz, igual no agir que faz de mim o centro do meu grupo social.
Conquistar a minha hierarquia e ultrapassa-la. Parece ser o sentir das pessoas que tenho analisado este verão na Beira Alta de Portugal, em Pencahue, no Chile e as continuadas visitas a Vilatuxe, Galiza. Sítios que dinamizam a minha observação, a minha conclusão e a minha emotividade.
2. O crescimento das crianças.
Faz anos que convivo com as crianças desses lugares. O tempo passa, elas crescem. Os pais parecem ser os mesmos, enquanto amadurecem. Não só não ficam mais velhos, bem como entendem o real com maior parcimónia Não por anos atrás de anos, terem uma cronologia com um algarismo a mais: o número é irrelevante, a experiência é o mais importante. O adulto vai entendendo a memória social e o contexto que a cria, que a dinamiza, que a produz, que lhe lembra o que fazer, quando e como. Memória que, desde a via paralela, a geração mais nova observa com curiosidade por investigar esse real. Não é ainda uma experiência acumulada, não é ainda uma experiência amadurecida, é apenas uma experiência que desenha o futuro, que quereria querer encontrar. Quereria querer. Quereria atingir. Atingir para conquistar o seu lugar.
Tal e qual o adulto já atingiu criando para si um nicho social dentro do seu grupo. Vias paralelas que se observam: a miudagem que tenta entender esse querer amar, esse querer possuir, esse querer preparar uma vida folgada como recompensa a uma vida de trabalho. O adulto folga-se do sucesso enquanto a miudagem se afasta do cansaço que no sucesso do adulto, vê. O adulto pensa e sente que a sua vida é o lar ao qual a criança deve, um dia, chegar. A criança pensa e sente que esse lar já foi trilhado e é tempo de começar de uma forma diferente.
Os seus adultos foram pais bem cedo, as crianças querem adiar a criação para o dia em que tenham uma vida económica viável. Os seus adultos apaixonaram-se quase na puberdade e criaram crianças; estas, por sua vez, começam a distinguir entre paixão e amor: a primeira, como a junção de corpos no prazer de se acariciarem; o segundo, para cimentar uma união que acompanhe duas pessoas numa eventual procriação ou criação, acrescentando carinho à paixão e ao amor. Um terceiro sentimento novo, que permite a organização de uma vida a dois que os acompanhe até o fim dos seus dias.
