DIÁRIO DE BORDO, 21 de Maio de 2012

 

No Eurointelligence de hoje, que foi publicado às 11 horas em A Viagem dos Argonautas,  pode-se ler que os ministros das finanças da Irlanda e de Portugal acusaram a Grécia de pôr em risco o euro, por falhar continuadamente com o cumprimento das medidas de austeridade previstas no memorando assinado com a troika. Isto terá ocorrido no âmbito das reuniões do Eurogrupo, cujo presidente Jean-Claude Juncker terá mesmo declarado que, se houvesse uma votação secreta sobre o assunto, a maioria dos membros do grupo seria contra a permanência da Grécia no euro. Em termos de pressões sobre os gregos, que vão votar novamente no próximo dia 17, é muito claro.  A democracia na UE, se é que alguma vez existiu (não existiu), está no grau zero.  E a Irlanda e Portugal estão igualmente no grau zero no que respeita a solidariedade entre os países chamados periféricos, mais pequenos e de estrutura económica mais débil. Contam obviamente com a solidariedade alemã, o que é fora de dúvida um erro grave.


Claro que Portugal e a Irlanda também  se encontram em péssimas condições,  sobretudo o primeiro. A Irlanda talvez consiga tirar alguns benefícios do facto de ter uma influente colónia de emigrantes nos EUA, e do apoio do Reino Unido, apesar de todo um passado de litígios. Portugal não tem apoios que se lhe comparem. O Brasil olha com muita reserva os problemas da EU, para o que tem consideráveis razões. E as restantes opções são muito limitadas. Entretanto a postura de submissão e bom comportamento (à maneira da troika, claro) não dá resultados.  Os mercados são muito pragmáticos. É como se dissessem: este cede facilmente, vamos empurrá-lo. E pedir-lhe juros mais altos.


Na segunda-feira passada, às 21 horas, o argonauta Paulo Ferreira da Cunha trouxe-nos um vídeo inspirado no livro de Naomi Klein The Shock Doctrine – The Rise of Disaster Capitalism, de 2007. Ajuda-nos a perceber aquilo em que estamos metidos: um processo de recuperação do controle sobre a economia e a vida em geral pelos grandes circuitos financeiros. Este processo vem detrás, pois remonta ao derrube de Salvador Allende no Chile, passa pela ascensão ao poder de Ieltsin na Rússia, e desemboca na Europa, após a crise financeira de 2008. Diário de Bordo permite-se assinalar que Naomi Klein não é adepta de teorias da conspiração. Limita-se a mostrar que é o próprio sistema que, para se manter, procura afastar as regulamentações que o possam limitar. E vai gerando desastres de todos os tipos, desde os desastres chamados naturais (como por exemplo as destruições causadas pelo furacão Katrina, em 2005, em Nova Orleães), passando por guerras provocadas por nacionalismos exacerbados por ditaduras e governos antipopulares (caso da guerra das Malvinas, entre a ditadura argentina e o governo neoliberal de Thatcher, já nos anos 70) e chegando à crise actual na Europa, resultante do rebentar da bolha financeira do imobiliário norte-americano e da especulação com os produtos tóxicos dela derivados.

 

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