As minhas sardas – Ethel Feldman

 

 

 

Ethel Feldman  As minhas sardas

 

 

 

(Adão Cruz) 

 

 

   Fiquei a pensar como seria a tarefa de contar as minhas sardas…

 

Quando era criança,  morei num bairro de pescadores, em Fortaleza, onde os miúdos traziam na boca histórias fantásticas. O Vavá tinha a cabeça achatada e explicava que era assim porque a mãe quando grávida tinha caido no chão bem em cima da barriga. Recordo o meu espanto com tal explicação. Se ela tivesse caído de lado, como seria o perfil?

 

Um dia o  Pirrita aconselhou-me a lavar a cara com o meu xixi para limpar a cara.

 

A verdade é que sempre tive complexos por ser sardenta.

 

Na adolescência colocava base e as sardas viam-se por baixo – teimosos sinais castanhos que não me largavam.

 

Para as ruivas, o cabelo é da cor da cenoura e faz todo sentido serem sardentas. Eu que sempre tive o cabelo castanho, passava por uma falsa sardenta. Com os anos fui aprendendo a gostar destes pequenos sinais.

No rosto são mais de cem, no corpo outras tantas que invento e não encontro. Umas cresceram como se fossem sementes de uma nova gente. Outras apagaram-se tão cansadas estavam da vida acontecida. Acordam na minha pele todas as manhãs. Vivem comigo desde criança. Namoram umas com outras, casam-se e inventam filhos.

 

Nunca as vi morrer, senão a fundirem-se.

 

Até a hora do juízo final.

 

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